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Organizações artificiais querem tomar a frente do movimento

Não há limites para a loucura: esquerda pequeno-burguesa compara revolução socialista na China ao Escola Com Fascismo

A pesquisadora Rosana Pinheiro-Machado publicou nos últimos dias um artigo no sítio The Intercept no qual traça uma ridícula comparação entre o bolsonarismo – expresso no projeto Escola Sem Partido (ou melhor, Escola Com Fascismo) – e a Revolução Cultural que ocorreu na China entre a segunda metade da década de 1960 e a primeira metade da década de 1970.

Os pontos nos quais a sinóloga afirma haver semelhança entre os dois fenômenos são, segundo ela, a doutrinação ideológica, o autoritarismo e a guerra ao conhecimento e ao pensamento crítico. A aproximação principal entre os dois, como ela escreve, seria o método: a “denúncia dos professores pelos próprios alunos” e a “caça aos mestres e artistas, jornais e universidades”.

Para iniciar a demolição da peça disparatada da intelectual pequeno-burguesa, é preciso contextualizar a realidade chinesa da época da Revolução Cultural. Ela foi realizada em um momento em que, no âmbito internacional, a burocracia stalinista soviética adotava uma política de conciliação com o imperialismo. Dentro do próprio Partido Comunista Chinês havia elementos que procuravam seguir o mesmo caminho dos soviéticos e capitular diante do imperialismo.

A Revolução Chinesa de 1949 começou com um caráter democrático e nacional, não essencialmente socialista, e o país continuou a contar – mesmo que em menor escala – com camadas sociais burguesas e pequeno-burguesas reacionárias, portanto a luta de classes estava ainda muito viva.

Diante da divisão de classes e da luta que, naturalmente, continuou a ser travada após a Revolução de 1949, a Revolução Cultural foi uma poderosa mobilização revolucionária para evidenciar as contradições de classe que existiam. Ela foi um confronto também entre as alas esquerda e direita da burocracia chinesa e a classe operária.

A ala direita da burocracia, de maneira contrarrevolucionária, tentava esconder e anular as contradições da luta de classes. Isso somente favorecia a burguesia e o imperialismo que, obviamente, mantinham sua luta para restaurar a ordem pré-revolucionária e esmagar a Revolução. A Revolução Cultural foi uma ação de demarcação das contradições entre as classes sociais, na qual as massas desvelaram seus inimigos de classe e se mobilizaram para derrotá-los, ao invés de esconder e conciliar as contradições.

Rosana Pinheiro-Machado compara o acontecimento chinês com o Escola Com Fascismo especialmente no âmbito educacional. Para esclarecer esse ponto, é necessário recordar que, àquela altura, a burocracia chinesa havia montado um sistema educacional parecido com o que havia antes da Revolução. As universidades serviam para formar os quadros técnicos do Partido Comunista (como foi feito durante milênios na China antiga para formar funcionários da administração imperial).

Ou seja, as universidades eram controladas pela e destinadas à burocracia. Muitos professores e intelectuais eram burocratas, pequeno-burgueses. Como uma pequena-burguesia, apresentavam-se acima dos operários e constituíam uma classe potencialmente – e também na prática – conservadora e reacionária. Isto é, as universidades estavam dominadas pela burocracia e desempenhavam um papel contrarrevolucionário, servindo a interesses contrários aos da classe operária.

Perante esse cenário, nas universidades e na sociedade como um todo, as massas trabalhadoras se levantaram contra o domínio da burocracia partidária e estatal. A Revolução Cultural, longe de ter sido uma realização de um só homem, foi, antes de tudo, uma reivindicação e uma imposição da vontade das massas sobre a burocracia, e que contou com a participação da ala esquerda da burocracia – representada pelo presidente Mao Tsé-tung – a fim de eliminar a ala direita. Foi também uma ação contra os vestígios feudais e a tentativa de implantação de elementos capitalistas no seio da Revolução Chinesa.

Ela enfrentou as posições e desvios reacionários, enquanto o Escola Com Fascismo visa impor sobre o povo explorado uma política absolutamente retrógrada, reacionária e antipopular. A Revolução Cultural foi uma imposição da luta popular sobre as políticas reacionárias que ameaçavam destruir a Revolução por dentro.

A Revolução Cultural nada tem a ver com o Escola Com Fascismo. Enquanto aquela foi um amplo movimento revolucionário das massas contra a burocracia e a direita, este é um movimento fascista da direita e do Estado – por meio da burocracia coxinha escolar (diretores, alguns professores) e estatal (políticos de direita), pais de alunos bolsonaristas e grupos de extrema-direita – contra as massas, inserido em um quadro generalizado de ataque da burguesia ao movimento popular, à esquerda e à população.

A Revolução Cultural forneceu grande parte do controle estatal e partidário para as massas. Em certa medida, desburocratizou o partido – uma vez que o partido comunista deve ser o partido que pertence às próprias massas trabalhadoras, organizadas de maneira independente da burguesia e demais classes parasitárias.

Ela não se resumiu à estrutura educacional. Como uma criação das massas, primou pelo coletivismo socialista contra o individualismo pequeno-burguês. A Revolução Cultural tratou de valorizar o trabalho dos operários e camponeses (a esmagadora maioria da população), bem como “proletarizar” as camadas médias, a fim de inseri-las na luta revolucionária para a efetiva destruição do capitalismo e construção do socialismo. A Revolução Cultural buscou libertar as mulheres e os camponeses dos vestígios da opressão milenar a qual estavam submetidos e os quais não haviam sido totalmente erradicados com a Revolução de 1949.

O Escola Com Fascismo, ao contrário, não é um movimento democrático com ampla participação popular (como foi a Revolução Cultural). É um movimento de uma minoria fascista e – essa sim – autoritária para suprimir o desenvolvimento das massas através da censura à liberdade de cátedra e de expressão. É uma minoria tentando se impor à maioria, enquanto a Revolução Cultural foi um movimento da maioria para retirar o controle e o poder da minoria. O Escola Com Fascismo é um movimento antidemocrático, enquanto a Revolução Cultural foi um movimento democrático e, em certa medida, espontâneo das massas.

Ao tentar comparar os dois movimentos, a autora nega a luta de classes. Em última instância, na prática, ela busca afirmar que o comunismo e o fascismo são muito parecidos, senão iguais. Tal manipulação da história desvela o caráter reacionário da esquerda pequeno-burguesa, sempre disposta a fazer frente com a direita em sua saga anticomunista.

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