Explicando para confundir: esquerda brasileira compara movimento de massas na França aos “rolezinhos” no shopping

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Eu tô te explicando
Prá te confundir
Eu tô te confundindo
Prá te esclarecer
Tô iluminando
Prá poder cegar
Tô ficando cego
Prá poder guiar

Tom Zé, .

A esquerda pequeno-burguesa vê o mundo de dentro de um castelo imaginário povoado por conceitos esotéricos que não sobrevivem a um simples passeio na realidade. Na análise do recente fenômeno dos Coletes Amarelos na França, nossos bravos intérpretes nacionais não têm agido de modo diferente. O site The Intercept, por exemplo, publicou um texto intitulado França está reeditando os protestos de 2013 no Brasil que é um primor de parcialidade e academismo inconclusivos.

O autointitulado movimento dos Coletes Amarelos [Gilets Jaunes em francês] iniciou-se na França em 17 de novembro como uma manifestação nacional contra a política de preços de combustíveis do governo neoliberal de Emmanuel Macron. Suas ações se concentravam no fechamento de vias, e daí o uso da vestimenta obrigatória naquele país quando um motorista é obrigado a parar seu veículo na estrada e desembarcar. Inicialmente já com 300 mil manifestantes, o movimento vem crescendo a cada semana – preferentemente aos sábados – como uma forma de canalizar a insatisfação da população contra a política neoliberal do banqueiro que dirige o país. Ganhou as escolas, universidades e as ruas dos grandes centros urbanos. Brutalmente reprimido pelas forças de segurança, o movimento abarcou novas bandeiras, que podem ser concentradas na palavra de ordem Fora Macron. Trata-se por isso de uma clara polarização que enfraquece não apenas o governo atual, mas todo o regime político a serviço do imperialismo. Por isso mesmo, a esquerda institucional tem se mostrado reticente em apoiar a mobilização, temerosa por seus cargos e pela perda de sua capacidade de fazer acordos. Talvez também por isso o tema é tratado de modo confuso pela a esquerda pequeno burguesa em geral – incluindo a brasileira.

A autora do texto publicado no The Intercept, Rosana Pinheiro-Machado, é “professora, cientista social e antropóloga” – segundo o currículo apresentado no site. Uma rápida passagem por suas análises de conjunturas anteriores já nos mostra outras pérolas do diversionismo e da mistificação, como quando afirmou que O bolsonarismo repete a Revolução Cultural da China. Mas vejamos sua análise dos Coletes Amarelos, o qual ela aliás não se deu ao trabalho de explicar objetivamente antes de caracterizá-lo. Na era da comunicação online, em que há uma enorme profusão de fontes de informação, seria o mínimo a se esperar de modo a assentar solo comum à análise. Suponhamos em todo caso que os Coletes Amarelos de Pinheiro-Machado sejam os mesmo que vemos.

Nossa cientista social afirma sem maiores explicações que o movimento francês é análogo aos movimentos de junho de 2013 no Brasil e aos “rolezinhos” de 2014. Os atos de massas de junho de 2013 foram tomados de assalto pelo grande capital, com a finalidade de criar as milícias fascistas que criou: o Movimento Brasil Livre (MBL), o Revoltados Online, o Vem pra Rua e congêneres. Tais grupos ainda não vieram à tona no movimento francês. Já os “rolezinhos” não foram um movimento de massas, mas de grupos de jovens da periferia que articulavam visitas coletivas a Shopping Centers de onde eram tradicionalmente excluídos. Pode-se discutir as similaridades entre os Coletes Amarelos e os atos de junho de 2013, mas é bastante claro que não há qualquer similaridade material entre os “rolezinhos” e o movimento francês, devidos a sua escala e a sua forma. Estranhamente, e apesar do título, é justamente na comparação com os “rolezinhos” que a autora se debruça, relatando sua vã tentativa à época de classificá-los como movimentos políticos ou não, concluindo brilhantemente que “eram manifestações juvenis contraditórias que misturavam contestação política e pulsão capitalista hedonista”.

Pinheiro-Machado relata então que ela e sua colega, a antropóloga Lúcia Scalco, estariam “em campo novamente, sentadas em uma cadeira de praia no lado dos caminhões estacionados” durante a greve dos caminhoneiros em 2018. Nada sobre coxinhatos de 2015, nada da luta contra o golpe, contra os golpistas, nada da luta pela anulação do impeachment, contra a prisão de Lula ou contra a reforma da previdência. Essa omissão servia para preparar a seção A era das revoltas ambíguas que se abriria em seguida.

Comodamente, a autora ignora todos os movimentos populares organizados para afirmar que “nós precisamos, urgentemente, abandonar as lentes dicotômicas através das quais compreendemos o mundo político no século 20. Nós adentramos no século 21, na era do que tenho chamado de ‘revoltas ambíguas’”. Segundo ela:

Se o neoliberalismo flexibiliza as relações de trabalho e, consequentemente, as formas de fazer política sindical, atuando como uma máquina de moer coletividades, des-democratizar, desagregar e individualizar, os protestos do precariado tendem a ser desorganizados, uma vez que a esfera de politização deixa de ser o trabalho, mas ocorre de forma descentralizada nas redes sociais.

