Zé Dirceu. Memórias volume I. Resenha Parte II

dirceu3-e1526697720778

Em medos dos anos 1970, a ditadura brasileira enfrentou seu maior desafio, as mobilizações populares e as greves operárias. No capitulo 13 . Nasce uma estrela !. o ex-guerrilheiro assina a ata de fundação do Partido dos Trabalhadores, José Dirceu descreve a sua aproximação com Lula e com outras lideranças sindicais e populares, que levará a fundação do PT em 1980.

“ a imagem que eu tinha de Lula remontava aos anos 1977 e 1978, quando ele surgiu com aquela voz roufenha, sua liderança e sagacidade, desafiando o governo militar e resistindo ás ameaças que, depois, se transformariam em repressão, intervenção e prisões no mais poderoso sindicato do país”

“ apesar das diferenças culturais e de classe, logo me identifiquei com Lula. O jeito espontâneo de se impor perante os interlocutores, sua sede de conhecimento, os sinais claros de uma inteligência rara e sua coragem ficaram na minha memória.”p.175

Novas lideranças sindicais surgiam no país inteiro, como Olívio Dutra, Luis Gushiken, Jacó Bittar, Luiz Dulci , entre outros. Esse processo liderado por Lula, representava um movimento de recomposição da classe trabalhadora, e diante da crise da ditadura militar colocava em relevo a importância de uma intervenção política dos trabalhadores. Como assinala José Dirceu, que apesar de divergências e posições diferentes neste movimento, “ o principal naquele momento era construir um partido dos trabalhadores”

A construção do PT e da CUT

O PT foi fundado em 10 de fevereiro de 1980, “ na constituição da sigla, uma coluna vertebral unindo os sindicalistas que detinham a legitimidade e a liderança, além de uma expressiva e majoritária base social operaria  e trabalhadora e as pastorais, comunidades de base e movimentos populares e as esquerdas independentes, provenientes da luta armada ou não, onde nos enquadramos. Era o que seria, no futuro, uma vasta aliança de artistas, intelectuais, advogados, jornalistas, médicos, que se uniram aos militantes da luta armada para forjar e construir, com base na força dos sindicalistas e das bases populares, a maioria do PT” p.176

O surgimento do PT expressou o choque do movimento operário e das massas populares com a estratégia de  “ transição lenta e segura”  estabelecida pela “Abertura” promovida pelos militares. As direções pelegas dos sindicatos, atreladas a política de contenção dos militares, mesmo participando do MDB( depois PMDB), como os sindicalistas do PCB e PCdoB foram ultrapassados pelo sindicalistas autênticos e pelas oposições combativas que enfrentaram os aparatos controlados pelos militares. Os movimentos sociais reivindicativos e populares que pipocavam no país inteiro, militantes socialistas de diversas organizações, entre os quais os egressos da luta armada e os grupos que se reivindicavam -se do trotskismo colocaram em marcha um movimento pela construção de um Partido dos Trabalhadores.

As definições sobre o caráter do PT, de que qual o papel do partido naquela conjuntura, da relação com o movimento sindical e como atuar nas eleições é apresentado por Dirceu :

“ que tipo de partido? Isso estava revolvido no manifesto, mas cada força política que o constituía interpretava o documento segundo sua visão e experiência. Um partido legal? De núcleos e diretórios? Com que programa de governo ou de poder? Ou era só uma plataforma de luta contra a ditadura, como se fosse uma frente? Era ou não para ser um partido?

E questões táticas nas eleições : “ como legalizar um partido dentro das leis ditatoriais? Como disputar eleições mesmo com as restrições impostas pelo governo? Como combinar a luta social com a politica  e a luta eleitoral ? vamos apresentar programas para governar de cidades e estados ou só para derrubar a ditadura? “

O balanço das eleições de 1982, a primeira depois da reformulação partidária de 1979, abriu intenso debate sobre as questões sobre o caráter do PT. O estabelecimento do voto vinculado, e a campanha pelo voto útil em torno do principal partido da oposição PMDB, criaram enormes obstáculos eleitorais, mas de qualquer forma, o PT conseguiu através de uma campanha política militante se estabelecer como um partido nacional, e a campanha de lula para governador de São Paulo cumpriu um papel importante.

No ano seguinte, a criação da CUT, por iniciativa do “ novo sindicalismo” evidenciava a envergadura do ascenso operário no país, com o desenvolvimento de um amplo movimento, com a proliferação de oposições sindicais, que ia conquistando os sindicatos, derrotando os pelegos tradicionais,  uma verdadeira avalanche política, que foi um formidável impulso para o crescimento e enraizamento  do PT na classe trabalhadora.

