Política reacionária
Os chamados identitários não representam os interesses das mulheres, dos negros, dos LGBTs e de nenhum setor oprimido que eles dizem defender
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"Representatividade": o que os negros ganharam com Obama no governo dos EUA? Nada. Foto: Jack/Flickr |

Por Eduardo Vasco

O presente artigo é uma espécie de continuação do anterior, que pode ser lido aqui.

Bastou ler o título deste artigo e ver por quem ele é assinado que o identitário já me xingou de todos os nomes pós-modernos que vêm à sua cabeça. “Homem branco cis hétero, machista, racista, LGBTTQI++++fóbico etc.”, gritou. Nem vai ler o artigo e, se ler, será como se não tivesse lido, porque vai “criticar” a partir de suas posições pré-concebidas contra o autor do artigo, que não tem “lugar de fala” para abordar esse tipo de assunto. A crítica, assim, não se dá de modo algum de maneira racional, através de um debate de ideias, mas sim passional, fanática, sectária, sem argumentação, apenas desqualificando as posições do adversário somente por não ser mulher, negro, LGBT.

É assim que funcionam, em geral, os grupos identitários. Fazem policiamento virtual nas redes sociais e mesmo na vida real, nos movimentos sociais, na universidade, nos meios de esquerda geralmente pequeno-burgueses.

Na lógica bizarra dos identitários, que tanto censuram aqueles que não têm “lugar de fala”, se fosse coerente, uma mulher não poderia intervir na luta do negro, o negro na luta do LGBT, o LGBT na luta da mulher. E uma mulher lésbica negra, essa sim, teria um verdadeiro “lugar de fala”. Não, esperem! Ela não é indígena, então também não teria!

Em um debate, por exemplo, sobre feminismo, quando um homem tenta dar sua opinião, as identitárias correm para censurá-lo com ataques pessoais e intimidações, acusando-o de querer calar a voz feminina (!). O mesmo vale para as outras seitas identitárias.

No caso dos identitários negros, ocorre algo ainda mais bizarro: há grupos que comparam o tom da pele negra e os negros mais claros teriam menos “lugar de fala” do que os de pele mais escura.

Dessa forma, entram em uma gigantesca contradição: estão propondo o combate à opressão a partir de uma outra opressão, o combate à discriminação a partir de uma outra discriminação, caracterizada basicamente pela censura à liberdade de expressão e de opinião.

Não há, no entanto, como categorizar as posições sectárias do identitarismo como “fascismo de esquerda”, como propôs o antropólogo Antonio Risério. Isso porque um conceito é completamente incompatível com o outro. O fascismo é a última opção da burguesia para, justamente, suprimir a esquerda, os partidos políticos esquerdistas – dos revolucionários aos mais reformistas –, os sindicatos, os movimentos populares e, como alvo preferido em seu processo de gestação, os setores mais marginalizados da sociedade, como os LGBT, os negros, as mulheres e o lumpemproletariado. Fascismo e esquerda são coisas antagônicas.

Porém, o identitarismo é, sim, uma ideologia censora e reacionária. E é aí que ele se aproxima perigosamente da direita, cujo espectro mais extremo é, justamente, o fascismo. Tanto é que, curiosamente, a identitária Fhoutine Marie, que escreveu um artigo atacando duramente as posições de Risério, concorda em um único ponto com o intelectual pequeno-burguês liberal: que a esquerda também pode ser fascista. Para aquele, os identitários são tão fascistas como Stalin, Mao Tsé-Tung, Pol Pot e Fidel Castro. Para essa, tal afirmação é um absurdo apenas porque fascistas são Pol Pot e Stalin, não os identitários. A confusão é reinante, mas a certa convergência de pensamento nesse ponto revela a que servem tanto os identitários como os esquerdistas liberais: à burguesia e ao imperialismo, em sua frente única de ataque à revolução proletária, nesse caso representada pelos Estados Operários em maior ou menor grau de degeneração como os da União Soviética, China, Camboja e Cuba.

