“A arte venceu”
Saldanha afirmou que “o futebol brasileiro é uma coisa jogada com música”
João-Saldanha-Foto-Reprodução-Por-dentro-da-mídia
Sua popularidade era muito grande entre as massas | Reprodução.

Nas comemorações dos 50 anos da conquista do tricampeonato mundial pela Seleção Brasileira, um nome deve ser lembrado, embora não estivesse na equipe que se sagrou campeã. João Saldanha foi o técnico que criou as condições para o título, tendo classificado o Brasil com aproveitamento de 100% nas eliminatórias da Copa.

Jornalista e cronista esportivo, além de dirigente e treinador, Saldanha era membro do Partido Comunista Brasileiro. Sua demissão um mês antes da viagem para o México só pode ser explicada por suas posições políticas. À parte toda a especulação fato é que um comunista liderando o time mais popular do mundo em pleno endurecimento da ditadura militar não poderia agradar os golpistas. Assim como os golpistas de hoje, herdeiros dos militares do regime de 1964, a direita não tem nenhum apreço pelas expressões genuínas do povo, embora lance mão de demagogia sempre que queira se beneficiar de um acntecimento.

O futebol brasileiro, expressão cultural genuína de seu povo, não agrada a burguesia e a direita, mas é visto como um “filão” para aumentar seus lucros e garantir sua manutenção no poder.

A demissão de João Saldanha se explica por isso. Era demais para os generais, por mais que isso tenha colocado em risco a própria campanha da Seleção, suportar um comunista no comando da Seleção que, como ficou provado posteiormente, poderia ser campeã e se tornar o acontecimento mais popular daquele ano.

Em geral, neste Diário e em toda a imprensa ligada ao Partido da Causa Operária, procuramos refutar a ideologia da classe média – de esquerda e de direita – de que o futebol seria um mecanismo de “alienação” do povo. João Saldanha está entre muitos personagens que desmentem essa ideia completamente falsa.

A esquerda deve, ao contrário, valorizar o futebol como produto das massas exploradas, como forma, ainda que limitada por se tratar de um fenômeno cultural, de libertação do povo. Nesse sentido, o personagem de João Saldanha deve ser valorizado, assim como o de tantos outros artistas da bola.

Militante Comunista

Longe de ser apenas um membro do PCB, filiado em 1942, Saldanha foi de fato um militante comunista. Desde que ingressou no partido atuou em várias frentes políticas. Militou na ilegalidade, viajou a pedido do partido para intervir em lutas políticas. A mais importante delas foi sua participação na greve geral que paralisou 300 mil operários em São Paulo e no restante do País, em 1953. João Saldanha cumpriu papel importante como membro da direção do partido na greve, tendo atuado inclusive junto com Marighela quando este era dirigente do PCB.

Saldanha, portanto, era popular no esporte, como ex-técnico e dirigente do Botafogo e por sua atuação como cronista, jornalista e comentarista de rádio, e era popular entre as massas operárias mobilizadas. Segundo relatos, um ouvido atento no Maracanã poderia reconhecer a voz de João Saldanha sendo acompanhada nos radinhos ao pé do ouvido dos torcedores. Talvez o perigo visto pelos generais não tenha sido o fato de Saldanha ser comunista, mas de ser um comunista popular. O regime militar provavelmente o via cmo uma ameaça, afinal, não precisa ter imaginação muito fértil para advinhar que se trouxesse o caneco para o Brasil, Saldanha provavelmente se transformaria na figura mais popular do País.

Não se tra, logicamente de opor Mário Lobo Zagallo a João Saldnha. Mas fato é que a troca de treinador nos momentos anteriores à Copa, sendo que João Saldanha havia feito uma campanha impecável nas eliminatórias e formado a base daquele time, foi uma sabotagem contra a Seleção por parte dos militares. O pretexto para a demissão seria a tentativa de interferência do general presidente Emílio Garrastazu Médici para que Saldanha convocasse Dadá Maravilha. Perguntado em entrevista sobre isso, Saldanha teria respondido “Ele [Médici] escala o ministério, eu convoco a seleção”. A demissão veio duas semanas depois.

Tudo isso foi objetivamente uma operação de sabotagem da Seleção, o que desmente a tese de que o tri campeonato teria sido resultado de alguma manipulação da ditadura.

O espirito militante e progressista de João Saldanha estava expresso também em suas concepções sobre o futebol. Saldanha era um defensor do futebol arte e ofensivo, e um crítico do que hoje se convencionou chamar de futebol moderno que para ele era, na realidade, antiquado: “quem quiser explicar um jogo de futebol moderno dizendo ou escrevendo que está, ou aquela equipe jogou 4-2-4 ou 5-2-3, ou se quiserem ainda 4-4-2 e ainda 4-3-3, está enganando os leitores ou ouvintes”, dizia ele.

Sua defesa do futebol arte, do futebol brasileiro, está intimamente ligada a suas ideias progressistas, comunistas. Saldanha levou adiante até o fim essa defesa. Com certeza sua mente revolucionária tenha sido um dos fatores primordiais para que a Seleção do tri se tornasse revolucionária como foi.

“A arte venceu”, assim intitulou sua crônica no jornal O Globo, após a vitória do Brasil por 4 a 1 na Itália na final da Copa, resumindo o que foi aquela Seleção.

“Antes de mais nada, quero dizer que que a vitória extraordinária do Brasil foi a vitória do futebol. Do futebol que o Brasil joga, sem copiar ninguém, fazendo da arte dos seus jogadores a sua força maior e impondo ao mundo futebolístico o seu padrão, que não precisa seguir esquemas dos outros, pois tem sua personalidade, a sua filosofia e jamais deverá sair dela. Foi uma vitória do futebol. O futebol que nós gostamos de ver e aplaudimos e que o mundo ontem teve de se curvar.

Em segundo lugar vou fazer uma série de cobrantinas. Cobrantina de quem disse que o Brito não sabia nem amortecer uma bola. Cobrantina de quem disse que o Brasil não tinha ponta direita, ou que Jair não era ponta direita no Botafogo. Hoje está aí Jairzinho, consagrado como o melhor ponta direita da Taça do Mundo.

E poderia ir por aí afora, fazendo uma série de cobrantinas, mas o dia é de alegria. É de vibração e confesso que estou emocionado. Esta equipe do Brasil , que marca 41 ‘goals’ e sofre apenas nove na sua campanha no Mundial, contando com os jogos das Eliminatórias, é uma seleção. É um timaço de futebol, que adquiriu consistência em suas linhas, sem que lhe roubassem o seu estilo, a sua característica e aí uma das principais razões do sucesso.

É justa a nossa vibração e a minha, em particular, é pela vitória da arte, que continua sendo, dentre as variadas concepções do futebol moderno, a verdadeira razão de se encherem estádios e s identificação mais sólida e decisiva do futebol do Brasil.”

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