Bolsonaro, o novo Maluf

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Jair Bolsonaro foi, durante 17 anos, do partido de Paulo Maluf. Foi do PPB entre 1995 e 2003 e do PP entre 2005 e 2016. Mas não é essa a caraterística fundamental que aproxima o atual pré-candidato a presidente pelo PSL do ex-governador biônico de São Paulo e ex-prefeito da capital paulista, praticamente um símbolo do político direitista e corrupto. Bolsonaro tem outras coisas em comum com Maluf.

Em 1985, a pressão popular gigantesca pelas diretas já resultou na eleição do primeiro presidente civil após o regime militar, mas eleito de forma indireta, depois de uma manobra no Colégio Eleitoral. No final de 1984, foram definidas as chapas da eleição indireta. De um lado, a chapa de oposição, encabeçada por Tancredo Neves do PMDB, político tradicional da burguesia, ligado à direita nacional, que inclusive havia participado diretamente no golpe do parlamentarismo contra João Goulart entre 1961 e 1962. Do outro lado, a chapa do partido da ditadura, o PDS, que escolheu Paulo Maluf como candidato.

Apresentados assim os fatos, tudo parece normal. Maluf foi derrotado, Tancredo ganhou, ficou doente nas vésperas de tomar posse, morreu cerca de um mês depois, e assumiu José Sarney. E está justamente em Sarney a chave para entender a manobra eleitoral feita pela burguesia.

José Sarney se torna vice de Tancredo Neves após sair do partido da ditadura militar e formar a Frente Liberal junto com outros elementos da ditadura. Mais do que um simples racha político, a formação da Frente Liberal era uma manobra da burguesia para constituir, por trás da figura de um oposicionista, Tancredo Neves, a chapa oficial do regime. Uma candidatura abertamente pró-ditadura como era a chapa do PDS, poderia levar a um aprofundamento da crise do regime, já muito debilitado pelas enormes manifestações pelas diretas e a derrota das diretas no Congresso.

A saída de elementos da ditadura, como José Sarney, para a formação de uma chapa que ficou conhecida como Aliança Democrática era a tentativa da burguesia de não perder o controle do regime político. Dessa maneira, Paulo Maluf era apresentado como o grande mal, o homem dos militares, em suma, um espantalho para induzir o povo a aceitar a verdadeira chapa da burguesia e oficial do regime político, a chapa Tancredo-Sarney.

Paulo Maluf foi usado como espantalho ainda em outra eleição. Em 1998, a eleição para o governo de São Paulo terminou por reeleger o tucano Mário Covas. Paulo Maluf era o candidato favorito, tendo terminado o primeiro turno em primeiro lugar com quase 2 milhões de votos a mais do que Covas. No segundo turno, na disputa entre dois direitistas, a burguesia utilizou Maluf para direcionar votos para Covas como um “mal menor”. Ele acabou sendo eleito e o PSDB continua no governo de São Paulo até hoje.

E onde entra Jair Bolsonaro nessa história toda? O candidato ultra-direitista que tem o apoio de um setor de extrema-direita da sociedade está sendo apresentado pela imprenso como o “mal maior”. Se a os golpistas conseguirem êxito na política de excluir Lula da eleição, o caminho estará aberto para que um candidato artificial dos golpistas seja “inflado”. Bolsonaro, apresentado como único até agora que iria para o segundo turno, seria o espantalho ideal para que os golpistas elegessem quem eles quisessem.

A burguesia não quer, pelo menos até o momento, um elemento avulso como Bolsonaro, mas sua candidatura servirá bem aos propósitos de uma manobra eleitoral para eleger o candidato oficial dos golpistas, que ainda não está claro quem será. Fato é que perto do espantalho Bolsonaro e sem Lula na jogada, o golpe eleitoral fica mais fácil.