Controle nas redes
Os monopólios de comunicação exercem estrito controle da informação nas redes de acordo com seus interesses, hoje contra a polarização, amanhã pode ser pelo fascismo

Por: Redação do Diário Causa Operária

Chegou à redação do Diário Causa Operária, enviada por usuário anônimo, um “print” de notificação recebida por ele na qual o Facebook avisava que apagou sua publicação, feita há quase 6 anos, pois violaria “os Padrões da Comunidade sobre organizações e indivíduos perigosos”.

A postagem era uma foto de Adolf Hitler, que havia sido revelada naquela época, em junho de 2015, na qual o líder nazista posava de quimono em sua visita ao Japão, seu aliado na II Guerra Mundial. Publicada em um grupo de esquerda, a postagem visava ridicularizar o “Führer” e os próprios nazistas. No entanto, os algoritmos (ou os funcionários?) do Facebook a consideraram como apologeta do nazismo.

A imagem que o Facebook excluiu data de anos atrás, mas está sendo censurada por uma orientação atual, retroativamente, o que é claramente uma violação. Se a orientação ou lei mudou ou foi criada tem que servir dali para frente e não se projetar sobre o que ocorreu antes. Naquele momento podia-se fazer chacota de Hitler e do nazismo, por algum motivo a empresa de Zuckerberg determinou que não se pode mais fazê-lo, sem explicá-lo, no entanto.

Tradicionalmente, isso seria obra dos algoritmos do Facebook, que bloqueiam palavras-chave, expressões ou imagens e vídeos que vão contra as suas diretrizes. Por isso podem ter considerado que, ao postar uma foto de Hitler, o usuário estivesse promovendo o nazismo. Mas como o algoritmo não tem a capacidade de interpretação que só o ser humano tem, ele terminou por removendo uma postagem que, em última instância, pode ser considerada antifascista. Assim, comprova-se que a utilização de algoritmos para regular o funcionamento da rede não é eficiente, tendo falhas das mais grotescas como esta. Logo, o instrumento não tem utilidade para regular o debate e, diante disso, deveria deixar de ser utilizado.

É possível, no entanto, que a obra tenha sido dos funcionários do Facebook. Sabe-se bem que mãos humanas também trabalham para monitorar e controlar o que passa pela rede social, e sua ordem também é impedir a “disseminação do ódio” ou combater a polarização política, os extremos. Nesse caso, o absurdo seria ainda maior, pois teria havido uma ação premeditada que, na prática, serviu para “passar o pano” aos nazistas, protegendo-os do ridículo.

Censura, censura, censura…

Ao censurar uma postagem crítica ao político fascista, simplesmente por que há uma foto de Hitler, o Facebook mostra claramente o elevado nível de controle da informação. Mesmo sendo o conteúdo da postagem satírico do fascismo, foi ainda sim censurado, mostrando que os algoritmos ou a mão humana tentam impedir qualquer discussão sobre o fascismo, mesmo que seja como se contrapor a ele. Os monopólios de comunicação procuram cada vez mais controlar a informação e o debate político, que é natural nas redes.

Aqui de maneira alguma se trata de uma política de combate ao fascismo, como muitos já ficaram tentados a pensar, mas tão e somente a manifestação dos interesses dos monopólios, para os quais o momento exige o combate à polarização, ou seja, o deslocamento das massas para a esquerda e de setores da classe média e outros para a extrema-direita. Promover a censura em nome do combate aos extremos, é disso que se trata.

Evidentemente que o alvo prioritário da censura no combate à polarização não é a extrema-direita, ao contrário, é a esquerda e os trabalhadores que será o maior alvo, uma vez que são os verdadeiros inimigos do sistema; censura-se algo absolutamente secundário como pretexto para censurar coisas que são realmente importantes. O canal bolsonarista Terça Livre, por exemplo, foi censurado pelo Youtube. do ponto de vista da importância social, esse canal é absolutamente nada, mas com essa medida abriu-se um caminho; toda a imprensa de esquerda nesta plataforma corre um risco (uma vez que a direita foi censurada), imprensa essa que hoje agrupa milhões de pessoas. Seria uma perda incalculável para a organização e luta dos trabalhadores o desmonte da imprensa progressista.

É preciso lembrar que, esta semana, o ministro Dias Toffoli, do STF, afirmou que as autoridades do judiciário e da Polícia Federal estão investigando “financiamento internacional” a grupos de “extrema-direita e de extrema-esquerda”. Isto é, Toffoli expressou claramente que não será só a direita a perseguida e reprimida, mas também, e principalmente, a esquerda. Seria fácil inventar um pretexto, da mesma forma que foi fácil censurar uma postagem.

No mesmo sentido assistimos recentemente um tribunal mandar prender um deputado, como se tratasse de um ser abjeto. O claro e afrontoso crime contra os direitos democráticos passou como medida democrática, aos olhos inclusive da esquerda. Mas o que está colocado objetivamente é que toda a representação popular está ameaçada com essa medida. Apoiar a destruição dos direitos democráticos e ganhar em troca a prisão de um pulha só pode alegrar os idiotas.

Liberdade de expressão

Assim é com o tema da liberdade de expressão, tão maltratado pela esquerda nacional que advoga a sabedoria dos tolos: liberdade de expressão não pode ser absoluta, como se pudesse haver um meio-termo entre a liberdade e a submissão.

A liberdade de expressão é um princípio democrático para qualquer sociedade que se pretenda minimamente civilizada e uma arma dos oprimidos contra os opressores, mas haverá sempre quem diga que pode existir pessoas que digam coisas más.

A liberdade de expressão, o direito de manifestar uma opinião, de criticar os poderosos, de expor abertamente uma posição contrária à hegemônica e não ser queimado vivo, preso, perseguido compensa e muito a irritação que coisas que se consideram ruins e que são ditas. Assim, independentemente do que se diga, a liberdade de expressão sem dúvida vale a pena.

A civilização humana evoluiu extraordinariamente com a conquista do direito à liberdade de expressão, por meio dela possibilitou-se que a ciência questionasse a fé abertamente, que o operário questionasse o sistema de exploração sem ser trancafiado pelo Estado, que o colonizado questionasse a colonização sem ser assassinado, que o esclarecimento pudesse vir à luz e se enfrentar com o obscurantismo, sem que uma fogueira fosse acesa.

As vantagens da liberdade de expressão são inúmeras para o desenvolvimento da civilização, os críticos da liberdade de expressão somente podem apresentar em seu favor os risos e o gozo ao ouvir os gemidos e os gritos dos que foram castigados por se manifestar.

As redes sociais têm de ser um espaço aberto para o livre debate e não um espaço cuja informação é criteriosamente organizada e selecionada de acordo com os interesses dos donos do mundo. Ademais se esses decidirem pelo fascismo, que não pode existir sem eles, transformarão as redes em grande espaço de propaganda fascista.

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