Esses grupos ou ignoram ou rebaixam a luta de classes, como se não existisse, como se fosse algo do passado ou como se a opressão burguesa não fosse mais forte do que a opressão intraclasse, como pregam os identitários.

Esses dizem que as posições contrárias às deles, ou que as denunciam a partir de argumentos e do debate de ideias, são ataques que dividiriam a esquerda. Entretanto, o que divide é sua própria ideologia, que apregoa a exclusividade e não a inclusividade. Há quem possa dizer que o marxismo também seria exclusivo, mas essa afirmação está errada. O marxismo, se fosse uma “exclusividade”, seria uma exclusividade progressista, no sentido de que o socialismo não admite conciliação da classe trabalhadora com a burguesia e o imperialismo, é uma luta dos trabalhadores e de todos os explorados. Porque burguesia e proletariado são antagônicos. Mesmo assim, os trabalhadores aceitam lutar ao lado da pequena-burguesia como aliada estratégica contra o capital, ou mesmo, em certas ocasiões, ao lado da burguesia nacional contra o imperialismo, sem, no entanto, abrir mão de seus princípios e reivindicações de classe.

Porém, homens e mulheres não são antagônicos, negros e brancos não são antagônicos, homossexuais e heterossexuais não são antagônicos, seus interesses não são contrários uns dos outros. E, no entanto, o identitarismo rejeita ou vê com maus olhos a participação de homens na luta das mulheres, de brancos na luta dos negros, de héteros na luta dos homossexuais. Portanto, são sectários. Não querem agregar, mas dividir. Acreditam que, quanto menos apoio tiverem, mais estarão avançando. Lógica estranha, essa. Porque, dizem, não precisam de ajuda de machos, de brancos, de héteros. Tratam esse apoio como se fosse algum favor, alguma esmola.

Essa suposta autossuficiência seria o seu empoderamento. Mas tudo isso não passa de pura cegueira típica de pequeno-burgueses que não querem enxergar a dura realidade: com essa ideologia identitária, não conseguem avançar um palmo nas reivindicações concretas da maioria das mulheres, dos negros e dos LGBT.

O identitarismo é nocivo, assim, para o conjunto dos explorados. Para a burguesia, ou seja, para a classe dominante, não o é, embora esses grupos difundam uma crença de que seriam revolucionários incomodando os privilegiados. Tanto é assim que a Globo pode até mesmo atender aos pedidos de colocar negros, mulheres e LGBTs em papéis de destaque em suas novelas e telejornais, mas o que mudaria para essas populações? O político mais importante do mundo durante oito anos (2009-2016) era Barack Obama, e o que isso significou para os negros? As mulheres podem comemorar o fato de a golpista boliviana Jeanine Añez ser a primeira ditadora da história da América Latina? Carmen Lúcia, Raquel Dodge, Rosa Weber, Carolina Lebbos, Gabriela Hardt alguma coisa têm a ver com a luta das mulheres? Ao contrário da crença identitária, a luta por “representatividade” parece não levar, necessariamente, a algum progresso real para a sociedade.

Suas lutas são cada vez mais por questões secundárias e cada vez mais fragmentadas. São extremamente individualistas, inclusive nas formas de protesto (“Meu corpo, minhas regras”). Não defendem, a bem da verdade, o coletivo. Esses grupos identitários, no fundo, sonham, algum dia, alcançar o Olimpo dos opressores, e não destruir por completo a agressão sistêmica. Querem ser reconhecidos pela burguesia, pelos opressores, como iguais. Mas, infelizmente para eles, nunca serão.

Pode-se considerar alguns como liberais, mas, em pontos fundamentais, são reacionários. Por exemplo, defendem que seja o Estado burguês, um Estado ditatorial contra a esmagadora maioria da população, que puna aqueles que violam os direitos dos negros, mulheres e LGBTs.

