Alckmin, apoiador do #elenão, é mais fascista que Bolsonaro

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/EMilhares de pessoas foram às ruas no último sábado (29) num protesto contra a candidatura de Jair Bolsonaro (PSL) à Presidência da República e a de seu vice, Hamilton Mourão (PRTB). O movimento, apelidado com as hashtags que o popularizaram nas redes sociais – #EleNão / #EleNunca – iniciou-se no grupo de Facebook Mulheres unidas contra Bolsonaro há pouco mais de duas semanas. O grupo foi então impulsionado pela imprensa golpista, tendo atingido a marca de 3 milhões de membros. Evidentemente tal alavancagem já era parte de uma estratégia da burguesia, que não tardaria em mostrar a que viera o tal movimento. Trata-se de uma manobra para transferir votos para outro candidato preferencial da Burguesia – como Geraldo Alckmin (PSDB), Marina Silva (Rede) ou Ciro Gomes (PDT) – a ser catapultado para o segundo turno com Bolsonaro. Com a direita e a esquerda bradando em uníssono #EleNão / #EleNunca, será então fácil derrotar o ex-capitão do exército.

De fato, vieram à tona os mais diversos indícios de manipulação direitista do movimento. Surgiu um ambíguo movimento complementar chamado DemocraciaSim, coordenado por banqueiros, apoiados pela usual tríade “artistas, intelectuais e empresários” como Caetano Veloso etc.. Seguiram-se então as adesões de toda a fauna da direita ao #EleNão: personalidades como a apresentadora direitista Raquel Sheherazade, a candidata do capital rentista internacional Marina Silva; o ex-presidente norte-americano Bill Clinton; o comentarista da Rede Globo Arnaldo Jabor; a própria Rede Globo de conjunto; e, claro, o candidato preferencial da direita, Geraldo Alckmin e sua vice, Ana Amélia – a Ana do Relho que defendeu o chicoteamento de militantes sem-terra no Sul durante a caravana de Lula. A esse elenco de filme de terror, juntou-se alegremente a esquerda pequeno-burguesa, em nome de uma suposta “luta contra o fascismo” que estaria encarnada somente na candidatura de Bolsonaro.

Alguns grupos mais entusiasmados com o movimento ainda se recusam a ver a manipulação. Pipocam nas redes sociais argumentos que vão da autoindulgência ao descaramento. A esses pretextos – muitas vezes recorrentes – cabem algumas ponderações.

“De boas intenções, o inferno está cheio”

Primeiramente, deve ficar claro que um eleitor de Bolsonaro não vai deixá-lo para votar em Fernando Haddad (PT) – e muito menos em Guilherme Boulos (Psol) ou Vera (PSTU). Um eleitor duvidoso de Bolsonaro passará seu voto para um outro candidato direitista – a depender daquele com mais chances de vitória sobre o PT. Cerca de metade dos 30% que pretendiam votar no capitão o faz por voto útil antipetista. Sentindo que há outra opção mais viável – como Alckmin –, não hesitarão em mudar de candidato.

Alega-se que Alckmin não tem chances de ver sua candidatura deslanchar. É possível. Mas deve-se convir que também é possível uma união, ainda no primeiro turno, dos candidatos de direita – João Amoedo (Novo), Henrique Meirelles (MDB) ou Álvaro Dias (Podemos). Outros partidos de direita na base de Alckmin – o chamado “Centrão” – declararam abertamente que ainda não fizeram campanha pelo PSDB em suas bases. Eleitores de currais eleitorais do DEM, PR, PP, PRB e Solidariedade – provavelmente contabilizados como “indecisos” nas pesquisas até aqui – podem constituir o eleitorado de um candidato preferencial da direita. Investidores do mercado tampouco descartam essa hipótese, como atesta a própria queda do dólar na última semana. Cabe lembrar que, embora ainda no segundo pelotão, Alckmin já aparece em terceiro lugar nas pesquisas.

Alega-se ainda que se trata de um movimento de esquerda, embora a direita venha “tentando capturar o movimento”. Esse argumento serviu de pretexto para que diversos grupos e partidos de esquerda se lançassem ainda com mais vigor ao que chamam de “disputa de narrativa” no movimento #EleNão. Na visão desses setores, se o ato fosse “de esquerda”, seu resultado se reverteria numa campanha em favor de seus candidatos. Parecem não ter aprendido em 2013 que a burguesia dispõe de amplos recursos para dar a qualquer movimento a “narrativa” que quiser. Foi o que aconteceu. Os atos do dia 29 foram amplamente divulgados nas capas dos principais jornais da imprensa golpistas como massas amorfas e sem cores partidárias. Além disso, “de boas intenções o inferno está cheio”. O resultado eleitoral dos atos seria o mesmo: os eleitores pouco convictos de Bolsonaro dissuadidos pelo movimento ainda vão, evidentemente, migrar seus votos para outro candidato de direita.

Sobre militares e monstros: quem é de fato apoiado pelo #EleNão?

Entramos aqui no ponto em que o raciocínio da esquerda pequeno-burguesa em pouco difere do oportunismo clássico da maioria dos partidos de direita: um franco descaramento. Tem sido cada vez mais comum nas redes sociais a “declaração prévia” de voto em “qualquer um” menos em Bolsonaro. Bolsonaro virou “o coiso” – sinônimo de qualquer entidade demoníaca a ser evitado a todo custo. É a velha estratégia direitista de criar um candidato “monstro”, ou do “espantalho”, que tornaria os candidatos impopulares de direita preferíveis a ele. A história política tem incontáveis exemplos dessa tática. Desde a falsa oposição entre Paulo Maluf (Arena/PDS) e Tancredo Neves (PMDB) no ocaso da ditadura até a eleição do banqueiro Emmanuel Macron na França para barrar o “monstro” Marine Le Pen. O vice de Tancredo era ninguém menos que o direitista José Sarney, ex-liderança do PDS. Macron vem atacando brutalmente os direitos dos trabalhadores franceses.

