Boulos

Não, Boulos não é um antirracista

Afinal deveria o povo negro apoiar Boulos?

Personalidades Negras

Personalidades negras brasileiras e Angela Davis – Reprodução

Por Rafael Martarello

Com a proximidade das eleições uma grande diversidade de camaradas tem abertamente declarado seu voto a Guilherme Boulos (PSOL-SP), inclusive petistas e negros.

A colocação principal desse texto é a seguinte: Boulos não é um defensor assíduo do povo negro. Ele só se coloca quando é conveniente aos seus propósitos de crescimento no aparelho burocrático do Estado, mas quando não o é, ele se omite.

Cabe destacar que de forma nenhuma queremos aqui denotar que ele seja racista ou algo parecido. É evidente que ele defende determinadas pautas centrais do movimento negro, tem colegas negros, tira foto e até abraça pessoas negras.

Caso Racismo Reverso da Folha de São Paulo

Na metade do mês de janeiro, o jornal Folha de S. Paulo publicou um artigo de opinião que gerou uma efervescência no debate público chamado “Racismo de negros contra brancos ganha força com identitarismo” do antropólogo Antonio Risério.

Neste texto, o autor menciona que haveria um racismo de pretos contra brancos disfarçado de antirracismo e que esta ideologia já poderia se institucionalizar. O autor cita exemplos isolados do EUA e a forma como a mídia identitária atribuiu uma narrativa que esconde qualquer indicação de racismo.

É um texto pobre, não logra substância ao que se propõe. Sobre suas colocações, me parecem caracterizar como racismo um fenômeno social de ódio racial e de autoproteção racial de grupos oprimidos, logo, figura mais como uma consequência da opressão. Sua construção é ahistórica, desconexa do território, e baseada em casos difusos, isto é, não há uma estruturação organizativa para esse racismo. Lembro que racismo, enquanto potência, pode ocorrer contra qualquer etnia e qualquer etnia pode cometê-lo. Por exemplo, caso alguém faça ações ou discursos anti-islâmicos são traços de racismo ou como se convencionou chamar, de antissemitismo.

Como resposta ao texto da Folha de S. Paulo, houve tanto uma enxurrada de críticas de figuras midiáticas, como também 186 colunistas-trabalhadores da Folha assinaram uma carta de manifestação ao padrão editorial do jornal em relação ao tema.

Entretanto o nome de Guilherme Boulos, colunista da Folha, não consta nessa carta. O aguerrido líder de esquerda poderia encabeçar a lista de assinaturas dos funcionários contra a prática do jornal de Luiz Frias e dar volume ao movimento, mas não o fez.

O político que faz postagens e memes diários sobre todo e qualquer assunto não se pronunciou. Não fez um post, um tweet ou um comentário em mídia. Também não assinou a carta aberta de apoio ao Antônio Risério ou ressaltou sua concordância com o Diretor de Redação da Folha de S. Paulo que respondeu a carta de oposição à matéria feita pelos jornalistas. Claro, a depender do seu entendimento sobre a questão.

Este não é o primeiro caso de omissão, Boulos também silenciou frente ao texto “Luxo e riqueza das ‘sinhás pretas’ precisam inspirar o movimento negro” de Leandro Narloch publicado em 29/09/2021 na Folha de S. Paulo. Que por coincidência era inspirado em um escrito asqueroso e de intenções falsificadoras de Antônio Risério. Nesta oportunidade, Sueli Carneiro, em ato de protesto, se desligou da Folha de S. Paulo, mostrando que o jornal não representava a mudança étnica e discursiva que se propôs ao convidar sua figura ao conselho editorial.

Como disse Emicida na canção Boa Esperança “esse é o xis da questão, já viu eles chorar pela cor do Orixá?”.

Boulos não é um defensor perpétuo do povo negro, sobe em palanques quando é conveniente aos seus propósitos de crescimento no aparelho político do Estado, mas quando não é conveniente para ele ou se a causa entra em conflito com seus patrões, ele tira o dele da reta ao estilo Romário na Copa de 94 durante a falta do Branco contra a Holanda.

Fechamento

Conforme exposto, o texto de Risério é limitado. Poderia ser útil ao menos para criticar esse projeto de divisão e silenciamento da luta de classe trabalhadora contra o capitalismo que é o identitarismo, mas nem isso o faz. Ao final, se resume em tentar subverter a configuração do racismo e em assustar o público branco conservador frente à ascensão social e frente à revolta da população negra.

Revolta essa que me assustaria caso não existe um sentimento contra a inferiorização, contra o escárnio público sobre sua vida desgraçada, contra o apagamento histórico, contra a ascensão social de brancos sobre os seus ombros, contra a fama de criminosos, contra a violência policial, contra o assassinato policial, contra a injustiça judicial, contra a desigualdade social, contra o impedimento à escolarização, contra a desigualdade salarial, contra o tratamento inferior em serviços, contra as acusações falsas, contra a alienação parental, contra a rejeição racial de órfãos, contra a desigualdade no cuidado em sala de aula, contra a demonização da cultura e da religião de ancestrais, contra a desestruturação familiar, contra a habitação em lugares precários, contra os subempregos como única opção, contra os estereótipos de beleza inferior, e contra figurar predominantemente nos piores índices.

Um tema tão importante para se colocar, conforme exposto no parágrafo acima, que havia clara tentativa de subverter a lógica do racismo que impera horizontalmente e verticalmente em nossa sociedade e Boulos se omitiu. Assim, claramente ele não é um racista, mas não é um antirracista.

Por fim, o comportamento omissivo do político só pode ser compreendido dentro do Caso IREE (Escândalo Boulos-Warde) e de sua subordinação à Folha de São Paulo. Essas relações, sem a omissão mencionada nesse texto, já seriam por si só motivos suficientes para colocar em suspeição sua competência ou decência para ser visto como um representante da esquerda socialista e do povo negro e periférico. Agora, considerando a omissão, podemos visualizar que seu posicionamento tem limites, e esses limitados são ditados por grandes grupos financeiros e pelo imperialismo.

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