Seleção revolucionária
Em 1970, o Brasil sagrou-se três vezes campeão mundial e afirmou definitivamente sua superioridade no futebol mundial
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no telegram
Compartilhar no email
Compartilhar no reddit
pele-nos-bracos-do-povo-na-copa-do-mundo-de-1970-1516059693016_v2_1920x1241
O artista nos braços do povo mexicano. | Reprodução.

Há exatos 50 anos, em domingo como hoje, o futebol mundial nunca mais seria o mesmo. A maior Seleção que o mundo já viu jogar até hoje consagrava-se campeã da Copa do Mundo e marcava o ápice do que ficou popularmente conhecido como “futebol arte”, cuja principal elaboração vinha do futebol e dos jogadores brasileiros.

Liderada por Pelé, aquela Seleção dava o tricampeonato mundial para o Brasil após uma vitória sobre a Seleção italiana por 4 a 1, se tornando a primeira seleção a ganhar três copas e portanto ficando em definitivo com a Taça Jules Rimet.

Aquela Copa do Mundo, em primeiro lugar pela presença da própria Seleção Brasileira, é considerada a maior da história em relação ao nível técnico apresentado. Para entender isso, é preciso compreender o desenvolvimento do futebol não como simples modalidade esportiva, mas como “arte” genuína desenvolvida pelos brasileiros e sul-americanos em primeiro lugar. Esse novo estilo de jogar futebol desenvolvido pelos negros e pela classe operária brasileira foi um fenômeno cultural que acabou sendo exportado para os europeus, criadores iniciais da modalidade que surgiu na Inglaterra.

É nesse marco que se encontra a Copa de 1970 realizada no México.

A história pregressa

Em geral, um movimento cultural e artístico passa por etapas de evolução: a criação, que podemos chamar de “fase heroica”, a luta para se tornar dominante, o desenvolvimento e refinamento da técnica criada inicialmente e o ápice de sua criatividade e expressão. O mesmo se deu com o futebol. Nas primeiras décadas do século, o esporte começou a ser desenvolvido e transformado pela presença dos negros e trabalhadores, que como produto de uma luta para se firmarem nos campos, acabaram desenvolvimento uma técnica inovadora, o que virá a ser o “futebol arte”. Essa nova técnica, segundo alguns estudiosos, já se mostrava superior a partir de meados da década de 1930. No entanto, era preciso agora superar as barreiras econômicas e políticas impostas pelos europeus.

A vitória na Copa de 1958 acabou por provar ao mundo essa superioridade, o que já em 1950 poderia ter ocorrido não fosse o desastre do Maracanazo, em grande medida produto de pressões políticas da época. O bicampeonato em 1962, mesmo com as dificuldades da Seleção, tendo Pelé contundido desde o início da Copa, acabou por mostrar aos europeus de maneira definitiva que o futebol brasileiro não poderia ser superado por meios “normais”, mas seria preciso uma série de artefatos para pará-lo. A força física e a violência aberta foram a marca da Copa de 1966, e o aparente fracasso brasileiro constitui exceção à regra e serviu como experiência preparatória para 1970.

Uma Seleção revolucionária

A Copa do Mundo na México contava não apenas com os maiores jogadores do mundo, todos eles brasileiros, mas também com a experiência pregressa das Copas anteriores.

Essa experiência permitiu que os jogadores, liderados por Pelé, que havia passado pelas copas anteriores, adquirissem maiores condições de enfrentar a violência em campo. De todas as seleções anteriores, a de 70 contou com um maior cuidado no preparo físico dos atletas. Ou seja, de um modo geral os jogadores brasileiros ingressavam definitivamente no profissionalismo como atletas.

O mais importante no entanto é que aquela Seleção, do ponto de vista técnico, acumulou todo o desenvolvimento do futebol arte até então. Era o cume de um verdadeiro movimento artístico com a bola nos pés.

Segundo afirmou o atacante tricampeão Tostão, em entrevista ao jornal Lance!, publicada na última sexta-feira (19),  “O Brasil era muito moderno. Ia à frente e voltava para marcar com desenvoltura. Era uma grande equipe, revolucionária!”.