Mas aí pedem o socorro do Estado, representado por instituições como a Justiça e a polícia. Isso é um tiro no pé. Por acaso, entre os oprimidos, as maiores vítimas da polícia não são os negros, as mulheres e os LGBT? Quantos não são assassinados, estuprados e presos, sujeitos às piores humilhações? É preciso lembrar, também, das prisões brasileiras, verdadeiras masmorras onde ocorrem as piores barbaridades que podemos imaginar. Os grupos identitários dizem lutar contra a violência sofrida pelos setores que representam, mas essa mesma violência é reproduzida e aumentada na prisão. Dois terços dos presos no Brasil são negros e o número de mulheres encarceradas aumenta 38% a cada ano. Nem é preciso dizer o quanto sofrem os LGBTs dentro dessas gaiolas…

Quase metade dos 800 mil presos no Brasil são legalmente inocentes. Os identitários acreditam mesmo que, se saírem algum dia dessas masmorras, virarão ativistas pela causa das mulheres, dos negros e dos LGBTs? Claro que não, a lógica identitária não é a politização, mas é a mesma do Estado burguês: o punitivismo. Uma lógica fascista.

Ou seja, ao pedir punição do Estado, os identitários simplesmente legitimam e alimentam a máquina repressiva contra o conjunto da população e, especialmente, contra os próprios setores dos quais eles seriam representantes. Em última instância, os identitários apoiam o genocídio negro, o feminicídio e as atrocidades contra os LGBTs, decorrentes do aparato opressor do Estado burguês. A pena máxima no Brasil foi aumentada de 30 para 40 anos de prisão, um sistema absolutamente desumano, mas que acaba de ser implementado com a ajuda de parcela da esquerda, boa parte dela ligada justamente aos movimentos identitários.

Agora, quando propomos que os setores oprimidos da população possam se armar para se proteger dos ataques que sofrem, os identitários correm para denunciar o “incentivo a mais violência” e, em uma mudança radical de postura, pregam o “diálogo”. Na verdade, essa mudança de postura é apenas aparente, porque isso sempre foi a política identitária, como criação da burguesia: o diálogo que eles pregam é com a direita opressora, com a esquerda não identitária eles continuam partindo para ataques violentos. Isso fica evidente quando nos deparamos nas inúmeras ocasiões em que saíram rapidamente, sem pestanejar, em defesa de direitistas que foram “atacados”. Ora, quem divide a luta contra a direita são os grupos identitários, não a esquerda que os denuncia.

Portanto, em dois aspectos primordiais vemos o identitarismo servindo aos interesses reacionários da burguesia: na defesa das instituições repressivas do Estado e na divisão do movimento de massas, promovendo lutas esparsas, isoladas e reivindicações pontuais – basicamente como um cada um por si e deus… bem, deus por ninguém (afinal, ele não é mulher, negro, nem LGBT, não tem lugar de fala, pode cair fora!).

Por último, cabe questionar: os interesses de um LGBT favelado são mais comuns aos de um LGBT milionário ou aos de um negro favelado? Quem é o opressor da faxineira de uma grande empresa, o seu colega faxineiro ou a dona da empresa? Os estudantes negros devem se aliar a Fernando Holliday ou aos estudantes brancos na luta por uma universidade pública e universal?

Por isso, ao invés de dividir, propomos a união dos setores oprimidos. E essa união, por se inserir no contexto da luta de classes acirrada no sistema capitalista, cujo agente mais poderoso entre os oprimidos é a classe operária (que abraça a maioria dos negros, mulheres e LGBTs, inclusive), deve ser uma aliança liderada pela classe operária, única força capaz de derrubar o regime de exploração e opressão da burguesia. E o partido operário é quem unifica as lutas de todos os oprimidos, dando coesão e sentido a elas, para, efetivamente, acabarem com a opressão.

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