O pregador do blues
Willie Dixon foi um dos maiores compositores do blues. Suas músicas foram gravadas pelos maiores nomes do gênero como Muddy Waters, Bo Diddley, Howlin’ Wolf e Buddy Guy.
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Willie Dixon | Foto: Reprodução

Para um ouvinte ocasional do blues o nome de Willie Dixon pode não parece estar no mesmo nível de nomes como Howlin’ Wolf, Bo Diddley, Muddy Waters ou Buddy Guy. No entanto Willie Dixon foi um dos maiores compositores do blues em sua época, tendo escrito sozinho ou com outros parceiros mais de 500 músicas, sendo que muitas delas se tornaram clássicos como “Hoochie Coochie Man” (quase a música tema de Muddy Waters), “Little Red Rooster” (gravada por Howlin’ Wolf), “I Just Want To Make Love To You”, “Pretty Thing”, “You Can’t Judge A Book By The Cover” (Bo Diddley) e “I Can’t Quit You Baby”.

Dixon foi também um artista solo, tendo lançado inúmeros LPs, vários em parceria com outros cantores como Memphis Slim e Pete Seeger.

A influencia de Dixon é sentida até hoje, especialmente por ter sido regravado por inúmeros grupos de rock, começando pelos Rolling Stones, que gravaram “Little Red Rooster” e “I Just Want To Make Love To You”, passando pelo Led Zeppelin (que gravaram “You Shook Me”, “Bring It On Home” e “I Can’t Quit You Baby”) e The Doors (“Back Door Man”), alem de Bruce Springsteen, Tom Petty, Humble Pie, B.B. King, Kinks, Yardbirds, Chuck Berry, Eric Burdon e muitos mais. A gravação dos Rolling Stones de “Little Red Rooster” foi a primeira e única vez que uma canção blues chegou ao topo da parada britânica. Foi a realização de um sonho do guitarrista Brian Jones, o de levar o blues para o grande público jovem branco britânico.

Desse modo Willie Dixon se tornou um dos principais arquitetos do que ficou conhecido como “Chicago Blues”, uma escola do blues que veio em linhagem direta do Delta Blues mas tocado em um estilo urbano. O Delta Blues foi a origem do blues, originário do delta do rio Mississippi, cena em que surgiram nomes como Robert Johnson, Son House e Lead Belly.

O começo da carreira

William James Dixon nasceu em 1º de julho de 1915 em Vicksburg, Mississippi. Cresceu em uma família numerosa e muito pobre, como muitos dos negros nos estados do sul dos Estados Unidos no início do século XX. O racismo era também algo inescapável naquela situação. Dixon conta que uma vez presenciou a Ku Klux Klan marchando em frente à sua casa arrastando um homem negro. Ele também conheceu um xerife local que estuprou uma jovem negra e ficou impune.

A sorte de Willie e um fator que moldou seu futuro é que a sua mãe tinha uma educação acima da maioria do negros. Através dela Dixon se interessou pelas palavras e pela poesia, estimulando seu gosto por criar rimas e jogos de palavras. O pai de Willie morreu quando ele tinha 13 anos, um homem conhecido pelo seu gosto por armas, que tinha usado para atirar em brancos.

Em 1929 Dixon, então um jovem rebelde, foi preso por vagabundagem e mandado para uma fazenda-prisão, a Harvey Allen County Farm, onde a violência contra os negros era algo constante. Nesta prisão Dixon foi cruelmente chicoteado na cabeça, o que afetou sua audição por quase quatro anos. Lá ele presenciou ainda um outro homem que foi espancado até a morte. Segundo ele esta estada na prisão destruiu qualquer vestígio de respeito que ele ainda poderia ter no estilo de vida americano para as pessoas de cor.

Fora da prisão e em direção a Chicago

Em 1936 deixou sua cidade em direção a Chicago. Era um homem grande, com mais de 1,80 metros e mais de 100 quilos. Pela sua constituição física decidiu se tornar um boxeador. Chegou a ganhar competições amadoras e quando se tornou profissional chegou a ser sparring do campeão Joe Louis. Deixou de lutar após quatro lutas profissionais porque sentiu que foi roubado pelo seu empresário. Willie, ao longo de sua vida, passou constantemente pela experiência de se sentir roubado.