“ na chamada Nova República, havia novos atores na cena política. Além do PT, PDT,PSB,PCdoB, PCB, consolidava-se a Contag, irrompia o Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra( MST), além da CUT e da Central de Movimentos Populares (CMP)” A constituição da CUT ( 26 de agosto de 1983), uma central operária com grande capilaridade nacional será um dos pontos cruciais para o próprio desenvolvimento do PT. “ o partido não se resumia a um partido eleitoral” afirma José Dirceu.

O  manifesto dos 113 e o estrangulamento da democracia do PT

A evolução da crise da ditadura  combinada com o ascenso das massas impulsionou as tendências para a construção de um partido próprio dos trabalhadores. A construção da CUT e a retomada pela base do movimento sindical, com amplo crescimento dos movimentos sociais e populares colocou em relevo de forma concreta a construção de um amplo partido operário de massas no Brasil.

No capitulo 14 A estrela começa a brilhar. O manifesto 113 e o PT é um partido e não uma frente, José Dirceu aponta de maneira muito consciente que a questão chave para o desenvolvimento posterior do PT foram os embates no interior do próprio PT e na CUT. Esse processo, no qual José Dirceu teve um papel de destaque como formulador dos objetivos do “ campo majoritário” e como grande comandante do aparato partidário, a partir do controle do PT em São Paulo, utilizou a forte presença do PT nos movimentos sindicais e populares, com uma alavanca para o crescimento eleitoral e conquistas de posições na institucionalidade.

Evidentemente, que não poderíamos esperar que José Dirceu ressaltasse aspectos contraditórios da política da direção do PT durante os anos 80 e 90, mas na nossa resenha critica não podemos deixar assinalar que a  direção petista bloqueio de maneira calculada a participação das bases na vida interna e nas decisões do partido, sobre o pretexto de evitar que o PT fosse um “ partido do macacão” ( referência ao uniforme dos operários), e que não se podia ter um “ partido estreito”, procurava-se evitar  que o PT fosse um efetivo partido dos trabalhadores.

A burocracia sindical e os setores dirigentes do PT ao mesmo tempo que acompanhavam o desenvolvimento do movimento de massas, tinham um forte temor de perder o controle sobre o funcionamento do PT e da CUT. Dessa forma,  ao mesmo tempo que estes setores eram favorecidos pelo movimento de conjunto dos trabalhadores, representando esse movimento de maneira distorcida, sentiam-se  ameaçadas pelas possibilidades colocadas pelo desenvolvimento das lutas sindicais e populares. Assim,  um setor fundamental da burocracia sindical( lulista), grupos ligados a igreja e militantes políticos experientes formaram um bloco majoritário, que contou com a participação da corrente O Trabalho na constituição  da Articulação para dominar internamente o PT, e evitar na verdade o controle do PT pelas sua base social .

“ dessa situação surgiu o histórico Manifesto dos 113, a articulação dos 113 para se diferenciar dos partidos e organizações inseridas no PT. “ uma reação ao reunismo” organizar o PT ação politica,sindical e parlamento. “ a aliança dos sindicalistas, lideranças populares( na maioria católicas- e a esquerda independente. O ponto central foi a vitória da Articulação no Encontro Estadual de São Paulo, em 1983, com 73 % dos votos dos delegados, senda a verdadeira mudança foi a constituição da nova direção do PT, a partir de São Paulo.”

A direção majoritária do PT, a Articulação estabeleceu os paramentos do funcionamento do partido. De uma forma geral, a grande questão era que a Articulação defendia o PT, não como um partido efetivamente dos trabalhadores, mas baseado nos trabalhadores.

Do ponto de vista estratégico, apontava-se para a maior participação dos trabalhadores na “ democracia” e na política, sendo rejeitado a política de um partido revolucionário, apresentado como uma visão “ estreita”. A imprensa burguesa buscava enquadrar o partido, influenciando nesta definição, o estigma de “ xiita” e “ radical”.

No seu livro, José Dirceu apresenta as supostas  características “democráticas” do PT ressaltando a existência do debate interno, mas revela ao longo do texto sem nenhuma cerimônia, que a política não somente adotada, mas  que justificou a criação da Articulacao foi a necessidade de impor um limite ao “ democratismo”, pois segundo ele, o PT queria decidir tudo pelo método do “ reunismo”.

