Recife
No protesto contra a morte do menino Miguel, em Recife, as tentativas de despolitizar o ato permitiram a atuação dos inimigos do povo
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Repórteres se amontoam para colher depoimento de familiares de Miguel. | Foto: Diário Causa Operária

O protesto contra a morte do menino Miguel, conforme já noticiamos neste diário, foi o primeiro ato expressivo que aconteceu na cidade do Recife desde o início da pandemia de coronavírus. O protesto, conforme dito pelo dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de Pernambuco, Enoque Amâncio, em declaração à Causa Operária TV, foi mais uma manifestação contra os ataques do governo Bolsonaro à população. No entanto, de maneira extremamente cínica, a imprensa capitalista, sendo acompanhada pela esquerda pequeno-burguesa, procurou apresentar o ato como uma manifestação “apolítica”, acima da luta de classes, em que as contradições entre direita e esquerda deveriam ser dissolvidas por algum bem comum.

Uma declaração nas redes sociais sintetiza de maneira perfeita a propaganda da burguesia:

Não vamos entrar aqui no mérito de discutir o que os familiares do menino Miguel pensam sobre o assunto. Em primeiro lugar, o fato é que ninguém sabe exatamente qual é a sua posição em relação a como o protesto deveria ser conduzido, pois eles jamais afirmaram publicamente suas preferências. Em segundo lugar, o ato era, conforme afirmamos desde início, um ato político, um ato de indignação do povo contra a política da direita golpista: deveria caber ao povo, portanto, intervir livremente na manifestação. Discutiremos, dessa forma, a tese dos “abutres e oportunistas”.

Dificilmente há ato público em que não haja abutres e oportunistas. A discussão fundamental, no entanto, é a de que tipo de abutre e oportunista estamos falando. Segundo a imprensa burguesa, abutre e oportunista é aquele que vai a alguma manifestação para tentar politizar o ato: levantar bandeiras, protestar, panfletar, defender um programa partidário etc. Isso, no entanto, não tem nada de oportunismo em si. O fato é que sem a intervenção aberta dos partidos políticos e das organizações do povo, qualquer manifestação fica vulnerável a todo o tipo de oportunismo possível. E o caso do protesto contra a morte do menino Miguel foi um exemplo disso.

Ao contrário dos atos relativamente democráticos que têm acontecido no Brasil, em que o povo, na rua, pôde se manifestar livremente, gritando o que queria e da forma que queria, o protesto da última sexta-feira revelou uma ditadura por parte das organizações da esquerda pequeno-burguesa que estavam no comando. O ato, em primeiro lugar, não tinha carro de som. Muito ao contrário do que possa parecer, isso não permitia que as pessoas pudessem gritar o que quisessem no ato. Os organizadores repetiam insistentemente: “a única palavra de ordem da manifestação é Justiça para Miguel”, intimidando quem não seguisse essa diretriz. As orientações, por outro lado, eram passadas todas em forma dos conhecidos jograis, que além de serem bastante irritantes, são a maior expressão da ditadura da esquerda pequeno-burguesa, visto que, em geral, apenas uma pessoa tem sua voz ecoada pelos demais durante todo o ato.

Se os gritos que não fossem para pedir “Justiça para Miguel” eram proibidos, obviamente que as faixas e bandeiras também eram alvo de censura dos “donos da rua”. Conforme noticiado neste diário, os organizadores chegaram ao absurdo de tentar proibir que uma faixa que pedia Fora Bolsonaro fosse aberta na manifestação. Utilizando o pretexto pedante e direitista de que “o povo não entende que a morte de Miguel é um crime de racismo”, os organizadores tentaram calar a todo custo qualquer manifestação abertamente política. No final das contas, essa história de que o povo não seria contra o racismo viria por água abaixo pela intervenção do povo das favelas aos arredores.

