Águas passadas, principalmente quando falsas, não movem moinhos
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Águas passadas, principalmente quando falsas, não movem moinhos
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Em recente artigo escrito por Causa Operária, denunciando a fusão política do PCdoB com o Partido golpista da Pátria Livre (PPL, antigo MR-8), um internauta comentou nas redes sociais:

“O velho trotskismo, sabujos do anticomunismo. Qual é a história do PCO para o Brasil ? O PCdoB, herdeiro do legado de 1922, pegou em armas no Estado Novo, enfrentou a ditadura militar na heróica jornada do Araguaia, resistiu ao massacre da Lapa, seguiu nas diretas já, impeachment do Collor, oposição ao FHC, ajudou no governo Lula e Dilma, lutou contra o golpe. O PPL (MR-8), rompeu com o revisionismo PCBista, foi pra luta armada, sequestrou o embaixador dos EUA, libertou os torturados políticos da ditadura, participou das diretas, fora Collor, oposição ao FHC, compôs no governo Lula, e rompeu com o governo Dilma em 2011. Hoje, não só assumiu oposição ao governo Bolsonaro como se incorporaram ao PCdoB pelos ideiais do socialismo, contra o imperialismo e pela libertação Nacional. Na centenária legenda comunista, temos a Ana Prestes, neta de Luís Carlos Prestes, João Vicente Goulart, filho do Jango e Brizola Neto, Neto de Leonel Brizola.”

O comentário procura a tirar o foco da questão principal, que é o fato de o PPL, partido com o qual o PCdoB se fundiu, defender o golpe e ser favorável à prisão de Lula pela Lava Jato (coisa que o crítico não menciona em seu comentário). Isto é, o PCdoB, literalmente se aliou com um partido golpista, que era o que estava sendo denunciado na matéria.

Entretanto, o internauta negou o fato e decidiu sair em defesa do PCdoB e de seu passado. Esqueceu-se do velho ditado “águas passadas não movem moinhos”. Se o PCdoB ou o MR-8 fizeram isso ou aquilo no período jurássico, em 1900 e bolinha, não faz muita diferença. O que vale é como o partido é atualmente. Caso contrário, a esquerda deveria esquecer a política para realizar apenas uma apreciação passiva da história – o que de forma alguma ajudaria na mobilização popular. É preciso fazer a crítica com base na realidade atual: o fato de o PCdoB estar se fundindo com um partido que defende a prisão de Lula e golpe de 2016.

Porém, o mais absurdo nesta defesa ao PCdoB não é o fato de o crítico se ater ao passado, mas o fato de que o passado por ele descrito, de um PCdoB revolucionário e combativo, é totalmente falso.

O PCdoB é um dos partidos que mais cumpre (e cumpriu) o papel de desorientar os trabalhadores na luta contra a direita. Ao longo da história, foram inúmeras traições ao movimento operário e popular. Um partido que ingressou na base de sustentação da Ditadura Militar, no MDB, e depois surgiu como uma ponte para aliança das direções pequeno-burguesas do PT com a burguesia.

O PCdoB surgiu, como afirmamos em textos anteriores, em nossa Revista Textos (de teoria), como produto da crise da burocracia stalinista da URSS, na época da Nikita Kruschev. A burocracia stalinista no Brasil, que liderava o PCB, dividiu-se entre os elementos menos alinhados com a política de traição dos soviéticos, como o dirigente Luís Carlos Prestes, e os elementos mais oportunistas, totalmente alinhados com Kruschev, como João Amazonas (elogiado por Manuela D’ávila), Pedro Pomar e Maurício Grabois, que fundaram o PCdoB.

O PCdoB, entretanto, que buscou apresentar uma divergência (mesmo que superficial) com o PCB, em nada se diferenciou do “partidão” na política de conciliação com a burguesia nacional e de capitulação total diante do golpe militar de 1964 – tornando-se um verdadeiro empecilho da luta popular contra o golpe de estado.

O peso recaiu sobre o PCB, graças à manobra oportunista do PCdoB, mas na realidade os dois são culpados pelo mesmo crime contra os trabalhadores, que favoreceu a implantação de uma ditadura brutal de mais de duas décadas no país. A diferença ocorreu por conta da manobra do PCdoB que fez com que o setor mais direitista da burocracia stalinista realizasse suas traições, durante o próprio regime militar, com mais facilidade.

A luta guerrilheira, elogiada pelo internauta, foi nada mais que a consequência do isolamento total da burocracia, que não contava com o apoio da classe operária (que se encontrava no PCB), nem da Ditadura Militar e nem da burocracia russa. Essa situação, entretanto, gerou mais uma crise dentro do PCdoB. Enquanto a ala esquerda procurava exercer, de fato, a teoria, na moda na época, do foco guerrilheiro, como na experiência no Araguaia, setores da ala mais oportunista buscavam se aproximar da ditadura militar.

Então aparece um acontecimento que, até hoje, ninguém consegue explicar: o assassinato de todos os elementos da ala esquerda do Comitê Central do partido (massacre da Lapa, mencionado pelo internauta).

