Sobre o “sectarismo”
Dirigente do PSOL defende Boulos e ataca as posições do PCO, resposta a Valério Arcary, parte 3
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O candidato Boulos feliz entre dois representantes da burguesia. | Arquivo.

Abriu-se uma polêmica sobre o caráter da candidatura a prefeitura de São Paulo da chapa Boulos-Erundina, do PSOL. Em diversas ocasiões, este Diário e outros órgãos de imprensa ligados ao PCO procuraram mostrar que a candidatura serve aos interesses da burguesia, o que explica, por exemplo, a exposição positiva que Boulos vem ganhando em toda a imprensa golpista. O objetivo dessa manobra é impulsionar uma candidatura de esquerda de confiança da frente ampla, para isolar o PT, fazendo com que uma parte dos votos da esquerda migrem para o PSOL.

Essa polêmica resultou em um artigo de Valério Arcary, dirigente do PSOL, criticando as posições do PCO. No artigo, chamado “Uma Causa perdida”, Arcary afirma ser mentirosas as colocações que relacionam Boulos às manobras da burguesia.

Já explicamos em um primeiro artigo que Valerio Arcary não tem nenhum argumento contra o que foi levantado pelo PCO. Ele se limita a fornecer adjetivos acusando as colocação do PCO de “mentirosas”, “caluniadoras”, “delirantes” etc. Já mostramos em um segundo artigo que Arcary pode até não gostar, mas basta um olhar sobre Boulos e Erundina para se chegar à conclusão de que ambos são elementos que servem aos interesses da burguesia, justamente por suas relações e historia políticas.

Examinemos agora outras considerações feitas por Arcary em seu artigo de crítica ao PCO.

Segundo ele, afirmar que Boulos e Erundina são “peças centrais das manobras da burguesia” seria uma calúnia. Os dois seriam “militantes abnegados” e portanto a esquerda não deveria colocar às claras seu papel na luta geral, servindo como instrumentos da burguesia. Mais precisamente, Arcary admite a possibilidade de crítica, mas apenas nos limites que ele mesmo acha razoável: “A Causa Operária tem todo direito de criticar posicionamentos de quem quiser e, até mesmo, considerar que a candidatura Boulos/Erundina não seria oportuna (…) Mas nada, absolutamente nada, pode explicar a conclusão de que a candidatura do PSol seria ‘uma peça central das manobras da burguesia’ (…) é um ataque desonesto. Ou, para responder nos termos que merecem, uma mentira, uma calúnia, uma infâmia.”

Onde caberia, para Arcary, o direito de uma organização de esquerda criticar outra? Ele não explica. Mas podemos concluir que a única crítica possível é a menos relevante possível. Se colocar às claras para os trabalhadores as ligações de elementos da esquerda com a burguesia é “extrapolar a crítica e ser desonesto”, acaba-se com toda a história do movimento operário, repletas de polêmicas desse tipo.

Toda e qualquer organização de esquerda tem não apenas o direito como o dever de esclarecer essas coisas.

Após todos os adjetivos contra o PCO, Arcary lança a mão da caracterização de que o partido é “sectário”: “O que define, essencialmente, o papel político da Causa Operária é o sectarismo. Aqueles que não concordam com a integralidade da visão de mundo dos sectários foram, sumariamente, identificados como inimigos”. Para o dirigente do PSOL, o PCO é sectário pois considera os que não concordam com sua visão de mundo “inimigos”.

Em primeiro lugar, é preciso dizer que as colocações sobre Guilherme Boulos e Luiza Erundina não dizem respeito apenas a um problema de “visão de mundo”. O que foi loevantado – e que Arcary se recusa a contra argumentar – é que a candidatura dos dois está cumprindo um determinado papel nas manobras da burguesia. Não se trata, portanto, de um julgamento moral, mas de uma crítica baseada na situação política e portanto cumpre um determinado sentido político prático na luta dos trabalhadores.

Para entender a origem da calúnia de Arcary de que o PCO é sectário é preciso voltar um pouco na história do movimento operário. Para a esquerda pequeno-burguesa toda organização que tem uma posição política irredutível é sectária. Quem introduziu de maneira mais generalizada esse método caluniador no movimento operário foi o stalinismo. Todos os grupos de esquerda que apareciam com uma posição crítica à posição conservadora dos stalinistas eram acusados de sectários por eles.

Valério Arcary é herdeiro dessa política. Assim como aconteceia com os stalinistas, todos que criticam uma política oportunista são “sectários”.

Essa concepção é de tipo liberal, pequeno-burguesa. Ela é resultado de um espírito de compadrismo que existe entre os diversos políticos e grupos da esquerda. Esse critério liberal-burguês de que não se pode criticar os outros é exatamente a crítica que a burguesia sempre dirigiu contra o marxismo. O próprio Marx afirmava que a burguesia via o comunismo como uma seita satânica.

Diferente do que afirma Arcary, um grupo sectário não é aquele que critica os outros. A crítica é necessária, se não é feita a crítica a uma política prejudicial aos trabalhadores, então se é cúmplice dela. Um partido que tem uma política para agir e mobilizar o povo não é sectário, um partido de ação é o oposto de sectário.

A política do PCO pela liberdade de Lula, por exemplo, é a demonstração prática do que não é ser sectário, assim como foi a campanha do partido contra o golpe de Estado.

E é aí que cabe mais um ponto das acusações de Arcary contra o PCO. Ele se aventura a fazer uma caracterização histórica do PCO. Afirma que o partido oscila entre “momentos de ultra esquerdismo” a ser uma “fração externa e mais exaltada do PT”. Segundo suas palavras: “Os ziguezagues táticos desconcertantes da Causa Operária têm uma longa história de quarenta anos. Já teve, mesmo recentemente, seus momentos de ultraesquerdismo. Nas últimas eleições presidenciais em 2018 convocou à anulação do voto, mesmo diante da candidatura Jair Bolsonaro, porque Lula não conseguiu o registro como candidato. Mas o lugar político da Causa Operária tem sido, há vários anos, o de uma fração externa exaltada do PT, mais lulista que o lulismo.”

Primeiro sobre a posição em relação à defesa de Lula, Arcary mostra uma incongruência em seu pensamento. Ele afirma que o PCO é sectário ao mesmo tempo que ataca o PCO por ser “mais lulista que Lula”. Mas se as coisas são como diz Arcary, de que o PCO considera “quinta coluna” quem pensa diferente, porque então defendemos Lula contra a sua prisão. Ou Lula concordaria com tudo o que o PCO defende e por isso defendemos Lula ou a unidade em torno da defesa de Lula é uma questão prática, tem um caráter concreto, na luta contra a direita.

Ao mesmo tempo em que ataca o PCO por defender uma unidade prática contra a perseguição da direita contra Lula, Arcary critica o PCO por ser “ultraesquerdista” por não votar em Fernando Haddad nas eleições de 2018. Não cabe nesse artigo entrar em todos os pormenores da candidatura de Haddad – fraude, manipulação, prisão de Lula etc -, mas de um ponto de vista geral, podemos justificar tal posição apenas explicando para o sr. Valério Arcary que um partido operário não tem que votar em candidatos burgueses nem pequeno-burgueses.

A crítica de Arcary contra o PCO é reveladora de sua política pequeno-burguesa e frente-populista.

Como um bom representante da esquerda pequeno-burguesa, para Arcary não se pode criticar nem ser intransigente na luta contra a direita, ao mesmo tempo em que se deve ser o mais flexível possível quando se trata de eleição. Isso explica também por que Arcary está tão disposto a apoiar e defender a chapa Boulos-Erundina.

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