“Minha saída é muito mais útil e poderosa do que a minha permanência”: Jean Wyllys tenta justificar o abandono da luta

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O ex-deputado federal Jean Wyllys (Psol-RJ) concedeu sua primeira entrevista no exterior após ter deixado o Brasil devido a ameaças fascistas, renunciando a seu mandato parlamentar na Câmara dos Deputados, para o qual fora eleito com 24.295 votos pelo Rio de Janeiro. Sua primeira aparição pública fora do país aconteceu em Berlim na última segunda (18), por ocasião do lançamento do filme Marighella, dirigido por Wagner Moura, que também participa da mostra competitiva do 69º Festival de Cinema de Berlim – o Berlinale – um dos mais tradicionais da Europa.

Wyllys, que anunciara seu autoexílio em 24 de janeiro, reafirmou que o fez por temer por sua vida, declarando que “as causas que eu defendo não precisam de um mártir. Já há uma mártir, Marielle Franco. As causas que eu defendo precisam de ativistas”. Revelou ainda que, após sua fuga, novas ameaças teriam sido feitas à sua família.

As ameaças são reais e condizentes com o aprofundamento do golpe de Estado em nosso país hoje articulado em torno da ascensão do fascista Jair Bolsonaro à Presidência da República. De fato, desde o golpe e a posse do ex-capitão do exército, fascistas e direitistas em geral passaram a atacar seus alvos habituais com mais frequência. Sobretudo, aumentaram as agressões às mulheres e aos homossexuais. São os elementos mais vulneráveis da sociedade, e por isso os primeiros a sofrer com a ascensão da extrema direita. A defesa da causa LGBT sempre fora o carro-chefe da atuação política do ex-parlamentar do Psol.

Não apenas seus eleitores, mas todo o país via no deputado uma liderança justamente no combate à homofobia. Na Câmara, Wyllys se tornara o adversário político mais visível do próprio Jair Bolsonaro. Durante a atividade parlamentar discutiram diversas vezes, chegando mesmo a trocar agressões físicas durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff. Politicamente, por isso, a capitulação e fuga de Wyllys representou uma grande derrota para toda a esquerda e, especialmente, para os ativistas das causas LGBT. Evidentemente, não é possível exilar todos os homossexuais do país: é preciso ficar no Brasil e lutar contra o fascismo, organizando comitês de autodefesa. Não cabe mais depositar qualquer esperança nas forças de repressão como agentes de proteção da população e menos ainda no Poder Judiciário diretamente envolvido no golpe. A fuga de Jean Wyllys acabou por reforçar a vulnerabilidade dos próprios homossexuais, colocando em primeiro plano a agressão e o assassinato dessa parcela da população.

Entretanto, a perspectiva de luta – ou de um necessário ativismo – apresentada na entrevista por Wyllys parece tão turva e confusa quanto sempre foram sua política e a de seu Partido. O ex-parlamentar afirmou na entrevista que planeja “alertar o mundo democrático e fazer com que os olhos deste mundo se voltem ao Brasil”, pois essa “é uma maneira de colocar o país sob vigilância e proteger as pessoas que estão ameaçadas”. E complementa: “Nesse sentido, minha saída é muito mais útil e poderosa do que a minha permanência”.

Em que consistiria todo esse poder? Wyllys relatou: “tive uma oferta de asilo político por parte do governo francês, mas o asilo político demora um tempo para sair, e há outras pessoas que precisam dele. Para mim, permanecer aqui com visto de estudante e pesquisador é muito melhor”. Ou seja: em lugar de priorizar sua atuação política, Wyllys pretende enfurnar-se numa universidade europeia para dedicar-se à pós-graduação. Nada de comitês contra o golpe, nada de articular relações com organizações internacionais de ativistas. O ex-parlamentar pretende dedicar-se à tarefa individual da pesquisa acadêmica. Como se sabe, por mais que envolva aulas e palestras, a academia cobra uma atividade de levantamento de dados e de redação de textos que envolve meses, anos de trabalho solitário.

Wyllys tenta ainda explicar que seu tema de pesquisa está ligado a sua atividade política, escolheu estudar o “fenômeno das fake news”, alegando que “as novas tecnologias permitiram a dissolução das fronteiras entre a verdade e a mentira”. Enfim, nosso ativista pretende estudar individualmente aquilo que a vida política não lhe ensinou porque, envolvido com seus próprios problemas, parece não ter enxergado o mundo à sua volta. Pior ainda: parte do pressuposto de que as “novas tecnologias” são as responsáveis pelo fenômeno. Evidentemente, a classe dominante sempre determinou as ideias dominantes – para parafrasear Marx.

Pior: Wyllys parece querer reforçar a ideia segundo a qual foram as notícias falsas disseminadas pelo Whatsapp as responsáveis pela eleição de Bolsonaro. Trata-se é claro, em si, de mais uma notícia falsa plantada pela própria direita. Bolsonaro venceu as eleições porque o processo eleitoral foi controlado pelos golpistas e fraudado em todos os níveis possíveis. Desde a prisão ilegal do principal candidato, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, até a “arrancada milagrosa” dos candidatos de extrema-direita em todo o país às vésperas do pleito. Jean Wyllys, potencial vítima de perseguição política, sequer menciona em sua fala aquele que já sofre concretamente a prisão política determinada pelos golpistas: Lula. Nada de solidariedade, nada de criar uma rede internacional de denúncia das perseguições políticas, evidentemente.

E afinal, se o golpe foi conduzido pelo Imperialismo e gestado em seus países centrais da Europa e América do Norte, que ajuda do “mundo democrático” o ex-parlamentar do Psol pretende obter? Foi justamente este “mundo democrático”, e mais notadamente os Estados Unidos, que promoveu e financiou a ascensão do fascismo no Brasil e a eleição de Jair Bolsonaro.

A posição de Wyllys, infelizmente, não traz nada de novo. Sua atuação política sempre foi confusa. Wyllys declaradamente passava ao largo da luta de classes, que reputa como um valor da “velha esquerda”, substituída pelas causas dos negros, mulheres e LGBTs. O estágio atual de sua militância reflete o erro fundamental de uma abordagem da luta política a partir de um método individualista e não dialético. Wyllys sempre tratou e segue tratando a política a partir do mundo das ideias. Com isso, não baseia a construção das ideias na atividade prática, mas, ao contrário a subordina a sua vontade e “liberdade” individual – conforme reza a ideologia burguesa. Sua capitulação como indivíduo em lugar de sua resistência como líder popular é apenas mais um episódio dessa trajetória. Wyllys não buscou a proteção de seu partido ou da esquerda. Isolou-se e pretende aprofundar esse isolamento.

Entretanto, aos que estão no Brasil – sobretudo os LGBTs – resta sobreviver. Para sobreviver é necessário empreender uma luta política de natureza coletiva. É preciso organizar a autodefesa de toda a esquerda, de todos os movimentos populares. Essa tarefa fundamental está na base da própria mobilização da população brasileira na luta contra o golpe. Justamente de modo a colocar foco na perseguição política promovida pela direita, é fundamental exigir a liberdade para Lula e a deposição imediata de Bolsonaro e todos os golpistas.