Ilusão identitária
Enquanto a esquerda se ilude com o caráter pretensamente democrático de Joe Biden, ele prepara o seu gabinete de guerra.
joe biden foto tns
Joe Biden, o cachorro louco do imperialismo | Foto: Reprodução/TNS
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Joe Biden, o cachorro louco do imperialismo | Foto: Reprodução/TNS

Nesta quarta-feira, dia 20, tomou posse o 46º presidente norte americano, o democrata Joe Biden. Biden vai governar com o gabinete mais diverso em toda história dos Estados Unidos. Seu governo terá negros, mulheres negras, transexuais, latinos e a primeira mulher indígena na chefia da Secretaria do Interior.

Sobre o passado racista e opressor de Joe Biden já foram publicadas várias matérias neste Diário Causa Operária como esta:

O passado racista de Joe Biden

Por trás da fachada do identitarismo, feita de encomenda para agradar setores da classe média liberal e da pequena burguesia de esquerda, Joe Biden, usará o apoio que recebe e receberá para fazer um amplo ataque aos povos latinos, africanos, do oriente médio, a todos os países de capitalismo atrasado. Esta prática identitária já tem dado bons resultados a Biden. Já enganou boa parte da esquerda brasileira, que enxergou no político um paladino da democracia, em oposição ao fascista Donald Trump. Verifiquemos quem são cada um dos integrantes do gabinete de Biden.

Kamala Harris

A vice-presidente de Joe Biden, Kamala Harris, foi o primeiro indício de que Biden se valeria da política do identitarismo para angariar apoio. Foi um grande trunfo para Biden, que pôde fazer propaganda, no período eleitoral, de que seria um grande defensor do povo negro americano.

No entanto, a atuação da ex-senadora pelo estado da Califórnia, que também foi promotora pública entre 2011 e 2017, mostra que ela sempre foi uma agente dedicada da burguesia americana, criadora da lei que tornou crime a evasão escolar. Por esta lei os pais de uma criança que faltasse a mais de dez dias de aulas seriam conduzidos à prisão. Evidentemente que esta lei afeta muito mais as pessoas mais humildes e as minorias como negros e latinos.

Sua política geral foi o de maior encarceramento dos pobres e negros, em muitas vezes se omitindo quando a questão envolvia a punição a policiais que mataram em serviço. Inclusive este fato produziu muitos memes na internet, sendo os mais famosos os da série “Kamala is a cop” (Kamala é policial). Os negros americanos sabem muito bem que Kamala é uma capitã do mato.

Não podemos esquecer que a Califórnia é um dos estados onde existe a “Three-strikes law” (literalmente lei dos três golpes). Com esta lei qualquer cidadão que cometa três crimes, mesmo de pouca gravidade, recebe uma sentença de prisão perpétua, uma monstruosidade jurídica sob qualquer ponto de vista.

Em entrevista concedida em novembro do ano passado, Kamala Harris admitiu que o governo Biden intensificaria o bloqueio a Cuba, que ela classificou como uma “ditadura”. Ela usou ainda, mais uma vez, da demagogia, ao dizer que exigiria a libertação de “presos políticos” e o restabelecimento dos “direitos humanos” como peça central na relação diplomática entre os dois países.

Lloyd J. Austin III

Lloyd Austin é o general da reserva do exército americano que vai assumir o Secretariado da Defesa, que será o primeiro negro a chefiar o Pentágono na história. Austin foi o comandante do Comando Central americano durante o governo de Barack Obama, entre 2013 e 2016. Teve participação ativa no comando na invasão do Iraque em 2003 e também na Guerra do Afeganistão e intervenções no Iêmen, Líbia, Somália e Síria, um assassino condecorado.

Austin será o instrumento pelo qual Biden deverá levar adiante uma política ainda mais sanguinária que aquela adotada por Barack Obama, muito devido à própria situação de crise no centro do imperialismo.

Rachel Levine e Pete Buttigieg

Para a pasta da Subsecretaria da Saúde, Biden indicou a médica pediatra trans Rachel Levine. Será a primeira mulher trans a ocupar um cargo no segundo escalão do governo norte americano.

Rachel Levine era, anteriormente, a secretária do Departamento de Saúde do estado da Pensilvânia, cargo que assumiu em julho de 2017. Neste posto Levine era a responsável pelas medidas de combate à pandemia do covid-19 no estado. No ano de 2020 a Pensilvânia teve 12.436 mortes e mais de 440 mil casos de contaminação, seguindo a política geral de combate adotada pelo governo federal. Ou seja, é também uma das responsáveis pela falta de uma verdadeira política de combate ao vírus. Levine será uma das responsáveis pela área da saúde pública, uma área onde Biden e Obama tiveram enorme influência, praticamente destruindo o pouco que restava para a população mais pobre, incapaz de bancar os custos dos planos privados.