Era preciso dar um basta isso, e José Dirceu apresenta como dado fundamental o combate as  tendências internas da esquerda petista, pois na sua  visão era preciso combater o “ aparelhamento “ e o “vanguardismo” das tendências. “ as correntes mais esquerda do partido continuavam prisioneiras do vanguardismo” p.194

“ havia tempos, a atuação das tendências e partidos incomodavam as lideranças sindicais e populares, tanto pelo aparelhismo quanto pela dupla atuação “ (…) “os sindicalistas e os militantes populares – a imensa maioria dos filiados – não se organizavam e não tinham experiência partidária. Já as organizações procedentes da luta contra a ditadura ostentavam disciplina, centralismo, organização, jornais, finanças e votavam fechadas, disputando e vencendo as discussões e conquistando cargos, enquanto a maioria organizada ia perdendo, de fato, a direção do partido”

Enquanto os políticos carreiristas, e os setores mais oportunistas que iam entrando no PT, devido ao seu crescimento eleitoral e pelas inúmeras posições conquistas na institucionalidade “democrática” eram cortejados, os críticos, como os militantes da tendência trotskista Causa Operaria, precisavam ser silenciados e isolados, não porque eram irrelevantes e portanto podiam ser excluídos sem problemas, mas justamente pelo contrário, era preciso combater um perigo potencial.

Para  transformar o PT, adequando o partido para uma maior integração  ao Estado Burguês, o “ modo petista de governar” que se deu gradativamente com a eleição de parlamentares, e dos governos municipais e em alguns momentos de estados da federação ( DF, RS,ES,) era preciso direcionar o aparato partidário para essa finalidade.

Neste sentido, o estrangulamento da democracia interna, o esvaziamento das instâncias partidárias, o disciplinamento das tendências internas,( capitulação da esquerda como O Trabalho, Democracia Socialista, Força Socialista, etc), bem como a feroz perseguição política contra os militantes da tendência interna Causa Operária era uma questão chave neste processo preparação do PT para participar como sócio menor do regime burguês.

As correntes da esquerda no PT e na CUT não compreenderam o que estava em jogo, e abordavam a “ regulamentação de tendências” como algo positivo, sendo que nenhum grupo prestou uma solidariedade a tendência  Causa Operaria, pelo contrário,  até mesmo cumpriram um papel de capitães de mato da Articulação.  O resultado disso, jornal causa operária já antevia,  foi a posterior expulsão da convergência ( que criou o PSTU) e dos deputados que fundaram o PSOL, como consequência o aprofundamento da política de colaboração de classe imposta no PT pela sua direção.

È importante aproveitar essa resenha para assinalar que não era uma questão secundária o não reconhecimento da Causa Operária como tendência interna do PT, mas representou um aspecto decisivo para a posterior evolução do maior partido da esquerda brasileira.

Apesar de evitar uma referência direta a este processo, o texto de José Dirceu, é cristalino, evidenciando que a direção da Articulação agiu com extrema truculência, pois estava convicta que depois das eleições de 1988, quando o PT foi vitorioso  para governar a prefeitura de são Paulo e 1989, quando foi ao segundo turno nas eleições presidenciais, estava colocado uma maior participação do PT no regime político, e não se queria uma outra política revolucionaria ( chamada de vanguardista) dentro do PT.

A noção propalada pela Articulação de que militantes da Causa Operária tinha “ duas camisas” levou a criação de um total cerceamento da liberdade de crítica dentro PT, uma verdadeira caça as bruxas dentro do partido. O objetivo não era somente expulsar os militantes, que depois fundariam o PCO, mas transformar  qualquer oposição as determinações da direção majoritária em uma espécie de Lesa pátria. A crítica contundente era criminalizada e apontada como algo contrário ao partido. ( notem que continua sendo o método preferencial da esquerda hoje diante das criticas do PCO).

Esse método utilizada fartamente dentro do PT, um partido “ aberto” e “ democrático” era na verdade um método stalinista típico, que José Dirceu e a direção do PT utilizava para seus fins políticos. Curiosamente a chamada do I Congresso do PT, em 1991, quando o recurso da tendência Causa Operária contra a sua expulsão  foi rejeitado, com os votos ou abstenção da esquerda petista era ” Proibido Proibir”. Entretanto, os oportunistas e carreirista tinham toda a liberdade, não respeitavam as deliberações da base e submetiam o partido aos seus interesses particulares ( as suas diversas camisas).