É o velho discurso pequeno-burguês que procura justamente apagar da política os movimentos de trabalhadores com a justificativa de que simplesmente não há mais operariado. Como se todas as mercadorias consumidas no mundo fossem produzidas por geração espontânea, e não por indústrias com trabalhadores explorados.

Les Rolezinhos son “bons à penser”

Não deixa de ser curioso também que esses arautos da nova economia política anunciem com ar de novidade a descoberta da ambiguidade – ou seja, da contradição – no mundo. Houvessem sido apresentados a Heráclito de Éfeso ou a Aristóteles saberiam não se tratar de algo recente nem no mundo nem no pensamento. E, bem, se houvessem sido minimamente apresentados ao marxismo, não teriam uma visão estanque de mundo nem a atribuiriam a outros. Tivessem se esmerado em fazer o que se espera de um acadêmico – estudar –, saberiam que a contradição é a base do materialismo dialético. A contradição entre as forças produtivas materiais da sociedade e as relações de produção existentes é a base dos movimentos revolucionários. Tal contradição é a que vemos hoje em todo o mundo, em que o capitalismo imperialista decrépito, decadente, se afunda em sucessivas crises que demandam mais exploração dos trabalhadores, mais miséria. Tais trabalhadores voltam-se contra esse sistema em insurreições de características revolucionárias, como as que vemos hoje na França.

Num momento de impressionante lucidez ela então desfia um rosário de platitudes, em afirmações como “não é raro que esses protestos cresçam em onda de contágio e evoluam para pautas maiores: o custo de vida ou a corrupção”. Claro. Não é raro que a população insatisfeita expresse sua insatisfação.

Parece descobrir neste ponto que o capitalismo é global, e que o nacionalismo – quando se volta contra o imperialismo – pode ser ainda revolucionário. Não se furta porém a fazê-lo com uma enigmática afirmação: “Não é raro também que as revoltas ambíguas carreguem um forte componente patriótico (mas não necessariamente nacionalista)”.

Retorna então aos “rolezeiros” de 2014 que ela teria revisitado em 2016, constatando que surpreendentemente alguns deles haviam se tornado direitistas e outros esquerdistas. Parece sugerir aí que a comparação entre Coletes Amarelos e “Rolezinhos” foi induzida por uma questão pessoal: o fenômeno dos Shopping Centers foi objeto de pesquisa acadêmica pela autora, que chegou a publicar por exemplo na revista Les Temps Modernes um texto com o sugestivo título “Les rolezinhos son ‘bons à penser’”. Não é por acaso a citação de ao menos meia-dúzia de livros e autores no artigo. Como se sabe, a academia funciona à base da criação de credibilidade a partir do uso de determinado jargão e da citação bibliográfica de seus pares.

Parece claro o vício da análise: o caráter excessivamente parcial e individual de seu método. Em lugar de enxergar o movimento dos caminhoneiros em seu conjunto, por exemplo, a autora levou sua cadeira de praia para tirar conclusões a partir de uma visão fragmentária (ou “molecular” para usar o jargão caro a ela). Em lugar de ver os movimentos sociais e a classe trabalhadora brasileiros e franceses pelo que eles são de fato, ela busca encaixá-los nas categorias capazes de serem “explicadas” por meio do palavrório acadêmico. Comete o vício que atribui a uma certa esquerda das redes sociais – que menciona sem explicar com clareza a quem se refere – que tem fixação em discutir “se a greve dos caminhoneiros ou os coletes amarelos são ou não são do esquerda”. É basicamente o que ela fez em todo o seu texto: discutir se são ou não são de esquerda para concluir que não é possível afirmá-lo.

A caracterização de um movimento deve ter base na descrição objetiva da realidade e no firme propósito de estabelecer princípios e táticas de ação real política sobre tal movimento. Não se trata de nominalismo, e menos ainda de onanismo acadêmico: trata-se de método de atuação política. Que fazer numa onda de insurreição popular de massa, capaz de desestabilizar o sistema capitalista na França senão organizar os trabalhadores para participar ativamente de tal movimento, exercendo pressão política sempre que possível? A qualidade da análise política sempre pode ser medida pelo que fazer a partir dela, e não pela capacidade de relativizar a paralisia e o comodismo reacionário. Essa relativização é a principal conclusão do texto de Pinheiro-Machado.

Tirésias, o adivinho da mitologia grega, era cego. Sua cegueira porém lhe dava clarividência pela seletividade do que apreendia. De nada serve ao analista ter os olhos abertos mas voltados para dentro de si mesmo. A análise política da realidade requer olhos bem abertos e atentos ao que ocorre no mundo concreto. A cegueira da esquerda acadêmica para o mundo real não é clarividente: é somente incapaz de ver a realidade.