Manobras da burguesia
Dirigente do PSOL afirma que a análise do PCO sobre as relações de Boulos e Erundina com a burguesia é “teoria da conspiração”, vejamos os fatos; resposta a Valério Arcary, parte 2
SÃO PAULO, SP, 24.07.2016: ELEIÇÕES-SP - A candidata a prefeitura de São Paulo pelo PSOL, Luiza Erundina, oficializa sua candidatura durante convenção do partido na sede do SINTAEMA, na zona norte da capital. (Foto: Taba Benedicto/Folhapress)
Erundina tem ligações com a burguesia há muitos anos. | Arquivo.

O dirigente da corrente Resistência do PSOL, Valério Arcary, publicou coluna no sítio da organização, Esquerda Online, no último dia 27 de julho, intitulada “Uma Causa perdida”. Arcary, que além de dirigente do PSOL é egresso do PSTU, afirma que o PCO “extrapola os limites da crítica” e mente sobre o significa da candidatura da chapa Boulos-Erundina, que o partido caracteriza como instrumento das manobras da burguesia.

Já explicamos em artigo anterior deste Diário que Arcary não explica nem procura argumentar nenhum dos fatos colocados na análise do PCO. São um amontoado de adjetivos e acusações contra o PCO e elogios a Boulos e Erundina. Apenas adjetivos.

A polêmica levantada por Valério Arcary, no entanto, tem o mérito de possibilitar o debate sobre o tema e esclarecer mais profundamente a questão.

Começando pela questão de que a candidatura de Guilherme Boulos é uma peça das manobras da burguesia, Arcary afirma que não se trata mais de uma discussão política, que estamos diante de uma “vale tudo”. Isso porque, para Arcary, a análise e interpretação de que um determinado setor da esquerda está sendo usado pela burguesia seria uma calúnia. Em suma, segundo essa ideia, não se poderia nunca acusar a esquerda de estar a serviço da burguesia, uma ideia que contradiz a própria história do marxismo e do movimento operário em geral. 

Quem conhece Trotski – e Arcary se reivindica trotskista – sabe que seus escritos estão repletos de críticas mostrando que determinados setores da esquerda estão a serviço da burguesia. Apenas para citar um exemplo, a crítica à Frente Popular na Guerra Cicvil Espanhola, onde estavam todos os setores da esquerda, incluindo os centristas do POUM. Trotski criticou todos eles como tendo levado adiante uma política a serviço da burguesia.

Ao contrário do que Arcary procura mostrar, acusar um setor da esquerda de estar fazendo o jogo da burguesia é um dever da esquerda, em particular dos revolucionários. Se não se denuncia esse fato para esclarecer os trabalhadores, uma organização está servindo para encobrir essas manobras.

Se fosse como afirma Arcary nós só poderíamos nos dedicar a polêmicas superficiais. Fica até difícil de imaginar quais coisas seriam possíveis de criticar sem cair na condenação moral proposta por Valério Arcary.

No caso de Boulos, nós levantamos uma crítica de que ele foi o líder da campanha do “Não vai ter Copa”. Não podemos dizer que essa campanha era uma “opção tática equivocada”? Não. Devemos explicar que aquela campanha cumpria um papel para a burguesia e que estava fazendo o jogo da direita que naquele momento articulava o golpe de Estado e fazia a campanha eleitoral de 2014. Ou seja, tal “erro tático” – se pudéssemos chamar assim – cumpria um papel importante na luta política geral. Boulos inclusive teve todo o espaço na imprensa golpista para “cometer esse erro tático”, com colunas semanais na Folha de S. Paulo onde atacava Dilma com um discurso confuso pseudo esquerdista e defendia o “Não vai ter Copa”.

Nesse caso, Boulos fez o jogo da burguesia numa questão histórica, que foi o golpe de Estado. Não é possível ignorar esse fato. Mas insistimos, Valério Arcary poderia discordar dessa interpretação, mas ele se limita a dizer que o “PCO mente”.

Outra insinuação e fuga do debate é a insinuação de Arcary de que o PCO estaria atacando Boulos pois faz campanha para o candidato do PT.

A crítica do PSOL a Boulos não é uma discussão sobre opções eleitorais. O PCO não vai votar em Jilmar Tatto nem no primeiro nem no segundo turno porque ele não é um candidato operário e não pode impulsionar a luta de classes.

O PCO inclusive não apoiou o PT nas eleições presidenciais, que seria mais importante do que esta eleição municipal. Diferente, inclusive, de quase toda a esquerda, que embarcou na candidatura de Fernando Haddad.

A crítica do PCO é baseada em uma interpretação dos acontecimentos. Boulos é o homem da frente ampla na esquerda, qualquer pessoa minimamente séria deveria tirar aconclusão de que ele está junto com os golpistas. Por isso, a interpretação de que a candidatura de Boulos serve para jogar o eleitorado do PT para a dieita não é uma invenção, é baseada em fatos.

Foi essa a participação do PSOL em várias oportunidades. Esse partido tem servido como instrumento da burguesia para dividir e confundir o eleitorado que tendencialmente votaria no PT para facilitar a vitória dos candidatos da direita.

Para Valério Arcary, a constatação de que Boulos é uma peça de manobra da burguesia é um delírio, uma “teoria da conspiração”. Mas não precisa muito esforça para saber que a posição de Boulos sobre a frente ampla com a direita é a mais aberta possível. Onde estaria, portanto, o delírio?

Apresentar a chapa Boulos-Erundina como grande revolucionária é uma farsa do ponto de vista de Boulos, mas mais ainda se analisarmos a presença de Luiza Erundina. A vice de Boulos tem uma ficha corrida que não deixa nada a desejar para qualquer político burguês.

Quando prefeita de São Paulo, Erundina ajudou a esmagar a greve dos condutores, resultando em 455 demissões políticas, repressão policial e abriu caminho para a privatização do transporte na cidade. Erundina ingressou em um ministério no governo Itamar Franco, contra a orientação do próprio PT, partido que fazia parte na época. Erundina foi membro do PSB por 18 anos. É bom lembrar que o PSB de São Paulo é uma espécie de sub legenda do PSDB, tendo inclusive feito parte dos governos estaduais.

Apenas com essa pincelada na carreira política de Erundina fica realmente claro que afirmar que a chapa de Guilherme Boulos é peça da burguesia está muito longe de ser uma “teoria da conspiração” ou uma paranoia.

Juntando todas essas informações com o destaque que a imprensa golpista tem dado à candidatura Boulos, fica muito claro que se trata de uma operação da burguesia com o principal objetivo de esvaziar o PT e fazer migrar seu eleitorado para a direita.

É uma candidatura que se torna uma peça central das manobras da burguesia. Isso porque o problema político decisivo para o golpe é isolar o PT, mais precisamente a ala lulista. Não porque Lula seja o melhor político do mundo, mas porque o apoio popular de Lula é um obstáculo para os planos da direita. Basta ver os jornais e notar que a mesma imprensa golpista que levanta a bola de Boulos ataca Lula como sendo a “ala má” do PT.

Valério Arcary pode gostar ou não, mas os fatos estão aí.

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