Evo Morales fora das eleições
A senadora golpista Jeanine Añez confirmou que Evo Morales, recentemente deposto pelas Forças Armadas, não poderá participar das próximas eleições.

Por: Redação do Diário Causa Operária

Amanhã (17), completa-se a primeira semana do golpe militar que derrubou o presidente boliviano Evo Morales, que cumpria seu terceiro mandato e havia sido reeleito para um quarto mandato. O imperialismo, que há muito tempo já havia demonstrado que não iria tolerar mais que o líder cocaleiro comandasse o país andino, elegeu o dia 10 de novembro como a data decisiva para pôr abaixo o governo por inteiro.

Na manhã do dia 10, a Organização dos Estados Americanos (OEA), que é uma instituição criada para promover a política da direita pró-imperialista, declarou que as eleições bolivianas de 20 de outubro haviam sido fraudadas. Imediatamente, a burguesia, que já estava fazendo campanha contra Evo Morales nas ruas e na imprensa, exigiu que o presidente aceitasse a convocação de novas eleições – o que implicaria em abrir mão do seu quarto mandato, que iniciaria em 2020. Após Morales ceder às exigências da direita, as Forças Armadas, em conjunto com a ação de grupos fascistas que aterrorizaram vários membros do governo, exigiu que Evo Morales abrisse mão do seu terceiro mandato também – isto é, que renunciasse. O presidente boliviano renunciou, sendo seguido pelo vice-presidente, pelo presidente da Câmara dos Deputados, pelo presidente do Senado e por ministros e parlamentares do mesmo partido que Evo Morales – o Movimento ao Socialismo (MAS).

O golpe militar conseguiu, em um único dia, destruir toda a estrutura do governo boliviano. No entanto, o objetivo do imperialismo não era apenas se livrar de Evo Morales e os altos escalões do governo: era preciso estabelecer um governo que fosse seguir fielmente a política dos bancos. Essa operação, no entanto, se mostrou inviável de ser feita imediatamente: o golpe provocou uma imensa reação do movimento popular, que saiu às ruas todos os dias para enfrentar a direita e, até mesmo, a polícia. Em vários países do mundo, foram registrados protestos em apoio a Evo Morales.

A rejeição popular ao golpe impediu, por exemplo, que as Forças Armadas, que foram decisivas para a queda de Evo Morales, assumissem imediatamente o poder e instaurassem uma ditadura contra a população. Um golpe com essas características – participação explícita dos militares, apoio do governo Bolsonaro e do imperialismo, atuação de grupos de extrema-direita etc. – é sempre uma operação muito delicada, uma vez que pode servir como estopim para um levante das massas que se dirijam à liquidação da dominação da burguesia sobre o país.

A solução que o imperialismo encontrou, até o momento, foi a de colocar como presidente interina do Estado Plurinacional da Bolívia a senadora golpista Jeanine Añez, pertencente ao Movimento Democrático Social. Añez aproveitou o vácuo deixado pelas sucessivas renúncias dos correligionários de Evo Morales, incluindo os representantes das casas legislativas, para se autoproclamar presidente interina. Para ser validada como presidente, Añez precisaria ser aprovada, através de votação, pela maioria do parlamento boliviano, o que não  aconteceu.

Tão logo se autodeclarou presidente do país andino, Añez virou alvo de protestos do movimento popular andino. O “Fora Añez” já está nas ruas, o que mostra as dificuldades que a direita está encontrando de prosseguir com o golpe. Os enfrentamentos entre o povo boliviano – mesmo desarmado – com a polícia também são indicativos da rejeição popular à política neoliberal.

Embora seja uma solução bastante improvisada e, justamente por isso, com muita dificuldade de prosseguir, o recém-instaurado governo Añez já mostrou para que veio. Cinicamente, a própria autodeclarada Añez decretou que a Bolívia reconhecia o autodeclarado presidente da Venezuala, Juan Guaidó, mostrando que se trata da mesma operação fajuta de substituir um governo popular por uma figura completamente artificial e fajuta, um títere do imperialismo.

