Censura
A esquerda pequeno-burguesa identitária adota uma posição religiosa sobre a arte
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Clássico do cinema, "... E o vento levou" foi retirado de plataformas de streaming | Reprodução.

As mobilizações que iniciaram nos Estados Unidos contra o assassinato de George Floyd por um policial branco e se alastraram por vários países do mundo trouxeram à tona um debate que há algum tempo vem sendo levantado por determinados setores que se reivindicam de movimentos anti-racistas e movimento ditos identitários em geral.

Trata-se da discussão sobre determinados “limites” à liberdade de expressão. Dito de outra forma, esses setores defendem que determinadas obras de arte deveriam ser, se não censuradas, modificadas, quando, segundo sua concepção de mundo, atentam contra minorias ou são moralmente condenáveis. Foi assim que a produtora HBO retirou o clássico do cinema “… E o vento levou” (1939) de sua plataforma de streaming, sob acusações de que o filme era racista. No Brasil, alguns setores querem modificar ou até retirar a obra de Monteiro Lobato do catálogo nacional sob a mesma alegação. A discussão sobre a derrubada de estátuas e monumentos faz parte da mesma concepção dessa esquerda identitária.

Em primeiro lugar, é preciso uma palavra sobre a concepção dessa esquerda pequeno-burguesa identitária. Esses setores, que são de muitos tipos, têm em comum a crença de que o mundo seria modificado pelas ideias. Ou seja, o pensamento, as ideias, a ideologia, a moral seriam o fator determinante dos acontecimentos sociais. Por isso, uma tarefa central seria mudar a cultura, mudar a linguagem para mudar o mundo.

Acredita-se, portanto, que são as ideias que transformam o mundo e não o mundo que determina as ideias. É uma concepção idealista, ou seja, de tipo religioso e portanto moral e anti-científica. Segundo essa concepção, levada até suas últimas consequências, ou seja, levada de maneira coerente, o homem, desde o seu surgimento como espécie – uma espécie social – teria uma moral cristalizada. O pensamento, os sentimentos em relação ao mundo, a moral e a cultura seriam o mesmo agora como há 200, 2 ou 20 mil anos. Colocado assim, parece absurdo, mas é a consequência lógica dos que acreditam que o pensamento e a linguagem determinam as relações sociais.

George Plekhanov, fundador do marxismo russo, em um de seus ensaios sobre arte e estética, Cartas sem endereço, afirma que: “A natureza do homem faz com que este possa ter gostos e conceitos estéticos. As condições circundantes determinam que essa possibilidade se converta em realidade; a elas se deve que tal homem social (isto é, a sociedade, tal povo, tal classe) tenha precisamente esses gostos e conceitos estéticos e não outros.” Ainda segundo o marxista russo, o “desenvolvimento dos gostos estéticos” deve ser considerados do mesmo ponto de vista que o “desenvolvimento dos sentimentos morais”.

O ensinamento dos marxistas mostra-nos, portanto, que a moralidade é um fator determinado pelo meio social, por uma sociedade, uma classe, uma nação etc. Esse deveria ser o ponto de vista na hora de entender e analisar uma obra de arte, seja ela um filme, um livro ou uma pintura. Mais ainda, esse também deve ser o ponto de partida ao analisar até mesmo uma ideologia.

Esse ponto de partida é importante para coompreender porque é absurda a tentativa de censura de obras de arte ou sua modificação. Em primeiro lugar porque uma determinada obra pode ser considerada ofensiva ou moralmente condenável hoje, mas pode ter o significado oposto no passado ou no futuro. Ou seja, a apreciação moral de uma obra nunca é absoluta pois depende do ponto de vista de quem a vê, ou mais precisamente, de que grupo social a vê.

Por isso, a posição dos marxistas em relação à liberdade de expressão é sua defesa irrestrita. Nada de censura. Se todos podem falar o que quer todos podem responder o que quiserem. Ou seja, apenas no âmbito da própria expressão de ideia se pode garantir uma determinada visão crítica sobre tal ou qual obra. Nunca calando o adversário, menos ainda usando o Estado repressor para tanto.

No que diz respeito às obras de arte, os marxistas não pretendem censurar ou limitar a expressão artística: “toda a licença em arte”, diziam Leon Trótski e André Breton em seu manifesto.

Se cairmos na moralidade ou no que hoje se convencionou chamar de politicamente correto para medir as obras de arte estaremos certamente no caminho da barbárie. Não há nenhuma linha concreta, a não ser a própria moral, que diferencie a queima de livros pela Igreja Católica ou pelo nazismo e a censura em nome do politicamente correto. Poderíamos até concordar que a moralidade em voga agora é mais justificável do que os motivos dos nazistas, mas isso não resolve o problema do ponto de vista da ação prática.

George Orwell em seu clássico de ficção 1984, imagina um departamento, o Ministério da Verdade, do governo que reescreve a história, toda vez que algo que contradizia os acontecimentos recentes, ou uma nova declaração do grande irmão. Setores que sofrem do identitarismo se propõem a algo similar: apagar a história humana, com suas virtudes e suas falhas, e substituí-la por uma versão que agrade seus dogmas, um verdadeiro sinal de selvageria, como o regime imaginado por Orwell. A história humana é o que é, o conhecimento dela não perpetua nenhuma pecado ou maledicência, não podemos cometer a mesma barbaridade que a Igreja Católica cometeu ao apagar da história boa parte da herança greco-romana.

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