Repressão à cultura
Ampliar a censura dá margem para que o povo também seja perseguido e impedido de se expressar sempre que for conveniente para a burguesia.
As atrizes Viven Leigh e Hattie McDaniel em cena de E o vento Levou Foto Reprodução
As atrizes Viven Leigh e Hattie McDaniel em cena de “E o vento Levou” | Foto: Reprodução

Na última quarta-feira (10) o filme E o vento levou liderou a lista de filmes mais vendidos na Amazon EUA. Um dia antes (09) a obra havia sido retirada do catálogo da HBO Max  após críticas ao filme, com a justificativa de que traria “representações racistas”. O caso se assemelha às tentativas de censura às obras do escritor Monteiro Lobato por também serem consideradas racistas.

A censura ao filme surge em um momento particularmente importante da luta do povo negro especialmente nos Estados Unidos, onde milhares de pessoas estão indo às ruas protestar contra a violência da polícia fascista que recai sobre os negros e exigindo dentre outras coisas o fim da polícia. É preciso ter claro no entanto que a censura à cultura, que se opera por setores da burguesia, apesar de aparentar ter uma correlação com as reivindicações do povo negro porque estariam em tese acabando com expressões culturais racistas, nada contribuem para emancipação dos negros, muito pelo contrário.

Não está em questão aqui o quão racista é um filme ou um livro, mas a tática no mínimo duvidosa de que a resposta para isto seria a censura, quando é uma verdadeira barbárie permitir, independentemente do motivo, que a cultura seja reprimida, A liberdade de expressão é um dos poucos mecanismos que a classe trabalhadora e o povo possui para se colocar contra os capitalistas que o exploram e matam, apresentar a censura como política a ser adotada é dar armas aos nossos inimigos. Isto porque quem no final das contas vai decidir o que deve ou não ser censurado é a classe dominante, é a burguesia, que vai ter mais um pretexto para usar o fascismo para impor sua vontade sobre o povo como já acontece.

Exemplo disso são as declarações e iniciativas do presidente bolsonarista da Fundação Palmares que está abertamente perseguindo os artistas negros, como os ligados ao rap nacional e ameaça exercer uma censura sobre estes artistas e suas obras, dentre várias de suas declarações no sentido de destruir a cultura negra deixa clara sua perseguição a este setor:  “Projetos com rappers serão aceitos na Fundação Palmares somente após rigorosa checagem da vida pregressa dos “artistas”. Aqueles que enveredam pelo caminho do crime, da apologia das drogas e da putaria, ou se deixam usar como capachos da esquerda, jamais serão contemplados!”.

De nada adiantaria censurar o Sérgio Camargo, pois é ele, como membro do governo Bolsonaro que tem poder de censura, é ele quem exerce censura. Os negros não vão conseguir nenhuma vitória significativa com a ampliação da censura, muito pelo contrário vão ser eles os perseguidos e censurados sempre que a burguesia tiver oportunidade. Particularmente, as investidas da burguesia contra o filme E o vento levou servem tão somente para confundir, para dissimular que eles não seriam racistas e que portanto não devem ser alvo da grande revolta instalada pelos negros contra seus inimigos, demonstram na verdade o medo que a burguesia tem do poder de mobilização popular.

A resposta do povo negro que é perseguido e massacrado pelos fascistas é lutar diretamente contra estes, como tem sido feito nos EUA em resposta aos assassinatos dos negros norte-americanos pela polícia: na rua pressionando a burguesia para conseguir reivindicações realmente importantes como a o fim da polícia; e não por setores da burguesia retirando um filme de um catálogo e promovendo a censura para esconder que também são responsáveis por todo o sofrimento do povo negro.

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