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É sobre legítima defesa
Bacurau coloca em xeque a ideologia pacifista da esquerda
O filme confronta a ideologia da esquerda pequeno-burguesa. Sem reação, estaremos dizimados
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É sobre legítima defesa
Bacurau coloca em xeque a ideologia pacifista da esquerda
O filme confronta a ideologia da esquerda pequeno-burguesa. Sem reação, estaremos dizimados
Foto: Danilo Ramos/Fotos Públicas.
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Foto: Danilo Ramos/Fotos Públicas.

Henrique Áreas

Muito se discutiu sobre o ótimo filme Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. É natural que um filme marcadamente político, lançado num momento de aguda polarização política no País, levantasse tantas críticas e polêmicas. À esquerda e à direita muitas opiniões foram lançadas sobre o filme.

Em primeiro lugar é preciso dizer que Bacurau é antes de qualquer coisa um belo filme. Uma trama bem construída, boa fotografia, enredo com conteúdo. Nesse aspecto, é desprezível qualquer tentativa da direita de “acusar” o filme de “panfletário”. Na falta de argumentos, a burguesia gosta de utilizar adjetivos que para ela podem parecer depreciativos, mas que na realidade só mostram que a arte está cumprindo seu papel político e, melhor ainda, incomodando a direita.

A esquerda também se dividiu sobre a obra, e é aí que gostaria de levantar dois aspectos centrais do filme que vão contra o senso comum que se estabeleceu na esquerda brasileira – e mundial – influenciada por uma ideologia imperialista.

A construção do filme, uma mistura de elementos que passam pelas vinganças à la Quentin Tarantino, com uma narrativa que remete aos filmes de Faroeste e o ambiente do sertão nordestino, com direito a trilha de Geraldo Vandré e cabeças expostas em praça pública, leva o espectador a uma identificação incondicional pelos habitantes do vilarejo chamado Bacurau.

A violência covarde a que os invasores, muito bem armados, melhor posicionados e economicamente superiores, submetem os habitantes de Bacurau leva necessariamente o espectador a uma espécie de sublimação diante da reação.

Independente das considerações políticas dos próprios diretores do filme, do ponto de vista puramente cinematográfico, o espectador fica em primeiro lugar extasiado e depois aliviado com a reação dos habitantes. Depois de momentos em que a tensão é elevada até o extremo, vem o alívio. O terror em Bacurau é muito mais real, é a PM invadindo os morros no Rio de Janeiro e em todo o País e assassinando, a sangue frio, crianças, jovens e trabalhadores. É o imperialismo invadindo um país e cometendo as maiores atrocidades com a ajuda dos governantes locais. Mas se o terror em Bacurau tem muito de real, a reação dos moradores também tem, e pode ter.

Esse sentimento incontrolável de êxtase diante da reação de Bacurau entrou em contradição com os preconceitos ideológicos que vêm há algum tempo dominando a esquerda brasileira. O filme não dá espaço para pacifismo. O mais pacífico dos seres humanos se vê impelido a reagir, a aniquilar o inimigo que o está aniquilando.

Talvez por isso o filme tenha gerado opiniões como a de Fernando Haddad que, envolto em uma política de conciliação, não percebe que os bárbaros são os invasores. Apenas e tão somente os invasores. Nossa capacidade de reagir aos bárbaros, como reagiram os habitantes de Bacurau, é nossa humanidade vindo à tona, não nossa barbárie. Talvez por isso o menino responda à forasteira que quem nasce em Bacurau é “gente”.

A esquerda que passou anos reproduzindo uma ideologia pacifista difundida pelos invasores, que querem assassinar sem que haja reação, se viu confrontada por Bacurau.

A esquerda que defende o desarmamento do povo, se viu desmentida por Bacurau. E talvez por isso li colunas de pessoas da esquerda que “confessavam” ter vibrado com a reação dos habitantes mas que questionava sobre qual o tipo de reação devemos defender. Como se o oprimido devesse sentir culpa ao reagir ao opressor.

Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles podem apenas ter feito um filme sobre vingança. Podem apenas ter se preocupado em denunciar o atual momento político do País com metáforas muito bem feitas. Mas talvez eles não esperavam mexer com os preconceitos pacifistas da esquerda pequeno-burguesa. Fato é que, conscientemente ou não, os dois mostraram qual é o único caminho para derrotar um invasor violento e covarde.