Um aspecto importante, que permitiu a burocracia da Articulação conseguir o controle do partido, e vários políticos conseguiram seus mandatos, foi a a exploração  de um fabuloso  capital político,  a figura de Lula, como principal expoente e avalista da Articulação e depois do campo majoritário. Também sobre esse fato José Dirceu também demostra perspicácia “Para manter o pluralismo, a questão democrática dentro do partido, passa pelo controle do partido, através da “ liderança real, legitima, mas carregada de peso simbólico de Lula_ podia garantir a unidade de tal partido”.

Direitas já e a recusa do PT ao colégio eleitoral da ditadura

A figura de lula  não impediu profundas divergências sobre constituinte, participação no colégio eleitoral, – diretas já, entre outras questões nos anos 80. Movimento pela diretas já, no esgotamento do regime militar, que mesmo assim consegui impedir a vitória da emenda Dante de Oliveira no congresso nacional, na verdade os políticos burgueses, entre os governadores da oposição que participavam do movimento das Diretas já articulavam uma transição via colégio eleitoral, estabelecendo a instauração da transição pactuada, a Nova República., que marcara o regime político não somente durante o governo Sarney, mas durante todo período pós-ditadura militar.

“ As consequências do acordo que se originou a Aliança Democrática não seriam de curto prazo e nem se esgotariam no governo José Sarney. Chegariam à constituinte, levariam FHC ao governo e estariam ainda presentes na deposição da presidente Dilma Rousseff, em 2016” p.199

O período da Nova República proporcionou um isolamento do PT no terreno institucional, o partido recusou-se participar da eleição indireta no colégio eleitoral, o que levou a expulsão de três deputados (Airton Soares, Bete Mendes e José Eudes) que votaram em Tancredo Neves. Nas eleições de 1986, através de uma série de manipulações( destacando o Plano Cruzado), o principal partido governista, o PMDB elegeu a principal banca de parlamentares congresso e praticamente todos os governadores( exceto Sergipe).

Um fato curioso, relatado por José Dirceu, foi o episódio da hipoteca do PT da Bahia  para o PMDB. O interessante que quem fez esse comércio político para apoiar o então candidato Waldir Pires, em aliança com ex-carlistas como o vice latifundiário Nilo Coelho, que depois viria assumir o governo de Estado, quando Waldir renunciou para ser candidato a vice – presidente na Chapa de Ulisses Guimaraes, em 1989,  não foi a Articulação, mas a esquerda petista (Força Socialista), hoje uma parcela dos egressos dessa corrente são os “radicais puros” do PSOL. A direção nacional interviu desfazendo  o acordo, na ocasião José Dirceu chancelou a política de não integrar frentes eleitorais com PMDB e os partidos da “ transição conservadora”. Ele considera agora “ um erro” ( aspas do próprio autor) não ter apoiado Waldir.

O desenvolvimento da crise da Nova República, com ampliação dos movimentos grevistas e dos protestos populares levará ao crescimento nacional do PT, com a constituição de ampla de base de apoio popular. Neste sentido, um fator determinante para o  crescimento do PT foi justamente a recusa nas alianças com setores burgueses, pois significou que o partido pode canalizar a insatisfação popular, e depois inclusive ter ganhos eleitorais justamente por não ter feito “ alianças” com os partidos tradicionais.

A aliança com políticos burgueses não foi um fator decisivo para  conquistar apoio popular, pelo contrário, muitas vezes permitiam que políticos burgueses decadentes tivessem sobrevida às custas do PT, e especialmente de Lula. O papel dessas alianças  é muito mais para servir como  como uma espécie de garantia  política para a aceitação de um governo petista de Frente Popular pelas classes dominantes.

Em 1988, o PT consegui um resultado surpreendente, inclusive para o própria direção do PT, que não apostou na candidatura de Luiza Erundina, que acabou vencendo a eleição. Na ocasião, José Dirceu e a  direção da Articulação, apoiaram a pré-candidatura nas prévias do PT de elemento  ligado a Igreja católica, Plinio de Arruda Sampaio, que nos anos 2000, abandonou o PT para obter uma vaga como candidato a Presidência da República pelo PSOL.

Em 1989, em situação se refletiu nas eleições presidências, a primeira após o golpe de 1964. O desmoronamento da Nova República levou uma polarização política, e a burguesia como medida defensiva, realizou a operação Collor, com apoio da grande mídia, para impedir a vitória do PT. Após as eleições, José Dirceu relata a crise política no governo Collor, e finalmente o engajamento nas mobilizações pelo Fora Collor, e na posição do PT de não participar no governo Itamar, relatando o episódio da oportunista adesão de Luiza Erundina como ministra ao governo com os partidos burgueses.

Na terceira e última parte dessa resenha da autobiografia de José Dirceu será abordado o governo Lula.