Polícia política
Operação contra o governador do Rio de Janeiro, ao mesmo tempo em que militares avançam sobre o regime e mostram apoio ao governo, indicam condições para uma ditadura
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Governador Wilson Witzel (PSC-RJ). | Foto: Philippe Lima

Na manhã de ontem (26), o governador do estado do Rio de Janeiro, o ex-juiz Wilson Witzel (PSC), foi alvo de uma operação da Polícia Federal (PF), a Operação Placebo. Os agentes invadiram a residência do governador e apreenderam seu celular e o de sua esposa, além de um malote cheio de documentos. Outras 10 pessoas também tiveram mandatos de busca e apreensão emitidos como consequência da mesma investigação.

A suspeita da Polícia Federal sobre o governador do Rio de Janeiro seria a de que ele teria participado de esquemas ilegais relacionados à compra de respiradores, equipamentos imprescindíveis diante da epidemia de coronavírus. Witzel está sendo investigado por peculato, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Independentemente das possíveis evidências que os investigadores da PF possam ter de que Witzel praticou algum crime, o fato é que no Brasil, ainda mais depois de o golpe de Estado de 2016, toda operação comandada pela PF e, sobretudo aquelas que atingem diretamente figuras importantes para o regime político, derivam de interesses políticos muito bem definidos. Entre 2013 e 2016, período em que o golpe de Estado estava sendo preparado, isso ficou absolutamente claro: nenhum único representante do imperialismo foi preso, enquanto dirigentes do Partido dos Trabalhadores (PT) e representantes de setores minoritários da burguesia foram perseguidos duramente.

A operação contra o chefe do segundo estado mais importante do país deve ser, portanto, encarada da mesma maneira. Como o acontecimento ainda é bastante recente, não é possível extrair conclusões definitivas sobre o caso. No entanto, a operação não deixa de levantar suspeitas que devem ser cuidadosamente avaliadas durante o próximo período.

Ao que se sabe, Witzel tem entrado em atrito constantemente com o presidente ilegítimo Jair Bolsonaro. Embora os motivos não sejam claros, essas contradições chegaram a explodir em várias trocas de acusações públicas. Nesse sentido, considerando ainda que a PF tem passado cada vez mais ao controle de Bolsonaro — conforme ficou explícito na saída de Sérgio Moro do governo —, é possível que a operação tenha sido ordenada pelo próprio presidente da República.

Nessas condições, a Polícia Federal estaria se tornando uma verdadeira polícia política de um regime que está se encaminhando para uma ditadura. Se antes a PF já demostrava ser um órgão que reprimia a esquerda, agora se mostra um órgão que pode dar poder total ao chefe do Executivo. o que é mais preocupante, inclusive, é que tornar o Brasil uma ditadura aberta não é apenas um “desejo” de Bolsonaro, como está se concretizando como a única alternativa da burguesia para a situação política.

Conforme ficou revelado no vídeo divulgado sobre a reunião de Bolsonaro e seus ministros, as iniciativas de tipo fascista do presidente ilegítimo não são contestadas. Bolsonaro chegou a falar em “armar o povo” para defender o seu governo — o que na verdade significa criar milícias armadas para atacar a população pobre desarmada. Nenhuma dessas declarações foi rebatida pelas Forças Armadas, refletindo o apoio ao governo.

A permissividade da burguesia em relação ao ímpeto ditatorial de Bolsonaro, por sua vez, é o resultado da situação política imediata. A polarização política está aumentando, na medida em que a crise econômica aumenta, e a burguesia tem a compreensão de que se opor a Bolsonaro frontalmente levará ao fortalecimento do outro polo, isto é, da esquerda, que tem no ex-presidente Lula parte significativa de sua expressão.
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