Quem é o verdadeiro “monstro”, o verdadeiro fascista, nessas eleições senão Geraldo Alckmin? Ele e seu partido são potencialmente muito mais perigosos para os direitos da população, porque estão diretamente alinhados com o imperialismo. O PSDB é parte do núcleo duro do golpe que vem perseguindo e criminalizando a esquerda, que vem retirando direitos da população, que desmontou o Estado brasileiro, que acabou com os programas sociais, que entrega por migalhas ao estrangeiro nossas estatais e nosso patrimônio mineral. Bolsonaro era um outsider, um estranho no ninho golpista, que só foi devidamente “centralizado” quando foi aos Estados Unidos e voltou com seu ministro da Economia, o Chicago Boy Paulo Guedes.

Nessa mesma linha de raciocínio, alega-se que – em função das declarações de Hamilton Mourão – a eleição de Bolsonaro equivaleria a um golpe militar. Tal risco, elucubram, estaria afastado com a eleição de um civil. Há um ano o PCO vem denunciando o risco iminente de um golpe militar, que vinha sendo articulado (nas palavras do próprio Mourão) em “aproximações sucessivas”. E assim vem sendo feito. Intervenções militares no Rio Grande do Norte e principalmente no Rio de Janeiro já colocaram o Exército no poder nesses estados – em suas capitais a repressão já é brutal. Diversos e extensos exercícios militares foram realizados no último ano, inclusive ações conjuntas com o exército norte-americano, numa clara preparação para uma possível invasão da Venezuela.

Há meses ficou claro que o general Sérgio Etchegoyen, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, é quem dá as cartas no Palácio do Planalto, nomeando ministros e membros do segundo escalão na área da defesa. Em manobra análoga, recentemente o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli nomeou o general Fernando Azevedo e Silva como “assessor”. Na segunda (1), o presidente da Suprema Côrte mostrou em entrevista quem realmente comanda o judiciário, ao referir-se ao golpe militar de 1964 como “movimento de 1964”… Algo grave para qualquer jurista que se preze, e gravíssimo no caso do presidente de um dos Poderes da República.

É preciso lembrar ainda que o golpe de 2016 não teria sido levado a cabo sem a anuência das Forças Armadas, e que o Comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, em mais de uma vez ameaçou diretamente o STF de golpe militar, caso a Côrte ameaçasse qualquer passo fora do script imperialista, como no caso do habeas corpus de Lula. Como em 1964, os militares da cepa de Mourão nada mais são que representantes diretos do imperialismo no Brasil – e nada além disso. Esse é o papel político que de fato desempenham, sob as vistosas fardas que emprestam um ar “patriótico” às suas ações na verdade entreguistas.

O controle militar atual sobre o Estado brasileiro já é um fato – embora alguns intelectuais da esquerda pequeno-burguesa como Vladimir Safatle só o tenham descoberto no bojo do movimento #EleNão. Difundiu-se a ideia de que, se eleito, Bolsonaro tornaria mais fácil um golpe militar. Na realidade quanto mais alinhado com o imperialismo for o governo eleito, mais próximo de um golpe militar está o Brasil. E não nos enganemos: o candidato que representa mais diretamente o imperialismo é Geraldo Alckmin, embora Marina e Ciro também se esforcem para chegar à sua altura.

Não há oposição política real entre “democracia” e “ditadura” – há gradações de liberdades democráticas conseguidas à custa de mobilização popular. Nem tampouco eleições garantem um processo democrático – basta lembrar que as houve durante a ditadura militar. A oposição real no campo de disputas políticas é aquela que se dá entre as classes fundamentais, entre o proletariado e a burguesia, entre a classe trabalhadora e o imperialismo. Todo representante do imperialismo é um potencial déspota, pois opera alinhado com os monopólios globais cujo regime político preferencial é a ditadura.

Como ilustração, basta lembrar dos governos recentes do PSDB et caterva no Brasil. Basta lembrar da brutal Polícia Militar dos governos de Alckmin, Marconi Perillo (PSDB-GO) ou Beto Richa (PSDB-PR). É recordar as violentas repressões às mais diversas formas de manifestação popular, é observar o tratamento dispensado por essas corporações às populações pobres das periferias. Lembremo-nos dos muros pintados de cinza pelo prefeito João Dória – talvez o exemplo mais acabado de proto-fascista tucano –, que além disso demoliu edifícios com gente dentro, desalojou moradores de rua com jatos de água fria e colocou São Paulo e seus espaços públicos à venda no mercado global. O PSDB e o DEM foram responsáveis diretos pelo impulsionamento do próprio bolsonarismo no Brasil, ao disseminar sua pauta lacerdista/macartista, ao não reconhecer o resultado das eleições, ao cevar as hostes fascistas com o antipetismo.

Alckmin e Ana Amélia apoiaram o #EleNão porque interessa a seus propósitos eleitorais imediatos. A burguesia alavancou esse movimento como uma hábil forma de manipular não apenas a população como um todo, mas também os setores mais confusos da esquerda, embevecidos com suas caras “pautas identitárias”. Acreditando lutar contra o fascismo, produziram um movimento de massas cujo resultado final é o apoio de candidaturas de direita ainda mais alinhadas com o imperialismo, e portanto com o fascismo e com o avanço de um golpe militar no Brasil. Somente a mobilização resoluta contra o golpe, motivada pela intransigência frente ao fato de que Eleição sem Lula é fraude é capaz de enfraquecer as manobras dos golpistas. Nenhuma unidade com a direita.