Polícia Federal
Operações contra Wilson Witzel (PSC) e Roberto Jefferson (PTB) refletem conflitos no interior da burguesia
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roberto jefferson
Ex-deputado federal Roberto Jefferson. | Foto: Marcello Casal Jr./ Agência Brasil (Arquivo)

O período que precedeu o golpe de Estado de 2016 foi marcado por uma sucessão de investigações, apreensões e prisões arbitrárias que tinham como centro de comando a Polícia Federal (PF) e que buscavam promover uma perseguição a dirigentes e aliados do governo petista. Neste momento, em que a crise do regime político se mostra bastante acentuada, as operações da PF voltaram a chamar a atenção.

No dia 26 de maio, Wilson Witzel (PSC), governador do estado do Rio de Janeiro, foi alvo de um mandato de busca e apreensão por parte da Polícia Federal. Witzel teve celulares e documentos tomados pelos agentes, que investigam esquemas ilegais relacionados à compra de insumos hospitalares. O governador, embora seja um elemento da extrema-direita nacional, tem entrado em atrito com o presidente ilegítimo Jair Bolsonaro nos últimos meses, como se viu nas investigações do assassinato de Marielle Franco e na discussão sobre a política que deveria ser adotada diante da pandemia de coronavírus. Ameaças e trocas de acusações se tornaram frequentes entre ambos, o que revela que ambos representam diferentes interesses no interior do bloco golpista.

No dia 27 de maio, porém, foi a vez de quatro apoiadores de Jair Bolsonaro caírem nas mãos da Polícia Federal: Roberto Jefferson, o presidente nazista do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Luciano Hang, o conhecido dono da Havan, Sara Winter, militante bolsonarista filiada ao DEM, e o blogueiro Allan dos Santos. Todos entraram na mira da PF por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), o carniceiro Alexandre de Moraes, que preside o inquérito da Corte sobre a difusão de notícias falsas — as chamadas fake news.

Conforme a própria experiência do golpe contra Dilma Rousseff demonstrou, as operações da Polícia Federal, sobretudo as que envolvem figuras de primeiro plano da situação política e são acompanhadas por uma cobertura exaustiva da imprensa burguesa, sempre correspondem a interesses políticos muito bem determinados. Dito de outro modo, qualquer pessoa que tenha acompanhado minimamente os acontecimentos ao longo dos últimos anos, é capaz de perceber que as possíveis irregularidades na Saúde do Rio de Janeiro ou as notícias difundidas pelos bolsonaristas não são, nem de longe, o real motivo para a ação da PF.

A confusão que se coloca neste momento, no entanto, é a seguinte: durante o golpe, estava claro que o interesse por trás das operações era derrubar o governo do PT. Mas agora, em que bolsonaristas são perseguidos e adversários do presidente ilegítimo também entram na mira da PF, como determinar quais são os verdadeiros interesses por trás das operações?

A resposta é simples: tanto atacar o governo quanto atacar os seus adversários correspondem aos interesses da Polícia Federal, pois o aparato de repressão se encontra dividido em duas alas. Uma, mais ligada intimamente ao governo Bolsonaro, procura criar condições para que o líder de extrema-direita possa governar praticamente sozinho, ignorando todas as amarras que os políticos tradicionais da burguesia representam. Outra ala, mais ligada ao chamado “centrão”, busca controlar o governo Bolsonaro, uma vez que, por suas próprias características, um governo de extrema-direita com plenos poderes poderia colocar todos os negócios da burguesia em risco.

As duas operações refletem, portanto, uma disputa no interior do aparato de repressão para o estabelecimento de uma polícia que seja puramente política, dedicada a perseguir aqueles que se anunciem como adversários. Nenhuma dessas alas, contudo, reflete minimamente os interesses da população: a luta pelo controle da PF é uma luta entre diferentes setores da burguesia. Neste sentido, a vitória de qualquer ala representa um grande perigo para os direitos democráticos do povo, que já estão sendo duramente atingidos desde o processo golpista. Afinal, se a ala da extrema-direita está disposta a perseguir Witzel por considerá-lo um adversário, estará ainda mais disposta a enquadrar toda a esquerda na lei antiterrorista. Se, por outro lado, a ala mais tradicional está disposta a perseguir os bolsonaristas que disparam notícias falsas na internet, certamente que estará disposta a perseguir todas as organizações de esquerda que realizarem alguma propaganda contra a política neoliberal.

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