Ainda no terreno LGBT, outra indicação de Biden é o de Pete Buttigieg à Secretaria dos Transportes. Buttigieg foi prefeito da cidade de South Bend, no estado da Indiana entre 2012 e 2020, quando se tornou um dos pretendentes à candidatura do partido democrata nas eleições presidenciais de 2020. Ele se tornou o primeiro gay assumido a lançar uma candidatura presidencial.

Desde 2005 Buttigieg faz parte do Truman National Security Project, um grupo que discute a política externa americana e que tem entre seus líderes, Hunter Biden, filho de Joe Biden. O grupo tem uma postura ativamente pró-militar e recebe verbas de inúmeros grupos capitalistas. Buttigieg é um especialista em Afeganistão e Paquistão, onde ele atuou no campo.

Buttigieg é outro Falcão de Guerra, termo que foi cunhado para descrever aqueles que empurram as situações para os confrontos. É um militarista notório, assim como Anthony Blinken, recém nomeado por Biden para a Secretaria do Estado.

Xavier Becerra e Alejandro Mayorkas

A demagogia de Biden incluiu também os latinos. Xavier Becerra assumirá o cargo de Secretário da Saúde e Serviços Humanos. Becerra nasceu em Sacramento, Califórnia, filho de pais mexicanos. Becerra foi um deputado nos anos 90, quando trabalhou para aprovar uma lei que aumentou as penas para membros de gangues. É sabido que boa parte das gangues na Califórnia é composta por latinos, mexicanos em especial.

A partir de 2017 se tornou procurador geral do estado da Califórnia, sucedendo Kamala Harris, mas mantendo a mesma política que sua antecessora. Segundo um outro senador democrata, Art Torres, “oh, ele é o Joe Biden latino. Garoto da classe trabalhadora, fruto de muito trabalho”.

Outro latino no governo Biden é Alejandro Mayorkas que assumirá a pasta da Secretaria de Segurança Interna dos Estados Unidos. Mayorkas nasceu em Havana, Cuba, em 1959. Ele chegou aos Estados Unidos com os pais fugindo da Revolução Cubana. No seu histórico consta que foi procurador geral no distrito geral da Califórnia entre 2009 e 2013; diretor dos Serviços de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos entre 2009 e 2013 e secretário adjunto de Segurança Interna entre 2013 e 2016, ambos cargos dentro do governo Obama.

No DHS, Departamento de Segurança Interna, o trabalho de Mayorkas se concentrou na área da cibersegurança, contraterrorismo e contra os crimes cibernéticos. A nomeação de Mayorkas mostra que no governo Biden deverão ser impulsionadas as mesmas políticas de espionagem dos cidadãos que foram amplamente denunciadas por Edward Snowden. Logo após os acontecimentos do 11 de setembro o governo americano fez vários ataques às liberdades do povo americano, tudo em nome do combate ao terrorismo. Snowden mostrou que todos poderiam ser espionados pelo governo, atropelando direitos básicos. Em 2014 Mayorkas foi um dos integrantes do governo que fizeram declarações que Snowden deveria ser punido pela justiça americana.

Deb Haaland

Debra Anne Haaland foi a indicada de Biden para a Secretaria do Interior. Ela é uma deputada democrata pelo estado do Novo México, de origem nativo-americana, do povo Kawaik, da nação Laguna Pueblo. Ela teve pais militares e como deputada faz parte do Comitê das Forças Armadas. Deb completa o quadro de integrantes de minorias raciais representadas no governo de Biden. Vale destacar ainda a presença de várias mulheres como Janet Yellen (Secretaria do Tesouro) e Avril Haines (Diretora da Inteligência Nacional).

Com estes nomes Joe Biden mostra que enquanto faz demagogia com as minorias americanas, conseguindo sua simpatia, está preparando o país para um ataque devastador contra todas as nações de capitalismo atrasado do mundo. O Secretário de Estado, o fascista Anthony Blinken, já reiterou que o ex-deputado Juan Guaidó é o “presidente interino” da Venezuela. Mais uma mostra de que os Estados Unidos preparam uma grande ofensiva contra o governo legitimamente eleito de Nicolás Maduro.

Blinken também confirmou a transferência da embaixada dos Estados Unidos de Israel de Tel Aviv para Jerusalém, cuja porção oriental é reivindicada como capital de um futuro estado palestino.

Esta é a perspectiva do governo Biden. Ataques aos povos negros na África, ataque às mulheres nos países do Oriente Médio, ataque aos povos latinos da América do Sul, a Cuba e Venezuela. Golpes de estado, espionagem cibernética, controle da população americana através da total repressão. A esquerda não pode continuar a se iludir com a imagem falsamente democrática do fascista Joe Biden.

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