Zé Dirceu. Memórias volume I. Resenha Parte III

LULA/BIO

Na sua autobiografia, José Dirceu no Capitulo 25 A carta ao povo brasileiro. A convicção de que Lula venceria as eleições presidenciais de 2002, mesmo sem ela., como o próprio o título do capitulo indica, abordada as decisões e os lances da campanha presidencial, e o papel que teve a Carta ao povo brasileiro, um documento lançado pela candidatura Lula para os “mercados”. Como indica José Dirceu: “ plantou-se a ideia de uma carta de Lula, um compromisso escrito com a estabilidade.”

Dentro da coordenação da campanha, havia setores mais propensos para um pacto com os grandes grupos empresariais, “com contatos no setor empresarial e bancário, Palocci e Gushiken sentiam e sofriam mais essa pressão do chamado ‘mercado’”.

Naquele momento, apesar de não ser contra inteiramente o teor da carta aos brasileiros, José Dirceu adotou ressalvas à publicação da carta. Posteriormente, no interior do governo acontecerá o embate entre Palocci e José Dirceu em torno da política econômica do governo Lula, com Palocci representando a manutenção da “estabilidade”, ou seja da manutenção da política neoliberal de FHC.

De forma geral, José Dirceu considera exagerada a visão de que foi a Carta aos Brasileiros que determinou a vitória eleitoral em 2002, “sinceramente, até hoje não dou à carta a importância que muita gente atribui. Lula venceu com ela, mas venceria sem ela. Não houve nenhuma virada nas pesquisas de opinião por causa da mensagem e nem cessaram a especulação e as pressões dos mercados”.

Depois da vitória eleitoral de Lula, antes da posse em 2003, José Dirceu relatou sua viagem aos Estados Unidos, representando o governo Lula. O objetivo da viagem ao país imperialista era “quebrar a resistência dos conservadores”, que havia entre os empresários e no governo Bush um “desconhecimento sobre o PT”, que tinha uma imagem negativa, como se fosse um “bando de lunáticos “.

No Capitulo 26 A formação do novo governo, Jose Dirceu expõe a composição do governo Lula, as articulações para a montagem do ministério, e a organização da “base de apoio” no congresso nacional, encargo esse atribuído ao próprio José Dirceu, que cita uma frase dita por Duda Mendonça, o publicitário da campanha. “Agora é que começa, meu caro, a guerra de verdade” (p.337). Um papel importante de José Dirceu no primeiro ano do governo Lula foi a articulação no Congresso para as reformas, entre elas a  Reforma da Previdência.

Sobre as contradições do governo é destacado: “emblematicamente, Lula iniciaria o governo sob signo da Fome Zero e do combate à pobreza, do Bolsa Família e da valorização do salário mínimo, da prioridade para o social. Um contraponto à imagem do ajuste fiscal e monetário, aos contingenciamentos, juros altos, superávit e altos gastos com a dívida interna.”

Cap. 29 É guerra: os tucanos iniciam uma caminhada para desestabilizar o Governo Lula. O processo da luta do PSDB contra os fundamentos do governo Lula, e dos ataques diretos contra José Dirceu, começam já em 2004, com o caso Waldomiro Diniz , com as denúncias envolvendo a participação do bicheiro Carlos Cachoeira .

“Incapaz de dobrar o governo na luta política e junto ao povo, desesperada pela consolidação dos programas sociais, com a retomada do emprego e do crescimento em 2004, com a queda da inflação, com o desempenho de Lula no exterior, onde se tornava a cada dia mais popular e influente, e seu crescimento nas pesquisas, a oposição optou pelo denuncismo. Buscava uma bandeira, uma causa que lhe permitisse não vencer as eleições, mas pelo menos derrubar o governo.” (…) “ havia claros sinais de que a oposição e a mídia procuravam me estigmatizar, supervalorizando meu papel no governo, seja como vacina e pressão, seja para criar um clima contra mim” (p.400)

No Capitulo 32, O Mensalão. Explode uma crise que sinaliza o começo do fim, Dirceu desenvolve uma análise sobre os significado dos escândalos que levaram a sua saída do governo, cassação do mandato de deputado e posterior prisão. Uma questão chave foram os equívocos da direção do PT em relação aos intuitos da oposição burguesa, acreditou-se que estas aceitariam de bom grado o governo do PT.

