Adaptação ao bolsonarismo
Em artigo publicado pelo portal The Intercept Brasil, a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado defendeu que a esquerda adotasse a mesma propaganda da direita golpista.
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Campanha da chapa Fernando Haddad-Manuela D'Ávila em 2018. Foto: Nelson Almeida/AFP |

A antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, que está lançando o livro Amanhã vai ser maior: O que aconteceu com o Brasil e possíveis rotas de fuga para a crise atual, tem defendido, sistematicamente, que a esquerda reveja uma série de erros que teria cometido – isto é, que faça uma autocrítica -, apresentando como tese que as organizações populares não conseguiram se adaptar às mudanças da “nova geração”. Dando continuidade a essa revisão da política da esquerda brasileira, Pinheiro-Machado escreveu a coluna Por que a esquerda não está conquistando novos corações, publicada pelo portal The Intercept Brasil no dia 10 de dezembro.

Rosana Pinheiro-Machado abre seu texto contando um caso de um trabalhador que teria se desiludido com a esquerda e que, por isso, se tornou um eleitor do fascista Bolsonaro:

Hoje, com 23 anos, Joca já é pai e dirige 16 horas por dia para um aplicativo. Já foi assaltado e perdeu seu carro, o que ajudou a torná-lo um punitivista convicto, dando seu primeiro voto a Bolsonaro.

Eu não presenciei a briga para saber o que aconteceu de fato. O que tenho é apenas uma narrativa construída sobre uma indignação que não achou o seu lugar na esquerda.

De fato, não são poucas as pessoas que se frustraram com a esquerda nos últimos anos. No entanto, a colocação da antropóloga merece duas observações. Em primeiro lugar, não se pode considerar que os votos que foram creditados a Bolsonaro demonstram um vínculo sólido entre os eleitores e a extrema-direita. As eleições de 2018, que são utilizadas como grande trunfo do bolsonarismo, foram uma das fraudes mais escandalosas da história, repleta de falcatruas, ameaças e muita truculência. No meio desse golpe, um voto em Bolsonaro não significa uma adesão ao programa da extrema-direita, mas sim que a operação de tipo terrorista por parte da burguesia surtiu algum efeito temporário.

Nenhum trabalhador, afinal, vira um punitivista convicto – isto é, coloca a necessidade de punição à criminalidade acima de todas as suas necessidades. Certamente, se o ex-presidente Lula concorresse às eleições com um programa combativo, que denunciasse os capitalistas como grandes responsáveis pela miséria do país, haveria poucos personagens como o da história narrada por Pinheiro-Machado.

Isso nos leva à segunda observação: a de que a frustração dos trabalhadores não advém da incapacidade da esquerda de se adaptar aos tempos atuais, mas sim da política que vem sendo seguida por suas direções. Os levantes populares nos países andinos e até mesmo em países imperialistas, como é o caso da França, estão mostrando o caminho que a esquerda deve seguir: o de enfrentamento ao regime político. No entanto, firmemente, as direções de todas as grandes organizações de massa do mundo, até o momento, têm optado por seguir uma outra política: a política de adaptação ao regime político. Dessa maneira, ao invés de mobilizar os trabalhadores para derrubar a direita, as direções estão orientando suas bases a procurar um acordo com sues próprios algozes – trata-se, obviamente, de uma política suicida.

A política que Rosana Pinheiro-Machado propõe, ao falar de novos caminhos para a esquerda, não tem, portanto, nada de novo. Nada mais é do que o aprofundamento da política de colaboração de classes entre a esquerda e a burguesia: a política da esquerda de se submeter às exigências dos capitalistas, ao invés de se livrar dos parasitas que impedem o desenvolvimento nacional. Isso fica bastante claro quando a antropóloga fala em cancelamento:

Quando o assunto é cancelamento, o comportamento da extrema-direita bolsonarista é muito mais nefasto. Bots (robôs) atuam como milícias virtuais, e membros do PSL se ofendem de modo vulgar nas redes sociais. Mas eles estão no poder. Já a esquerda precisa trilhar o caminho oposto: um longo processo de reconstrução e diálogo franco com a sociedade brasileira.

Não precisamos abraçar bolsominion. É totalmente legítimo que a esquerda, golpeada de todos os lados, esteja hoje recrudescida, ferida e com raiva daqueles que votaram em um projeto autoritário que massacra as minorias. Não é de ciranda e ‘paz e amor’ que estamos precisando. O desafio do futuro imediato é não deixar que esse sentimento de injustiça e indignação escorregue em ressentimento individual, mas que seja capaz de se transmutar em ação e projeto coletivo.

Segundo a antropóloga, a esquerda não deveria se preocupar em cancelar o seu adversário – embora a autora não defina o termo, admitimos aqui que tenha o mesmo significado de anular, encurralar o adversário. Isto é, a política da esquerda não deve a ser de enfrentar a direita, de dar o nome aos bois, de chamar de golpista quem é golpista, de chamar de fascista quem é fascista e de apontar as capitulações e traições. Seria preciso, portanto, a política do diálogo com a direita – que é, sempre, uma política de adaptação, pois considera os argumentos de um adversário que não tem argumentos, mas apenas a truculência.

Essa política, no entanto, nunca deu, nem dará certo. Foi essa política, por exemplo, que foi empreendida por Fernando Haddad e Manuela D’Ávila nas eleições de 2018. Mesmo apoiados por todo o movimento popular, ao invés de organizarem um enfrentamento contra a extrema-direita, ambos buscaram se apresentar, para a direita, como uma esquerda com convergências com a direita. Daí, viu-se o uso cada vez mais frequente das cores verde e amarelo, da adoção de políticas ultra-reacionárias, como a criminalização do aborto e a defesa da Lava Jato etc. O resultado? Os trabalhadores, que havia pouquíssimos meses fizeram um ato gigantesco pelo registro da candidatura de Lula, mostrando uma tendência à mobilização, ficaram cada vez menos mobilizados, resultando na vitória eleitoral de Jair Bolsonaro.

Política semelhante tem adotado o presidente deposto da Bolívia, Evo Morales, e seu partido, o Movimento ao Socialismo (MAS). Em vez de procurar organizar a reação às tentativas de golpe e ao próprio golpe, Morales segui se adaptando, falando em pacificação e convocando a Organização dos Estados Americanos (OEA) para interferir nas eleições bolivianas.

Adotar o programa da burguesia, portanto, não irá fazer com que a esquerda “conquiste os corações” da direita. Afinal de contas, se uma pessoa já é vinculada à direita, vota na direita e vê que o candidato da esquerda tem o mesmo programa, por que deixaria de votar como sempre votou? O papel da esquerda é apresentar uma saída concreta, real para os trabalhadores na atual etapa de crise, e não fazer demagogia. O papel da esquerda é explicar que, enquanto a burguesia existir, não haverá progresso na face da Terra.

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