A preocupação com a aparição de “abutres e oportunistas” era tanta que os organizadores “sugeriram” que os manifestantes fossem vestidos de preto. O que é, inclusive, bastante irônico, uma vez que preto é a cor da penugem do abutre. É preciso assinalar, inclusive, que todos os militantes da esquerda pequeno-burguesa que estavam presentes assumiram o compromisso com a cor preta: PSTU, POR e PCB, entre outros, puseram o vermelho de luto.

A pergunta que é preciso ser feita, diante de tudo isso, é: no que essas medidas antidemocráticas contribuíram para impedir que o protesto tivesse “abutres e oportunistas”? Ora, se os partidos políticos, as organizações e o povo pudessem se manifestar livremente, diriam que “Justiça para Miguel” é derrubar o governo Bolsonaro e expulsar a extrema-direita das ruas. Sem a possibilidade de o povo apresentar um programa para a “Justiça ara Miguel”, a direita pode muito bem transformar essa reivindicação em mais repressão para o povo negro e pobre. E foi exatamente isso que aconteceu.

Com esse cenário aparentemente “neutro”, a direita nadou de braçada no ato, e os verdadeiros abutres, os mais canalhas, aqueles que deveriam ser o alvo da revolta do povo, se tornaram os maiores beneficiados. Em primeiro lugar, precisamos destacar os abutres da imprensa burguesa, que estiveram em peso no ato. Pelo menos quatro emissoras de televisão estiveram presentes e circularam livremente entre os manifestantes, fazendo coberturas ao vivo. A foto que ilustra esse artigo é mais do que suficiente para demonstrar o caráter abutre da imprensa: os repórteres foram obrigados por seus patrões a esquecer qualquer medida de isolamento social e transformaram o ato em uma corrida pelo melhor depoimento dos familiares de Miguel.

Outro elemento que se beneficiou do ato foi a extrema-direita bolsonarista, que é mercenária e oportunista por natureza. O grupo “Direita Pernambuco”, que é um dos principais núcleos de apoio do presidente ilegítimo Jair Bolsonaro no Nordeste, publicou uma mensagem elogiando a maneira como a esquerda pequeno-burguesa conduziu o ato, sobretudo em relação à proibição de faixas. Se o ato fosse um ato do povo, qualquer figura da direita que fosse reconhecida seria expulsa violentamente.

A Polícia Militar também se viu bastante recompensada no ato. Os policias, que são o maior inimigo do povo negro pobre, escoltaram o protesto do início ao fim e saíram como grandes irmãos dos trabalhadores em sua dor e sofrimento na perda de um ente querido.

As medidas ditatoriais tomadas pela esquerda pequeno-burgues foram tais que permitiram até mesmo uma conciliação entre o povo negro, humilhado dia após dia, e a burguesia, essencialmente branca e racista. O ponto escolhido para a conciliação foi o local onde a criança morreu, conhecido como “torres gêmeas”. Ao chegar ao local, em vez de os organizadores incentivarem o povo a se revoltar contra as pessoas que moram nas “torres gêmeas”, a esquerda pequeno-burguesa se confraternizou com os moradores dos edifícios. Vale lembrar que quem lá reside é basicamente a burguesia pernambucana, incluindo aí o senador fascista Jarbas Vasconcelos (MDB).

As medidas da esquerda pequeno-burguesa para controlar os atos são, como se viu, um total desastre. É preciso derrubar já essa ditadura e fazer com que o povo possa se expressar livremente!

Apesar da “luta contra o oportunismo”, é necessário destacar o aspecto positivo do protesto do dia 5 de junho. A manifestação foi importante para que a esquerda voltasse às ruas e contribuiu, portanto, para que acontecesse o ato de ontem (7) no centro do Recife. Merece destaque também o fato de que, apesar de toda a tentativa de a esquerda pequeno-burguesa controlar o ato, o momento em que o povo realmente ingressou no protesto forçou a manifestação a se tornar mais democrática.

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