É sobre legítima defesa
O filme confronta a ideologia da esquerda pequeno-burguesa. Sem reação, estaremos dizimados
Sao Paulo- SP- Brasil- 14/12/2016- O grande evento anual do projeto CineB aconteceu ontem, dia 13 de dezembro. Foram premiados com o Troféu CineB os filmes que integraram o circuito, além de comunidades e entidades, que receberam o cinema itinerante. O ator Aílton Graça, que foi o mestre de cerimônias, fez um discurso impactante, destacando a importância que um evento cultural como o CineB tem na formação de jovens. Contou que vivia na periferia, na Zona Sul de São Paulo, e que foi graças a um teatro que descobriu na periferia que as portas se abriram para ele ser o que é hoje. Kleber Mendonça Filho, diretor de “Aquarius”, disse que ficou honrado em receber um prêmio diferente e muito especial para seu filme, porque ele veio de um circuito alternativo que leva os filmes até a população que não tem oportunidades de ter acesso aos equipamentos culturais. “É onde acredito que os filmes devam também ser exibidos. Geralmente os filmes são exibidos primeiro nas salas comerciais e só depois seguem para esses circuitos alternativos. Já o ‘Aquarius’ foi lançado simultaneamente nas salas comerciais e nas sessões do CineB”, destacou. Um momento marcante da cerimônia foi a homenagem à trajetória e à memória do ator Domingos Montagner, falecido no dia 15 de setembro, em Canindé de São Francisco, Sergipe. Foram exibidas cenas inéditas do conhecido ator, teatrólogo e palhaço brasileiro, que atuou em três filmes exibidos pelo CineB em 2016:
Foto: Danilo Ramos/Fotos Públicas. |

Henrique Áreas

Muito se discutiu sobre o ótimo filme Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. É natural que um filme marcadamente político, lançado num momento de aguda polarização política no País, levantasse tantas críticas e polêmicas. À esquerda e à direita muitas opiniões foram lançadas sobre o filme.

Em primeiro lugar é preciso dizer que Bacurau é antes de qualquer coisa um belo filme. Uma trama bem construída, boa fotografia, enredo com conteúdo. Nesse aspecto, é desprezível qualquer tentativa da direita de “acusar” o filme de “panfletário”. Na falta de argumentos, a burguesia gosta de utilizar adjetivos que para ela podem parecer depreciativos, mas que na realidade só mostram que a arte está cumprindo seu papel político e, melhor ainda, incomodando a direita.

A esquerda também se dividiu sobre a obra, e é aí que gostaria de levantar dois aspectos centrais do filme que vão contra o senso comum que se estabeleceu na esquerda brasileira – e mundial – influenciada por uma ideologia imperialista.

A construção do filme, uma mistura de elementos que passam pelas vinganças à la Quentin Tarantino, com uma narrativa que remete aos filmes de Faroeste e o ambiente do sertão nordestino, com direito a trilha de Geraldo Vandré e cabeças expostas em praça pública, leva o espectador a uma identificação incondicional pelos habitantes do vilarejo chamado Bacurau.

A violência covarde a que os invasores, muito bem armados, melhor posicionados e economicamente superiores, submetem os habitantes de Bacurau leva necessariamente o espectador a uma espécie de sublimação diante da reação.

Independente das considerações políticas dos próprios diretores do filme, do ponto de vista puramente cinematográfico, o espectador fica em primeiro lugar extasiado e depois aliviado com a reação dos habitantes. Depois de momentos em que a tensão é elevada até o extremo, vem o alívio. O terror em Bacurau é muito mais real, é a PM invadindo os morros no Rio de Janeiro e em todo o País e assassinando, a sangue frio, crianças, jovens e trabalhadores. É o imperialismo invadindo um país e cometendo as maiores atrocidades com a ajuda dos governantes locais. Mas se o terror em Bacurau tem muito de real, a reação dos moradores também tem, e pode ter.

Esse sentimento incontrolável de êxtase diante da reação de Bacurau entrou em contradição com os preconceitos ideológicos que vêm há algum tempo dominando a esquerda brasileira. O filme não dá espaço para pacifismo. O mais pacífico dos seres humanos se vê impelido a reagir, a aniquilar o inimigo que o está aniquilando.

Talvez por isso o filme tenha gerado opiniões como a de Fernando Haddad que, envolto em uma política de conciliação, não percebe que os bárbaros são os invasores. Apenas e tão somente os invasores. Nossa capacidade de reagir aos bárbaros, como reagiram os habitantes de Bacurau, é nossa humanidade vindo à tona, não nossa barbárie. Talvez por isso o menino responda à forasteira que quem nasce em Bacurau é “gente”.

A esquerda que passou anos reproduzindo uma ideologia pacifista difundida pelos invasores, que querem assassinar sem que haja reação, se viu confrontada por Bacurau.

A esquerda que defende o desarmamento do povo, se viu desmentida por Bacurau. E talvez por isso li colunas de pessoas da esquerda que “confessavam” ter vibrado com a reação dos habitantes mas que questionava sobre qual o tipo de reação devemos defender. Como se o oprimido devesse sentir culpa ao reagir ao opressor.

Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles podem apenas ter feito um filme sobre vingança. Podem apenas ter se preocupado em denunciar o atual momento político do País com metáforas muito bem feitas. Mas talvez eles não esperavam mexer com os preconceitos pacifistas da esquerda pequeno-burguesa. Fato é que, conscientemente ou não, os dois mostraram qual é o único caminho para derrotar um invasor violento e covarde.

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