“Havia e ainda há um erro estratégico de avaliação: a suposição de que a oposição – e não só a partidária  –  aceitava a vitória de lula em 2002 e respeitaria as regras democráticas e a alternância do poder. Pior: subestimáveis o uso pelos oposicionistas – PSDB à frente – do aparato policial e judicial, o que ocorria sobre o papel da mídia na formação do ‘clamor’, a opinião publicada – e não a opinião pública-, modelando a ‘pressão popular’”.

A imprensa golpista coloca em funcionamento as engrenagens de um amplo ataque contra o governo Lula, fomentando a narrativa do “ mensalão”.

“Tudo começou com uma reportagem da revista veja, com fitas gravadas, implicando um diretor dos Correios, Mauricio Marinho, aliado de Roberto Jefferson, presidente do PTB e por ele indicado para o posto. Marinho denunciou que pagava regularmente comissão pelo cargo e função a Roberto Marinho. (P.422) (…) “ quando a TV Globo mostrou a gravação ­­­– clandestina –de Marinho embolsando a propina, estava montada o cenário para mais uma tentativa de derrotar e, se possível, derrubar o governo. Hoje sabemos quem fica a gravação e a serviço de quem.”

A politica de ceder sem lutas diante dos ataques da direita, levou a um processo de capitulação diante da campanha demagógica contra a corrupção dos partidos burgueses e da imprensa capitalista. Neste sentido, o primeiro passo atrás do PT diante dos golpistas foi ceder posições e entregar sem esboçar nem mesmo uma tímida reação os principais dirigentes do PT. Desse modo, José Dirceu foi entregue as leões;

“Como era possível que companheiros e companheiras, de tantos anos no PT, simplesmente me abandonassem, sem mais nem menos? Na verdade, fui abandonado à própria sorte.  Não havia nenhuma proposta sobre meu futuro. Eu teria que me defender sozinho e contar, como sempre, com a solidariedade e apoio da militância, de parlamentares e dirigentes do PT, já que o governo e a direção do PT não conseguiram sequer se defender.” (P.428)

A campanha de assédio permanente contra José Dirceu caracterizava-se como uma insidiosa perseguição política, o objetivo era destruir completamente a reputação do acusado, realizando um pré-julgamento. “O que se viu foi um linchamento. Houve prejulgamento e praticamente novo banimento da vida política e de toda e qualquer atividade na Câmara, tal o assédio e a agressividade da imprensa.”

Incitados pela campanha contra a corrupção e pela crise interna no PT, setores oportunistas aproveitaram a ocasião para ganhar posições no aparelho do partido, entregando os companheiros denunciados e replicando no interior do PT a campanha da direita.

“Mais decepcionante era a situação interna do partido, sua absoluta incapacidade de reconstruir uma maioria e uma direção, com um gabinete de crise, para enfrenta-la e superá-la. Em lugar disso, a imediata e rápida decisão de se livrar dos acusados, culpá-los, expulsá-los. Em atitude oportunista e covarde – quase uma corrida–, vários grupos e tendências do PT passaram a se isentar mutuamente e a acusar a maioria do campo majoritário, pelos fatos; (…)Não havia uma linha de resistência, uma trincheira, um plano de luta, no governo e, muito menos, no PT. Era como se as denúncias fossem apenas, e tão somente, uma questão ética, de caixa dois, de financiamento de campanha, de exclusiva  e total responsabilidade de Delúbio Soares, Silvio Perreira e José Genuino e, na prática, minha, avalizando assim a acusação de Roberto Jefferson, (p.429)

No palco do congresso nacional, uma parte do PT “ ético” faz conscientemente o jogo da direita, por defensiva e covardia política. “O comportamento dos membros do PT na CPI era vergonhoso e totalmente defensivo, quase como linha auxiliar da oposição. Nesse interim, vinte e um deputados do PT se declaram desobrigados de seguirem a orientação partidária.” Entre eles Tarso Genro e os deputados que agora estão no PSOL como Ivan Valente e Chico Alencar, que cumpriram o papel de marionetes da direita, assinando inclusive a CPI montada pela direita dentro do congresso nacional, com objetivos nitidamente golpistas.

Em 1º de dezembro de 2005, José Dirceu foi cassado na Câmara de Deputados, e em 2012, a Ação Penal 470 leva a sua condenação sem provas, com base na teoria do “ domínio dos fatos”.

Não somente a luta pela liberdade de Lula, mas a mobilização contra a perseguição absurda que vem sofrendo José Dirceu é um aspecto fundamental em defesa dos direitos democráticos e contra os golpistas, que utilizam-se da imprensa comprada e do judiciário autoritário para impor ataques contra os direitos elementares do povo.