Uma confusão de princípios
Polemizamos com a ideia apresentada pela filósofa Katiuscia Ribeiro, para quem a pauta antifascista seria uma tentativa de dissolver a pauta antirracista.
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Torcedores contra o fascismo na Avenida Paulista. | Foto: Oam Santos/Fotos Públicas
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Torcedores contra o fascismo na Avenida Paulista. | Foto: Oam Santos/Fotos Públicas

No final do mês de maio, o assassinato do negro George Floyd, nos Estados Unidos, fez com que explodisse um movimento gigantesco contra a desigualdade racial no coração do imperialismo. Os protestos, naturalmente, são resultado da crise social em que se encontram os EUA, embora a questão racial tenha aparecido de maneira sobressalente, ganhando adesão em várias partes do mundo. No Brasil não foi diferente: a morte de Floyd causou grande indignação. No entanto, pouco depois, começaram a explodir manifestações em todo o País contra o fascismo, inspiradas no enfrentamento entre as torcidas organizadas e a extrema-direita bolsonarista em São Paulo.

Diante deste cenário, a filósofa Katiuscia Ribeiro, atendendo encomenda feita pelo jornal golpista Folha de S.Paulo, escreveu um texto intitulado “A Luta não é uma luta antifascista”. Seu objetivo seria o de comprovar que o movimento antifascista estaria “sequestrando” as pautas do movimento antirracista.

Por meio de uma série de considerações, a filósofa chega à conclusão confusa de que a pauta antirracista deveria se sobrepor à pauta antifascista:

A raça não tem fundamento biológico, mas encontra nas construções políticas sua base. Desta forma, a luta antirracista (movimento democrático mais antigo) é o movimento mais genuíno e completo pela democracia do Brasil. O direito à vida e a cidadania que temos só é assegurado em uma sociedade antirracista. Não adianta o fascismo ser combatido e o racismo escondido. Acredito firmemente que uma pauta antirracista é, necessariamente, antifascista, mas ao inverter esses fatores adultera-se totalmente o produto.

Dizer que o racismo é necessariamente fascista é, em primeiro lugar, uma incongruência histórica. O racismo, conforme a própria autora destaca existia antes do fascismo — portanto, não poderia englobar esse. São fenômenos distintos e devem ser analisados dessa maneira. Contudo, é inegável que, em uma sociedade como a brasileira, que é resultado de um forte processo de colonização que jamais foi completamente interrompido, é natural que ambas as questões se misturem. É preciso, portanto, encontrar as causas que levam a esses fenômenos, e não sobrepor um ao outro.

Tanto o fascismo quanto o racismo no Brasil podem ser explicados pelas relações sociais estabelecidos no País. O negro, no Brasil, era, até 132 anos atrás, escravizado. Isto é, sequestrado, espancado, separado de seu povo e vendido para que os seus senhores pudessem ter um lucro extraordinário de seus empreendimentos. Por causa da luta do negro, o regime imperial acabou tendo de libertar os escravos. Mas, como esses não conseguiram tomar o poder, as classes dominantes aproveitaram as condições existentes para continuar estimulando todo tipo de prática que tornasse a mão-de-obra negra a mais barata possível São essas práticas, que são fundamentadas economicamente, que recebem o nome de racismo. Como se vê, a luta contra o racismo só pode ser vitoriosa se for uma luta contra a classe dominante: a burguesia.

O fascismo, por sua vez, foi exportado da Europa como um recurso indispensável para que a burguesia não perdesse o poder. Na Itália, na Alemanha, na França e nos demais países que sucumbiram ao fascismo, a burguesia se via em uma crise econômica profunda e precisava impor um regime de terror para evitar que seus inimigos de classe entrassem em movimento e tomassem o poder. E esse terror é sempre destinado aos setores que já são costumeiramente esmagados pela sociedade capitalista, como negros, mulheres e indígenas. O fascismo é um recurso da burguesia e, portanto, só pode ser derrotado por meio da mobilização da classe operária contra os capitalistas de conjunto.

A confusão de Katiuscia sobre o tema reside justamente no fato de que ela se mostra incapaz de analisar a sociedade sobre a base da luta de classes. Para ela, brancos e negros simplesmente se opõe, sem haver razões econômicas para isso, e entre os brancos não haveria uma série de contradições que colocasse um setor majoritário da sociedade branca contra os interesses da burguesia racista. Disse ela:

Falar sobre racismo é tocar pontos sensíveis de uma sociedade. É retirar a máscara de castidade da promíscua sociedade brasileira. É denunciar os mitos permanentes de uma democracia racial que nunca existiu nesse país. Precisamos entender que o esvaziamento das pautas raciais é algo corrente no país e ele parte de um projeto político que insurge tanto na situação com na oposição.

Se fôssemos levar a sério esse tipo de consideração, teríamos de demarcar todos os tipos de luta existentes e seríamos incapazes de nos unir contra a razão de todas as mazelas sociais: os capitalistas. Isto acontece porque o negro não é o único explorado na sociedade. A mulher, mesmo branca, é também pisoteada pela burguesia. O indígena também tem seus direitos diariamente desrespeitados. O operário, ainda que seja branco, também é alvo da crueldade infinda dos capitalistas. Por trás dessa tentativa de sobrepor a luta antirracista está uma política profundamente sectária: a de que o negro teria de lutar sozinho — o que o levaria à derrota — ou a de que o negro teria de impor suas reivindicações a todos os setores da sociedade — o que não seria capaz de unir todos os explorados contra o regime.

Todas essas considerações, portanto, não possuem qualquer validade para a luta política. A luta contra o racismo contribui com a luta contra o fascismo, uma vez que a única beneficiada de ambos os fenômenos é a burguesia. A luta contra o fascismo, por sua vez, faz a burguesia racista recuar e põe em marcha a unidade dos trabalhadores e demais explorados contra seus algozes.

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