E o Fora Bolsonaro?
Enquanto os dirigentes do Sindsaúde se mostram dispostos a saírem de casa para protestar contra o governo estadual, o PSTU não sai às ruas pelo Fora Bolsonaro
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Manifestação do Sindsaúde/RN, 10/06/2020. | Foto: Reprodução/Facebook

Na última quarta-feira (9), as ruas de Natal — ou melhor, algumas poucas ruas de Natal — foram testemunha de uma manifestação marcada pela sua bizarrice. Meia dúzia de dirigentes do Sindicato dos Servidores da Saúde do Rio Grande do Norte (Sindsaúde/RN) decidiu ir até a casa da governadora Fátima Bezerra (PT) para protestar, supostamente, por melhores condições para a categoria. O sindicato é filiado à CSP/Conlutas, central de brinquedo do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU).

Vestidos de preto e segurando cartazes com cruzes desenhadas, os dirigentes sindicais fizeram uma encenação típica dos sindicatos dirigidos pelo PSTU: extremamente confusa e sem denunciar a ação dos inimigos dos trabalhadores. Vejamos aqui algumas fotos:

O caráter bizarro do ato e sua profunda desorientação política poderiam ser muito bem justificados se fosse, de fato, um ato da própria categoria dos servidores da saúde. Se os trabalhadores da saúde decidissem se mobilizar por conta própria, quaisquer erros estariam seriam justificados pela inexperiência e pela ausência de um aparato que organizasse a manifestação. No entanto, o que se viu na quarta-feira faz parte de um padrão, que sempre se manifesta quando o morenismo está presente.

Desde o golpe de Estado de 2016 e sua preparação, a posição política em que os indivíduos e, sobretudo, as organizações se encontram ficou cada vez mais definida. A do PSTU, por sua vez, que recebeu até mesmo a alcunha de “ursinho do morenismo”, é uma das que mais se destacaram: morenismo virou sinônimo de antipetismo e de colaboração com a burguesia.

Durante todo o processo de impeachment, o PSTU esteve alinhado com a direita e até mesmo a extrema-direita, que pedia a derrubada da presidenta Dilma Rousseff. Com efeito, militantes e agrupamentos do PSTU chegaram a estar lado a lado com os bolsonaristas nos atos a favor do golpe. A consigna “Fora todos”, defendida insistentemente pelo PSTU, era a expressão pseudo-esquerdista da palavra de ordem da burguesia: “Fora Dilma”. A mesma colaboração se viu durante a perseguição ao ex-presidente Lula e em praticamente todas as iniciativas golpistas do imperialismo em todo o mundo, como no Egito, na Ucrânia, na Nicarágua, na Venezuela e na Síria.

A defesa tão apaixonada de uma política completamente inversa aos interesses dos trabalhadores não poderia deixar de adquirir alguns toques de humor. Afinal de contas, conforme a luta política foi se desenvolvendo, a política de colaboração com os inimigos do povo foi se transformando em um verdadeiro delírio. Tanto é assim que, mesmo depois da chamada Vaza Jato, mesmo depois de fascistas como Demétrio Magnoli clamar por “Lula Livre”, o PSTU defendeu, no congresso da CSP/Conlutas, que Lula “não era inocente”, apesar de não haver qualquer evidência que comprovasse o contrário. De maneira igualmente cínica, os dirigentes morenistas falavam que, depois de Dilma Rousseff, os demais representantes do Poder Executivo seriam derrubados até que o poder caísse nas mãos do povo. O que se viu, no entanto, foi a ascensão de Bolsonaro.

O processo no Rio Grande do Norte se dá de maneira muito semelhante a esses acontecimentos. A governadora Fátima Bezerra é a única a chefiar um estado que integra uma ala mais esquerdista do Partido dos Trabalhadores — uma ala, inclusive, que participou ativamente da luta contra o golpe e que não titubeou em apoiar a candidatura do ex-presidente Lula em 2018. Justamente por causa disso, Fátima Bezerra está sendo alvo de uma campanha por parte da extrema-direita pela sua derrubada. Vários setores do aparato de repressão têm procurado sabotar o seu governo e a direita já solicitou o seu impeachment à assembleia legislativa.

Agora, portanto, que a burguesia sinaliza que quer acabar com o governo no Rio Grande do Norte, o PSTU decide fazer uma manifestação na casa da governadora! Ora, não é possível ser tão ingênuo assim… Embora o PSTU não tenha pedido abertamente o “Fora Fátima”, essa política de protestar contra um governo que está sendo atacado já se mostrou, na prática, uma aliança com os próprios golpistas. Em 2015 e 2016, Guilherme Boulos, coordenador nacional do MTST, levou essa política adiante, optando por lutar contra o “ajuste fiscal da Dilma”, em vez de lutar contra o golpe. O resultado se viu: foi dado o golpe e o governo Temer impôs um ajuste fiscal muito mais monstruoso.

A única conclusão que podemos tirar da manifestação que ocorreu em Natal na quarta-feira é que o PSTU, por seu caráter pequeno-burguês e hiper-sectário, continua se colocando, na luta de classes, de maneira indissociável da burguesia. Incapaz de ter um programa próprio, é também incapaz de ter um programa independente, dicando completamente a reboque dos inimigos do povo.

O outro lado da moeda dessa política de total dependência da burguesia é que o PSTU, ao passo que está colaborando com o “Fora Fátima”, não procurou, até o momento, organizar uma única manifestação pelo Fora Bolsonaro. Em Natal, a situação é ainda mais vexatória que em alguns outros estados: sequer seus militantes participaram dos atos Fora Bolsonaro que têm ocorrido nas últimas semanas. O isolamento social morenista possui um filtro bastante curioso: permite ser quebrado para protestar contra o governo do PT, mas deve ser cumprido com o mais absoluto rigor para não atrapalhar o governo Bolsonaro.

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