Entrevista: Sociólogo venezuelano fala sobre a liberdade de imprensa na Venezuela e desmente as manipulações

WhatsApp-Image-2018-04-11-at-5.21.01-AM

Recentemente, a imprensa brasileira, em sua incessante campanha de ataques contra o governo e o povo da Venezuela a mando do imperialismo, noticiou o fim da versão impressa do jornal golpista e de direita El Nacional. Obviamente, a culpa foi jogada sobre o governo de Nicolás Maduro, como se estivesse perseguindo e censurando a imprensa.

Para explicar essa situação e a realidade da imprensa venezuelana, o Diário Causa Operária Online entrevistou o sociólogo venezuelano Anisio Pires.

Qual tem sido o papel do El Nacional durante o governo bolivariano?

Procurando incentivar os protestos que resultaram no golpe de 2002 contra Hugo Chávez, a manchete do jornal El Nacional do dia 11 de abril de 2002 foi: “A batalha final será em Miraflores”, sendo “Miraflores” o equivalente venezuelano do Palácio da Alvorada em Brasília. Em poucas palavras trata-se de um jornal claramente contrário ao governo e abertamente golpista quando a ocasião lhe permite, como aconteceu em 2002. Mesmo depois do golpe, que foi derrotado pela mobilização popular, o jornal continuou todos esses anos conspirando contra o governo sem que por isso tenha encontrado algum empecilho para expressar sua linha editorial.

O jornal é manipulador da realidade venezuelana?

Mais do que manipulador, o jornal tem sido capaz da mais descarada difamação. Em 2015 junto com “Tal Cual”, outro jornal venezuelano, publicaram uma matéria onde afirmavam, sem provas, que o atual presidente da Assembleia Nacional Constituinte (ANC), Diosdado Cabello, estaria sendo julgado nos EUA por tráfico de drogas. A informação teria como suposta fonte os órgãos da justiça dos EUA. Diosdado Cabello demandou por difamação ambos jornais obtendo veredicto favorável em maio deste ano. Como resultado da negociação-conciliação nos tribunais entre Diosdado e a chefia dos jornais, estes publicaram no dia 15 de dezembro deste ano um pedido público de desculpas que entre outras coisas afirma: “Estamos em total discordância com ditas publicações e rechaçamos elas dado que a gravidade destas afirmações não está acompanhada da comprovação de sua veracidade, posto que transcorridos mais de três anos de sua publicação, ainda não puderam ser confirmadas, pois não tem sido apresentada prova alguma a respeito dessas publicações”

É verdade que o governo controla a distribuição de papel-jornal? Há disponibilidade desse tipo de papel para os jornais serem impressos?

Por um lado a Venezuela não fabrica esse tipo de papel, portanto deve ser importado. Por outro lado, temos um boicote econômico que torna muito difícil comprar alimentos e medicamentos para a população. Se os EUA bloqueiam a Venezuela sem se importar com as consequências da falta de comida, remédios e equipamentos médicos para poder atender à população, por que haveriam de ser bonzinhos no caso do papel-jornal?

Como é o acesso à Internet na Venezuela? A imprensa brasileira diz que ela é cortada pelo governo para prejudicar os meios de comunicação opositores.

Graças ao boicote dos EUA que controlam o cabo submarino que conecta toda América do Sul, as redes pelas quais a Venezuela se conecta ao mundo têm sido afetadas no que se refere à velocidade de navegação além da saturação pelos constantes ataques que sofrem diariamente todas as plataformas públicas do país. Isto acontece de maneira especial contra a plataforma do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) cada vez que ocorrem eleições como as recentes do dia 10 de novembro para escolha de vereadores. É por isso que a Venezuela está em vias de migrar suas comunicações através do seu 4º satélite, o Guaicaipuro, o qual lhe permitirá ter sua própria rede social liberando o país de dependência tecnológica e do controle que vem associado a ela.

A imprensa brasileira diz que o governo impõe censura aos meios de comunicação desde a época de Hugo Chávez. Isso é verdade?

Não. Ao contrário, hoje existem na Venezuela muitos mais meios do que antes. De fato tem surgido muitos meios comunitários alternativos às empresas de comunicação.