Desorientação
A pequena burguesia, incapaz de levantar um programa próprio, acaba sucumbindo à pressão da burguesia em tempos de crise e passa a ser um instrumento para a contenção das massas
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Manifestantes na Avenida Paulista | Foto: Reprodução

Na medida em que a crise capitalista vai se aprofundando, a polarização política entre a burguesia e os trabalhadores tende a aumentar. A única maneira de os capitalistas manterem seus negócios em pé, afinal, é por meio de um duríssimo ataque à população, sobretudo a dos países atrasados. Por outro lado, a única maneira de os trabalhadores sobreviverem à miséria, à fome e, agora, à pandemia é por meio de uma luta implacável contra seus inimigos de classe. Como consequência da polarização, a pequena burguesia, incapaz de formular um programa próprio, acaba se dividindo: um setor cede à política reacionária da classe dominante, enquanto outro segue a política revolucionária dos trabalhadores.

No último mês, inúmeras demonstrações desse fenômeno apareceram nos atos de rua contra o governo Bolsonaro e o fascismo. No ato mais importante desde o início da pandemia de coronavírus, os trabalhadores, muitos deles integrantes da torcida do Corinthians, partiram para um enfrentamento direto com a extrema-direita. Naquele momento, a paciência com um regime de colaboração de classes chegara completamente ao fim: o povo estava disposto a qualquer coisa para acabar com seus inimigos. Disposto, inclusive, a partir para a violência. Em oposição à ditadura dos golpistas, à militarização do regime, à censura e à truculência da Polícia Militar, os trabalhadores gritavam: “democracia”.

Na mais absoluta contramão desse movimento, um setor bastante minoritário e pequeno-burguês da esquerda nacional tem tentado, por várias vezes, controlar essa disposição de luta dos trabalhadores. Esse setor, representado sobretudo por Guilherme Boulos, dirigente do Psol e do MTST, e por Danilo Pássaro, cabo eleitoral do Psol em São Paulo, lançou mão de vários expedientes que nada têm que ver com os interesses da classe operária.

Se, por um lado, os trabalhadores queriam varrer a extrema-direita das ruas, esse setor oportunista não se chocou, em momento algum, com a direita. Para os trabalhadores, “democracia” só é possível se os representantes da ditadura da burguesia não estiverem nas ruas intimidando o povo. Para Boulos, por outro lado, a esquerda deveria ser “democrática” ao ponto de negociar com os fascistas o direito do povo ocupar ou não as ruas. Com efeito, a esquerda oportunista se reuniu com representantes da Polícia Militar, do Judiciário golpista, do governo João Doria e, por fim, de organizações de extrema-direita. Em um momento, o grupinho comandado por Boulos desmarcou um ato que aconteceria na Avenida Paulista e foi para o Largo da Batata, evitando um enfrentamento com os bolsonaristas. Em um segundo momento, o mesmo grupinho firmou um acordo que permite a extrema-direita ocupar a Avenida Paulista a cada 15 dias — e, o que é pior ainda, proíbe a esquerda de estar presente nos dias em que os bolsonaristas estiverem se manifestando.

Negociar às escuras com a extrema-direita, enquanto o povo quer enfrentar seus inimigos, já é, em si, uma tremenda traição contra o movimento. Contudo, algum defensor dessa política capituladora e vergonhosa poderia alegar que essa seria uma questão de princípios: Boulos seria um “pacifista” que não quer usar da violência para alcançar seus objetivos. Nada, no entanto, poderia ser mais enganoso! Os mesmos que se trancafiaram com a direita para negociar o uso da rua têm usado de intimidação para impedir que as bandeiras dos partidos de esquerda sejam levadas nas manifestações.

No ato do último domingo (28), realizado na Avenida Paulista, um setor extremamente minoritário, liderado por Danilo Pássaro e vinculado a Guilherme Boulos, queria exigir que os militantes do Partido da Causa Operária (PCO) e dos comitês de luta contra o golpe e o fascismo não levantassem suas bandeiras. Ficou evidente que o excesso de “democracia” visto com os fascistas não estava presente no momento em que esse setor tentou impedir a esquerda de se manifestar livremente.

No dia 21 de junho, por sua vez, em uma manifestação em Brasília, o mesmo setor oportunista e truculento tentou impor, nas reuniões de organização, que os partidos políticos não levassem suas bandeiras. Diante da negativa da esquerda em guardar suas flâmulas, o mesmo setor se aliou à Polícia Militar, que usou o pretexto da proibição de “mastros” para impedir que os atos tivessem bandeiras. Em situação bastante semelhante, em um protesto em Recife, ocorrido no dia 5 de junho, setores ligados ao Psol tentaram intimidar manifestantes com a faixa de “Fora Bolsonaro”, alegando que a polícia iria agredi-los se a mantivessem aberta.

Esse demasiado apego à política da burguesia, a ponto de fazer uso da força para reprimir a esquerda, faz com que o setor liderado por Boulos e Pássaro sejam confundidos com a extrema-direita fascista. Afinal, esses métodos, tipicamente oportunistas ao negociar o direito de manifestação ao lado da burguesia, e verdadeiramente bolsonaristas ao tentar intimidar os setores mais combativos do movimento, nada têm que ver com os interesses dos trabalhadores. No fim das contas, a única vantagem que pode ser obtida nesses casos é uma vantagem de tipo individual, essencialmente pequeno-burguesa: a eleição de um ou dois vereadores, o apoio de um determinado setor da burguesia a uma candidatura. Para os trabalhadores enquanto classe, esses métodos só levarão à derrota: ao fortalecimento da extrema-direita e à dispersão da mobilização.

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