A definição é precisa. O que foi apresentado pela Seleção brasileira em 1970 era uma revolução em termos de futebol. Tudo o que havia sido desenvolvido pelo futebol arte brasileiro e sul-americano, e até mesmo determinadas técnicas europeias, principalmente no que diz respeito ao preparo físico, estava concentrada naquela Seleção.

Essa verdadeira revolução tem como seu principal expoente o próprio Pelé, um verdadeiro gênio dessa arte chamada futebol. A concentração de todas essas características em um jogador.

O uso pela ditadura militar

Acostumada a entender os fenômenos históricos e culturais de um ponto de vista unilateral, parte da esquerda pequeno-burguesa procura desfazer os feitos daqueles brasileiros sob a alegação de que tudo teria sido uma armação da ditadura militar, que naquele momento passava por seu período mais tenebroso.

Em primeiro lugar, é inegável que a ditadura tenha usado a vitória brasileira como propaganda do regime. Qualquer governo faria o mesmo, ainda mais se tratando de um governo hiper direitista.

Mas isso não significa que a ditadura tenha dito papel na vitória brasileira. Na realidade, o papel da ditadura e dos meios oficiais foi de certa sabotagem da Seleção. Um exemplo muito claro dessa sabotagem foi a troca de técnico cerca de um mês antes do início da Copa.

João Saldanha, reconhecido comunista, foi tirado da Seleção mesmo tendo sido o responsável por armar o time e classificá-lo para a Copa. No seu lugar foi colocado Zagallo. A troca de um técnico que até então estava sendo vitorioso, independente da qualidade de Zagallo, obviamente constitui um fator de instabilidade para qualquer time.

Há ainda o papel da imprensa burguesa na época, que como hoje é dada a atacar a Seleção e seus jogadores. Quem conhece as crônicas de Nelson Rodrigues e outros que escreveram na época percebe que a Seleção estava longe de ser reconhecida como favorita. Havia uma pressão gigantesca por parte da imprensa burguesa, aliada do regime, contra a Seleção a ponto de que Nelson Rodrigues, em uma de suas crônicas, pedir que a Seleção deixasse logo o País para sua preparação no México para ficar longe dessa pressão.

Fica claro que a posição oficial da burguesia na época, embora tenha feito muita demagogia com a Seleção, foi muito distante de uma apoio irrestrito. Muito diferente, apenas para citar um exemplo, do que ocorreu na Copa do Mundo de 1978, cuja vitória da Argentina, que sediava o mundial, foi garantida com a participação direta do governo militar.

A posição que procura deslegitimar a superioridade da Seleção de 1970 e portanto do próprio futebol brasileiro é na realidade uma posição contrária à cultura genuína do povo brasileiro. O povo de uma nação atrasada economicamente, explorada e colonizada e que apesar dessas adversidades conseguiu se colocar como a melhor dentro do esporte mais popular do mundo. Ou seja, se colocar contra essa expressão cultural do povo é uma posição reacionária.

A arte genuína do povo brasileiro

A Seleção de 70 é o cume, portanto, desse verdadeiro movimento cultural e artístico chamado futebol brasileiro. Um movimento artístico desenvolvido pelas massas brasileiras e portanto pelos trabalhadores e negros, que são a maioria do País. O brasileiro, ao melhor estilo da antropofagia desenvolvida por Oswald de Andrade, recebeu o esporte criado na Europa e o transformou de tal modo que acabou criando algo totalmente novo a partir do que recebera. Essa transformação foi então devolvida para os europeus que foram obrigados a aceitá-la já sob essas novas formas.

Compartilhar no facebook
Compartilhe no seu Facebook!
Compartilhar no twitter
Tuite este artigo!
Compartilhar no whatsapp
WhatsApp
Compartilhar no telegram
Telegram
Compartilhar no email
Email
Compartilhar no reddit
Reddit
Compartilhar no facebook
Compartilhe
Compartilhar no twitter
Tuite este artigo!
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no telegram
Compartilhar no email
Compartilhar no reddit
Relacionadas