Zé Dirceu. Memórias volume I. Resenha Parte I

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A autobiografia de José Dirceu de Oliveira e Silva, aborda temas , acontecimentos e personagens fundamentais no cenário político nacional, tratando em especial o desenrolar da política da esquerda, desde da resistência à ditadura militar no final dos anos 60 até a experiência do governo Lula no início do século XXI.

O texto memorial foi escrito pelo autor na prisão da Lava Jato, no Primeiro Capítulo Se não me falha memória. Por que resolvi colocar no papel as minhas vidas e a minha luta, informa José Dirceu que incentivado Simone, sua atual esposa e mãe da sua filha caçula Maria Antônia, resolveu contar sua história para seus filhos, e também como uma forma de resposta diante da colossal campanha de calunias que sofreu pela imprensa capitalista, desde do processo do mensalão no primeiro governo Lula. O livro, portanto, tem um valor em si como documento político contra os golpistas, mas representa mais que isso, o leitor é blindado com um texto bem articulado, bem escrito que permite uma leitura em fluxo continuo através não somente da descrição de acontecimentos, mas de valiosas apreciações políticas sobre personagens e conjunturas políticas, que em alguns casos Jose Dirceu participou desempenhando papel relevante.

José Dirceu, nasceu em 16 de março de 1946, em Passa Quatro, Minas Gerais, mas teve atuação política em São Paulo, chegando na capital paulista em 1961. Começa sua militância política muito cedo, como militante do movimento secundarista, atuando no principal partido de esquerda da época, o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em 1965, iniciou o curso de Direito na PUC de São Paulo, fez parte do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da PUC, em 1967, foi presidente da União Estadual dos Estudantes (UEE), sendo uma das principais lideranças estudantis nas mobilizações estudantis em 1968,junto com Luís Travassos, presidente da UNE, e Vladimir Palmeira.
No 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), realizado em Ibiúna, interior de São Paulo, José Dirceu, que era um dos candidatos a presidente da UNE, foi preso junto com mais 600 participantes do encontro pelas forças repressivas. No seu livro, José Dirceu descreve as divergências políticas e a crise do PCB após o golpe de 1964, sua participação no movimento estudantil e sua adesão a resistência clandestina .“ No turbilhão em que se transformou o Brasil na segunda metade da década de 1960, vivi no olho do furacão: Movimento Estudantil, PCB, dissidência do PCB e, mais tarde, a luta armada.” P. 56.

Ao apresentar o fio histórico do seu percurso, José Dirceu apresenta os dilemas colocados pelo fechamento do espaço político provocado pelo golpe de 1964 e pelo endurecimento com AI-5 em 1968. Uma questão que é abordada nas suas memórias é sobre o significado político da decisão não somente do próprio Jose Dirceu e da sua jovem geração em aderir a luta armada e a clandestinidade, mas inclusive de quadros experientes do PCB , como Mario Alves, Jacob Gorender , Jover Telles, Joaquim Câmara Ferreira e Carlos Marighella. No descrição do processo de formação dos agrupamentos políticos que participaram da luta armada, José Dirceu faz uma critica sobre a avaliação da correlação de força, que embasaram a decisão do enfrentamento armado, indicando que “ sobrava decisão política e faltava uma leitura correta da realidade do momento”.

A esse respeito é importante assinalar que na avaliação do período e da sua própria trajetória, José Dirceu não abjura o seu passado, mas procura entender o processo no seu conjunto, indicando que um aspecto marcante era que “ a resistência era um imperativo moral e política. Os meios: a luta de massas e a resistência armada”. Além disso, José Dirceu pretende demostrar que a derrota dos grupos armados foi produto do isolamento imposto pelos militares e “ virou uma luta militarista e deslocada da realidade política, até mesmo pela dinâmica de sobrevivência dos grupos armados” p.61

Isso não quer dizer, que Jose Dirceu comungue com a crítica simplista de que os aderentes eram apenas movidos pela paixão e não tem nenhum contato com a realidade. Neste sentido, havia ao ser ver que uma “ percepção correta do caráter e natureza do golpe”,:

“Para nós, da dissidência do PCB, 1964 não fora uma quartelada cívico-militar que logo convocaria eleições e entregaria o poder ao vencedor, fosse Lacerda ou Juscelino. Percebemos que estávamos diante de uma contrarrevolucionaria autoritária.” P. 61

Em 1969, Jose Dirceu foi um dos 15 presos políticos trocados pelo embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick no episódio do sequestro organizados pelo consórcio das organizações ANL e MR8. No exílio, morou em Cuba, faz treinamento guerrilheiro e participa da luta clandestina no Brasil por um breve período, regressa a Cuba, e finalmente restabelece-se no Brasil, após uma cirurgia plástica, vivendo com outra identidade em Cruzeiro do Oeste, no interior do Paraná entre 1975 e 1979, quando beneficiado pela Lei da Anistia retorna as atividades públicas. O livro Zé Dirceu, memórias Volume I tem interessante discussão sobre a formação do PT, a luta interna dentro do PT nos anos 80 e 90, o crescimento eleitoral do partido até a vitória nas eleições presidências de 2002, com a constituição do governo Lula, e a posterior queda de Jóse Dirceu com as acusações do “ mensalão”. Este será tema da segunda parte da resenha critica dessa coluna.

DIRCEU, José. Zé Dirceu. Memórias Volume I. São Paulo: Editora Geração, 2018.