Em artigo de Rui Costa Pimenta, na Revista Textos, afirma-se:

“Embora a ala esquerda do partido tivesse levado à prática, através da experiência isolada do partido feita no Araguaia, a crise partidária teve como desenlace um dos episódios até hoje inexplicados da esquerda nacional, onde um comando da ditadura assassinou todos os líderes da ala esquerda do Comitê Central, Pedro Pomar e Maurício Grabois, em um aparelho do partido organizado em uma casa do bairro da Lapa em S. Paulo, logo após uma reunião do Comitê Central. A acusação de que a disputa interna do partido teria sido teria superada por meio da delação e do acordo com o regime militar foi formulada como suspeita, mas nunca pode ser efetivamente provada.

A partir deste momento, não obstante, a ala direita, dirigida por João Amazonas, consolidou-se na direção de um partido em completa crise, que viria as ser resgatado por uma circunstância que alteraria completamente o seu desenvolvimento e seria decisiva na sua evolução política após a ditadura.”

Isto é, o massacre teria sido produto de uma delação da ala direita (João Amazonas) para tomar conta do partido e se aliar com a Ditadura Militar. É justamente por volta desta época que o partido, totalmente controlado pela ala direita, entra na “oposição” de mentira do regime ditatorial, ingressando no MDB, em uma política de cretinismo parlamentar completa, semeando a confusão política na população, colocando todas as esperanças nas eleições fajutas do regime.

Nesse período, o PCdoB perde quase toda sua base operária e passa a ser um partido tipicamente pequeno-burguês, com dirigentes oportunistas da política burguesa e estudantes, na base do partido, que permitiu sua dominação do movimento estudantil durante toda a ditadura militar.

E as poucas lideranças operárias que sobraram procuraram se aliar com os sindicalistas pelegos da ditadura militar.

O PCdoB, quando eclode a crise da Ditadura Militar, torna-se então um sustentáculo da burguesia para impedir a derrubada da ditadura pela mobilização popular, através da defesa de uma abertura lenta e progressiva, baseada nas eleições fraudadas dos capitalistas.

“o PCdoB se transforma, a partir da sua presença majoritária no movimento estudantil, na corrente estudantil oficial da burguesia que buscava realizar a “transição” a frio do regime militar para um regime de aparência democrática, mas dominado pelos mesmos capitalistas que dominam sob a ditadura”.

Na radicalização da juventude e, em seguida, da classe operária contra os militares, o PCdoB atuou como tropa de choque da burguesia para conter a mobilização popular, integrando-se completamente no regime burguês.

A política de Aldo Rebelo, que recentemente saiu do partido para se aliar com Paulinho da Força e tornou-se amigo íntimo dos atuais Generais golpistas e bolsonaristas, em seu mandato com presidente da UNE, foi de apoio total ao governo Sarney, imposto pela Ditadura por meio do Colégio Eleitoral.

Durante as grandes greves operárias, no período entre 1978 e 1985, o PCdoB se colocou contra a criação da CUT, formada pela base do movimento operário, buscando direcionar os operários para a política de conciliação dos pelegos do regime, que já se encontravam em estado terminal.

“Neste momento, o PCdoB oferece ao peleguismo uma fachada de esquerda e procura conter o movimento grevista e o crescimento das oposições pela violência, mostrando-se como um braço agressivo do regime burguês contra-revolucionário em crise”.

Mas a política contra-revolucionária e capacho da burguesia não parou por aí. Nos anos consecutivos, o PCdoB se mostrou um verdadeiro braço esquerdo das classes dominantes. Que se agravou com a crise da burocracia soviética, nos anos 80-90, quando o PCdoB buscou se alinhar (não só politicamente, mas ideologicamente) com a democracia burguesa.

Mesmo perdendo a direção da UNE, em 1986 até 1988, com a capitulação e política de Frente Popular do PT, o PCdoB conquistou novamente a entidade em 1989 (e controlam até os dias atuais), quando intensificou a luta contra a mobilização popular, que na época se expressava no “Fora Collor”. Uma política de traição gigantesca foi realizada, dando, ao invés da uma saída democrática para a crise, com a derrubada do governo, uma solução montada pelas classes dominantes, através de conchavos institucionais (Impeachment), que colocaram o vice de Collor, Itamar Franco, no poder.

Com o controle burocrático do movimento estudantil e as alianças com os partidos da burguesia, que permitiu o desenvolvimento de uma cúpula parlamentar, o PCdoB fundamentou suas bases políticas até hoje vigentes.

Desta forma, não deveria ser surpresa para ninguém a aliança do PCdoB com partidos golpistas. Vale lembrar que o principal governador deste partido, Flávio Dino, estabeleceu-se no poder por meio de um gigantesco acordo com o PSDB (partido dirigente do golpe de 2016); e que o partido escolheu Rodrigo Maia (DEM, ex-ARENA, partido da ditadura militar) para a presidência da câmara de deputados.

Não é surpreendente então a unificação com PPL, que é o MR-8, não o antigo, de guerrilheiros, mas o “novo”, que entrou no PMDB, em meio à crise total do regime burguês nos anos 90, e apoiou o direitista Quércia ao governo de São Paulo, nesta época.

No fundamental, o que vale é que o PCdoB se unificou com um partido golpista, que defendeu a derrubada de Dilma Rousseff e a prisão política de Lula. Para rebater os argumentos contrários à crítica de Causa Operária, vale lembrar que águas passadas, principalmente quando falsas, não movem moinhos.