Especialista denuncia perigo de invasão norte-americana da Venezuela

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Segundo o analista venezuelano Jesús Ricardo Mieres Vitanza, diretor do laboratório de ideias Topo el Molino, as condições para um ataque armado imperialista à Venezuela “estão dadas”. Em entrevista à agência de notícias Sputnik, concedida no último domingo, o analista ponderou que “uma intervenção militar dos Estados Unidos contra a Venezuela é uma possibilidade real dentro do curto, médio e longo prazo”.

Topo el Molino – uma referência à localização geográfica estratégica da capital venezuelana – é uma organização que monitora a agenda latino-americana e global em matéria de política externa, estudos estratégicos e segurança. Um ponto de vista privilegiado em todos os sentidos, já que, nas palavras de seu diretor, “desde a vitória eleitoral de Hugo Chávez em 1999, Caracas se tornou um ícone contra o ‘Império’”.

Tal liderança regional do país refletiu-se nas sucessivas insurreições na América Latina no final do século 20 (Argentina, Bolívia etc.), culminando na ascensão generalizada de governos populares de viés nacionalista, como foi o próprio caso dos quatro mandatos sucessivos do PT no Brasil. Tal hegemonia da esquerda começou a ser interrompida com a onda de golpes comandados pelo imperialismo nos últimos seis anos, que já atingiram Paraguai, Honduras e Equador, por exemplo, além – é claro – do Brasil, onde desde o impeachment ilegal de Dilma Rousseff o golpe se aprofunda cada vez mais.

Os ataques do imperialismo ao povo venezuelano já se fazem sentir não apenas nos sucessivos boicotes econômicos, que vêm mergulhando o país numa crise de desabastecimento, mas também no cerceamento à informação, na manipulação das agências de notícias internacionais sobre o que acontece na Venezuela, gerando uma visão distorcida da realidade política e econômica para parte significativa de sua própria população – sobretudo a classe média, como ocorre com os coxinhas brasileiros. Mieres Vitanza afirma que hoje “há uma grande quantidade de pessoas que se encontram psicologicamente afetadas pela incerteza de seu cotidiano. Encontramo-nos isolados de outros países e nações, de formas de pensar, portanto há um isolamento inclusive do acesso às ideias. Não podemos compreender o que vivemos se não conseguimos ter outras perspectivas da própria realidade”.

Diante da vitória eleitoral recente de Maduro sobre a direita golpista, o imperialismo passou intensificou a campanha a favor de uma invasão militar, uma possibilidade assumida abertamente pela administração Trump pelo menos desde agosto de 2017. Talvez não por acaso, no mês seguinte o general Hamilton Mourão Filho viria a declarar publicamente que um golpe militar no próprio Brasil vinha sendo gestado por setores do alto comando das Forças Armadas.

A partir de novembro, na chamada Operação Amazon Log, os exércitos dos Estados Unidos, Peru, Colômbia e Brasil realizaram manobras conjuntas na região de Tabatinga (AM), além de amplos treinamentos em todo o Brasil. Intensificou-se então a ação direta com a intervenção militar no Rio Grande do Norte e no Rio de Janeiro. A possibilidade de que o Brasil passe por uma nova ditadura militar aumenta à medida em que o regime golpista se enfraquece, e que a direita não logra construir uma alternativa eleitoral à candidatura de Lula à presidência.

No último mês, o vice-presidente de Trump, Mike Pence, realizou uma viagem pela América Latina com o objetivo de articular um aprofundamento do isolamento econômico e político da Venezuela, bem como de verificar as possibilidades reais de apoio militar dos países vizinhos a uma invasão do país. De fato, para Mieres Vitanza, “é provável que utilize a Colômbia como plataforma de ataque contra a Venezuela. É provável também que a estratégia de uma operação como essa seja gerar ingovernabilidade e desconexão com o heartland venezuelano – ou seja, Caracas”.

O presidente do principal país imperialista do mundo vem avançando pouco a pouco nas tratativas para uma ação militar na região – embora encontre oposição em seu próprio gabinete e em seus aliados internos. Os custos seriam altos, e teme-se que o resultado seja análogo ao fracasso norte-americano no Vietnam na década de 1960 – de onde foram expulsos por um exército dez vezes menor que o seu.

Para o jornalista da agência Sputnik, José Negrón Valera, e para Jesús Mieres Vitanza, talvez a saída para a crise regional venha justamente da luta contra o golpe em nosso país. A entrevista é interrompida pela notícia da concessão do habeas corpus a Lula pelo TRF-4, na manhã de domingo. Negrón Valera pondera: “Vêm aí tempos interessantes no Brasil”. A situação posterior confirmou que isso só será possível por meio de uma ampla luta operária e popular contra as instituições golpistas.