Seleção revolucionária
Em 1970, o Brasil sagrou-se três vezes campeão mundial e afirmou definitivamente sua superioridade no futebol mundial
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O artista nos braços do povo mexicano. | Reprodução.

Há exatos 50 anos, em domingo como hoje, o futebol mundial nunca mais seria o mesmo. A maior Seleção que o mundo já viu jogar até hoje consagrava-se campeã da Copa do Mundo e marcava o ápice do que ficou popularmente conhecido como “futebol arte”, cuja principal elaboração vinha do futebol e dos jogadores brasileiros.

Liderada por Pelé, aquela Seleção dava o tricampeonato mundial para o Brasil após uma vitória sobre a Seleção italiana por 4 a 1, se tornando a primeira seleção a ganhar três copas e portanto ficando em definitivo com a Taça Jules Rimet.

Aquela Copa do Mundo, em primeiro lugar pela presença da própria Seleção Brasileira, é considerada a maior da história em relação ao nível técnico apresentado. Para entender isso, é preciso compreender o desenvolvimento do futebol não como simples modalidade esportiva, mas como “arte” genuína desenvolvida pelos brasileiros e sul-americanos em primeiro lugar. Esse novo estilo de jogar futebol desenvolvido pelos negros e pela classe operária brasileira foi um fenômeno cultural que acabou sendo exportado para os europeus, criadores iniciais da modalidade que surgiu na Inglaterra.

É nesse marco que se encontra a Copa de 1970 realizada no México.

A história pregressa

Em geral, um movimento cultural e artístico passa por etapas de evolução: a criação, que podemos chamar de “fase heroica”, a luta para se tornar dominante, o desenvolvimento e refinamento da técnica criada inicialmente e o ápice de sua criatividade e expressão. O mesmo se deu com o futebol. Nas primeiras décadas do século, o esporte começou a ser desenvolvido e transformado pela presença dos negros e trabalhadores, que como produto de uma luta para se firmarem nos campos, acabaram desenvolvimento uma técnica inovadora, o que virá a ser o “futebol arte”. Essa nova técnica, segundo alguns estudiosos, já se mostrava superior a partir de meados da década de 1930. No entanto, era preciso agora superar as barreiras econômicas e políticas impostas pelos europeus.

A vitória na Copa de 1958 acabou por provar ao mundo essa superioridade, o que já em 1950 poderia ter ocorrido não fosse o desastre do Maracanazo, em grande medida produto de pressões políticas da época. O bicampeonato em 1962, mesmo com as dificuldades da Seleção, tendo Pelé contundido desde o início da Copa, acabou por mostrar aos europeus de maneira definitiva que o futebol brasileiro não poderia ser superado por meios “normais”, mas seria preciso uma série de artefatos para pará-lo. A força física e a violência aberta foram a marca da Copa de 1966, e o aparente fracasso brasileiro constitui exceção à regra e serviu como experiência preparatória para 1970.

Uma Seleção revolucionária

A Copa do Mundo na México contava não apenas com os maiores jogadores do mundo, todos eles brasileiros, mas também com a experiência pregressa das Copas anteriores.

Essa experiência permitiu que os jogadores, liderados por Pelé, que havia passado pelas copas anteriores, adquirissem maiores condições de enfrentar a violência em campo. De todas as seleções anteriores, a de 70 contou com um maior cuidado no preparo físico dos atletas. Ou seja, de um modo geral os jogadores brasileiros ingressavam definitivamente no profissionalismo como atletas.

O mais importante no entanto é que aquela Seleção, do ponto de vista técnico, acumulou todo o desenvolvimento do futebol arte até então. Era o cume de um verdadeiro movimento artístico com a bola nos pés.

Segundo afirmou o atacante tricampeão Tostão, em entrevista ao jornal Lance!, publicada na última sexta-feira (19),  “O Brasil era muito moderno. Ia à frente e voltava para marcar com desenvoltura. Era uma grande equipe, revolucionária!”.

A definição é precisa. O que foi apresentado pela Seleção brasileira em 1970 era uma revolução em termos de futebol. Tudo o que havia sido desenvolvido pelo futebol arte brasileiro e sul-americano, e até mesmo determinadas técnicas europeias, principalmente no que diz respeito ao preparo físico, estava concentrada naquela Seleção.

Essa verdadeira revolução tem como seu principal expoente o próprio Pelé, um verdadeiro gênio dessa arte chamada futebol. A concentração de todas essas características em um jogador.

O uso pela ditadura militar

Acostumada a entender os fenômenos históricos e culturais de um ponto de vista unilateral, parte da esquerda pequeno-burguesa procura desfazer os feitos daqueles brasileiros sob a alegação de que tudo teria sido uma armação da ditadura militar, que naquele momento passava por seu período mais tenebroso.

Em primeiro lugar, é inegável que a ditadura tenha usado a vitória brasileira como propaganda do regime. Qualquer governo faria o mesmo, ainda mais se tratando de um governo hiper direitista.

Mas isso não significa que a ditadura tenha dito papel na vitória brasileira. Na realidade, o papel da ditadura e dos meios oficiais foi de certa sabotagem da Seleção. Um exemplo muito claro dessa sabotagem foi a troca de técnico cerca de um mês antes do início da Copa.

João Saldanha, reconhecido comunista, foi tirado da Seleção mesmo tendo sido o responsável por armar o time e classificá-lo para a Copa. No seu lugar foi colocado Zagallo. A troca de um técnico que até então estava sendo vitorioso, independente da qualidade de Zagallo, obviamente constitui um fator de instabilidade para qualquer time.

Há ainda o papel da imprensa burguesa na época, que como hoje é dada a atacar a Seleção e seus jogadores. Quem conhece as crônicas de Nelson Rodrigues e outros que escreveram na época percebe que a Seleção estava longe de ser reconhecida como favorita. Havia uma pressão gigantesca por parte da imprensa burguesa, aliada do regime, contra a Seleção a ponto de que Nelson Rodrigues, em uma de suas crônicas, pedir que a Seleção deixasse logo o País para sua preparação no México para ficar longe dessa pressão.

Fica claro que a posição oficial da burguesia na época, embora tenha feito muita demagogia com a Seleção, foi muito distante de uma apoio irrestrito. Muito diferente, apenas para citar um exemplo, do que ocorreu na Copa do Mundo de 1978, cuja vitória da Argentina, que sediava o mundial, foi garantida com a participação direta do governo militar.

A posição que procura deslegitimar a superioridade da Seleção de 1970 e portanto do próprio futebol brasileiro é na realidade uma posição contrária à cultura genuína do povo brasileiro. O povo de uma nação atrasada economicamente, explorada e colonizada e que apesar dessas adversidades conseguiu se colocar como a melhor dentro do esporte mais popular do mundo. Ou seja, se colocar contra essa expressão cultural do povo é uma posição reacionária.

A arte genuína do povo brasileiro

A Seleção de 70 é o cume, portanto, desse verdadeiro movimento cultural e artístico chamado futebol brasileiro. Um movimento artístico desenvolvido pelas massas brasileiras e portanto pelos trabalhadores e negros, que são a maioria do País. O brasileiro, ao melhor estilo da antropofagia desenvolvida por Oswald de Andrade, recebeu o esporte criado na Europa e o transformou de tal modo que acabou criando algo totalmente novo a partir do que recebera. Essa transformação foi então devolvida para os europeus que foram obrigados a aceitá-la já sob essas novas formas.

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Mário
Mário
10 dias atrás

Nota DEZ.