Entre 1938 e 1939 formou seus primeiros grupos e fez suas primeiras gravações. Dixon formou o grupo Five Breezes com seu amigo, o cantor Leonard “Baby Doo” Caston, que construiu para ele o seu primeiro baixo caseiro, feito com um lata e uma corda. Alem do baixo aprendeu também a tocar o violão.

O progresso de Willie na música foi interrompido pelo advento da Segunda Guerra Mundial. Ele recebeu a notificação para se alistar no exército, mas ignorou o aviso. Um dia as autoridades chegaram para prender Dixon que estava se apresentando em um clube com o seu grupo Five Breezes. Ele passou dez meses na prisão. Dixon se recusou conscientemente a servir o exército. Ele alegou que não lutaria numa guerra por um país com uma política doméstica de racismo institucionalizado e que tinha uma política de genocídio contra o povo negro.

Big Three Trio e a gravadora Chess

Após ser libertado da prisão Dixon formou o grupo Four Jumps Of Jive. Teve uma vida curta, mas gravaram quatro músicas, incluindo uma composição de Dixon, “Boo Boo Fine Jelly”. Em seguida formou o Big Three Trio, que se tornou bastante popular, lançando 22 discos 78 rotações entre 1947 e 1953 em vários estilos como country and western, baladas e pop romântico, alem do blues. Este foi um período importante para Dixon, que se transformou em um excelente músico, alem de ter refinado seu talento natural de composição.

Em 1953 Willie foi contratado pela gravadora Chess como um artista. Mas no ano seguinte foi promovido a também compositor e produzir após o sucesso de Hoochie Coochie Man”, que ele escreveu para Muddy Waters. Muitos artistas da Chess gravaram composições de Dixon, como Little Walter, Howlin’ Wolf, Lowell Fulson, Jimmy Witherspoon e Bo Diddley.

“Hoochie Coochie Man” foi gravada em 7 de janeiro de 1954. Deu muito trabalho para Willie conseguir convencer Muddy Waters que aquela música era perfeita para ele. Waters achava que a música era muito simples, mas no final das contas ele acabara de ser apresentada à canção mais famosa de sua carreira.

Em 1956 Willie Dixon se transferiu para outra gravadora, a Cobra Records, também localizada em Chicago. Saiu sob acusações de ter sido pouco recompensado pelo seu trabalho.

Willie Dixon tinha razões para acreditar estar sendo roubado. Muitos artistas negros nunca foram reconhecidos pelas suas contribuições. O caso mais flagrante é o do Led Zeppelin, que gravou “Bring It On Home” e “Whole Lotta Love”, sem dar crédito a Dixon. Nos anos 80 Dixon precisou processar a banda para finalmente ter seus direitos reconhecidos.

Continuou trabalhando ao longo dos anos 60 e 70, diminuindo suas atividades nos anos 80 por conta de seu problema de diabetes, que eventualmente acabou piorando e acabou tendo de amputar uma de suas pernas. Ele faleceu em Burbank, California em 29 de janeiro de 1992 aos 77 anos de idade.

Algumas considerações finais

Em 1968 Willie contribuiu para o Movimento dos Direitos Civis. Ele esteve em um show em Washington para o Poor People’s March (no Brasil conhecido como “Campanha dos Pobres”), liderado por Martin Luther King, tocando ao lado de artistas como Muddy Waters, Little Walter e Otis Spann.

Enquanto Dixon admirava a combatividade de Martin Luther King era também um crítico da efetividade da não-violência, insistindo que o uso da força na autodefesa era um direito legítimo.

Willie Dixon entendia que o blues expressava a “vida, aqui e agora” e sua filosofia existencial – “a experiência que você recebe da vida é a única coisa que você tem porque ninguém teve a experiência do céu”, ou seja, uma compreensão materialista.

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