A presidenta golpista e autodeclarada da Bolívia também renovou a cúpula das Forças Armadas. Mesmo tendo sido parte do golpe militar, a cúpula militar boliviana ainda não estava completamente alinhada aos interesses do imperialismo. O novo comandante das Forças Armadas será o general Sergio Carlos Orellana, que favorável à repressão violenta para “pacificar” o país – isto é, para “limpar o terreno” para que a direita possa entregar todo o patrimônio boliviano ao imperialismo.

Para que o imperialismo consiga impor sua política de destruição da Bolívia, no entanto, será necessário organizar uma manobra que consiga diminuir a temperatura das ruas. Ao que tudo indica, essa manobra será a realização de novas eleições presidenciais – que era, justamente, a reivindicação da burguesia e da extrema-direita boliviana antes de ser deflagrado o golpe militar. Com novas eleições, a direita conseguiria dar um respaldo maior de “legitimidade” para o governo seguinte, o que daria mais condições para a ofensiva do imperialismo.

O uso das eleições, por parte da burguesia, para dar “legitimidade” a um governo golpista foi exatamente o que aconteceu em 2018 no Brasil e é para isso que se encaminha também a Bolívia. Em 2018, a esquerda nacional brasileira capitulou ao aceitar que o maior líder popular do país, o ex-presidente Lula (PT), não concorresse às eleições presidenciais, lançando, em seu lugar, Fernando Haddad (PT). O resultado foi a vitória eleitoral do fascista Jair Bolsonaro, que logo em seu discurso de posse falou em acabar com o socialismo. Na Bolívia, Añez já declarou que serão convocadas novas eleições presidenciais, mas que Evo Morales, deposto por meio de um golpe de Estado, estaria proibido de participar.

A esquerda boliviana e o movimento popular não podem aceitar mais essa vigarice da burguesia boliviana. A realização de novas eleições em si já é inadmissível: Evo Morales foi reeleito com uma vantagem superior a 10% para o segundo colocado e só renunciou porque foi vítima de uma golpe envolvendo a extrema-direita e as Forças Armadas. Eleições sem Evo Morales serão, de maneira escancarada, a maior das fraudes eleitorais que poderia acontecer na Bolívia. Sem Morales, que é a maior liderança do país andino, o imperialismo terá muito mais facilidade para manobrar as eleições e dar a vitória para um golpista da mesma qualidade de Mauricio Macri (Argentina), Jair Bolsonaro (Brasil) ou Lenín Moreno (Equador).

As mais recentes notícias do portal Sputnik News informam que a golpista Jeanine Añez e os membros do MAS teriam entrado em um acordo para trazer mais estabilidade ao regime político. Embora não haja detalhes sobre a questão da participação de Evo Morales nas próximas eleições, tudo indica que o MAS cedeu novamente à direita e concordou que o líder cocaleiro ficasse de fora. Añez havia declarado que qualquer acordo com o MAS só seria possível com a eliminação de Morales das próximas eleições.

Com a renúncia dos principais representantes das instituições bolivianas, com uma cúpula das Forças Armadas dedicada a massacrar o povo e, principalmente, com o banimento de Evo Morales da política boliviana – vale lembrar que Morales sequer está na Bolívia, mas sim exilado no México -, vai se confirmando que a destituição do governo foi um golpe militar com o objetivo de estabelecer uma ditadura da direita golpista, assim como tem acontecido em todo o mundo.

Os trabalhadores e a população em geral não podem assistir de braços cruzados ao avanço dos golpistas no regime. O caminho para derrotar a ofensiva da direita não é o da capitulação, como optaram os dirigentes do MAS e o próprio Evo Morales, nem o de qualquer acordo. É preciso mobilizar as massas para um enfrentamento decidido contra a direita. Fora imperialismo da América Latina!

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