Crise na Europa
“Next Generation EU” é o nome dado ao plano de recuperação econômica de 750 bilhões de euros, que gerará ainda mais dívidas aos países membros
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Capitalistas geram a crise e se alimentarão da dívida dos países da UE, paga pelo povo | Foto: Jurjen/Flickr

Por Eduardo Vasco

No meio da semana passada, a Comissão Europeia aprovou um fundo de 750 bilhões de euros para recuperar a economia da região, em meio à crise econômica sem precedentes para a União Europeia, acentuada pela pandemia do coronavírus.

O pacote atende à proposta acordada entre os dois tubarões do bloco, Alemanha e França, de 500 bilhões de euros como subsídio. Mas os outros 250 bilhões demonstram que o pacote é uma espécie de conciliação com países como Áustria, Holanda e Dinamarca, que pressionavam para que a ajuda fosse feita através de empréstimos. Desta forma, dos 750 bilhões, 500 bilhões serão via subsídios cobertos pelo orçamento da UE e 250 bilhões serão pegos emprestados no “mercado” e deverão ser devolvidos – além do aumento temporário do teto do orçamento do bloco em 2% de seu PIB, esses recursos virão da emissão de títulos de dívida pela UE, que deverão ser reembolsados aos investidores entre 2028 e 2058.

A própria presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reconheceu que as próximas gerações terão de reembolsar a dívida gerada. Será uma brincadeira de mau gosto o nome dado ao plano, de “Next Generation EU”?

Até mesmo alguns jornalistas da imprensa europeia teceram críticas ao pacote, pois, na prática, os países terão de se virar, embora, em um primeiro momento, o clima seja de esperança por uma união frente à crise. Isso significa que, em particular os Estados mais pobres, ficarão reféns, inevitavelmente, dos grandes bancos franceses e alemães.

Nas próximas semanas isso ainda será discutido para que o Conselho Europeu, que reúne os líderes dos Estados-membros da União Europeia, tome uma decisão definitiva. Mas alguns detalhes adiantados já apontam para a correção da análise deste artigo e do anterior.

Senão vejamos: a Itália é o país que vai receber mais dinheiro do fundo. Serão 172,7 bilhões de euros, sendo 81,8 bilhões de subsídio e 90,9 bilhões de empréstimo. Receberá mais empréstimo do que ajuda. Ela já é o país com a maior dívida da Europa (o montante deverá chegar a 158,9% do PIB até o final do ano). Isso significa que irá contrair ainda mais dívida.

A Espanha vem logo depois nessa “ajuda”, com o recebimento de 140,4 bilhões de euros, sendo 77,3 bilhões de subsídio e 63,1 bilhões de empréstimo. Ela é o segundo mais endividado do bloco, dívida que deverá chegar a 115,6% no final de 2020.

Já os manda-chuvas da Europa continental, França e Alemanha, receberiam apenas ajuda a fundo perdido, o primeiro de 38,7 bilhões de euros e o segundo de 28,8 bilhões.

Como dito no artigo anterior, os capitalistas aprenderam com a crise de 2008 e não estão perdendo tempo nenhum para endividar os povos europeus. O Banco Central Europeu já havia comprado equivalente a 750 bilhões de euros em dívida soberana dos países, em um programa que vai até o final do ano.

Os empréstimos aumentam sobremaneira o peso da dívida aos países mais endividados. A economia da União Europeia está cada vez mais em decomposição. O BCE atualizou suas estimativas de queda do PIB da Zona do Euro para até 12% até o final do ano, algo inédito, quase três vezes mais do que em 2009 (-4,5%).

A presidente do BCE, Christine Lagarde, disse que a melhora dessa situação vai depender da velocidade em que se dará a reabertura e a retomada da atividade econômica. Aí já vemos também o desespero dos capitalistas em acabar com a quarentena, jogando os trabalhadores para morrerem de coronavírus a fim de salvarem os seus lucros.

Milhares de trabalhadores já perderam seus empregos e milhões poderão ter o mesmo destino, segundo as estimativas das próprias empresas europeias – que, por sua vez, recebem vultuosa ajuda estatal para não quebrarem. Na França e no Reino Unido, desde 1996 não havia tanta gente desempregada. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), um em cada seis jovens perdeu o emprego durante a pandemia. Será essa geração que deverá arcar com os custos da dívida com os banqueiros sanguessugas.

Diante da crise capitalista que só se aprofunda, e que não irá parar com esses pacotes de “ajuda”, mas que, pelo contrário, tende a piorar muito a longo prazo, as novas gerações que terão de pagar a dívida até a metade do século estarão mais empobrecidas.

A União Europeia, uma organização dominada pelos bancos dos países imperialistas, pode não aguentar a crise que virá de suas próprias contradições. Se, por um lado, a juventude trabalhadora está destinada a arcar com os custos da crise na Europa, por outro é ela quem tem na mãos as ferramentas para desmontar esse gigantesco aparato de exploração e transformá-lo em um verdadeiro mecanismo de integração dos povos, sem os parasitas de sempre.

A única certeza é que o próximo período que se abre será de intensa instabilidade econômica, política e social.

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