Volta de doenças como a febre amarela é sintoma da crise terminal do capitalismo

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O Brasil confirmou 1.127 casos e 331 óbitos no período de 1º julho de 2017 a 10 de abril deste ano. Os estados do Rio de Janeiro, Bahia e São Paulo estão com a cobertura abaixo da meta

O Ministério da Saúde reforça a importância da população procurar os postos de vacinação nas novas áreas de risco de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. De acordo com o boletim epidemiológico publicado nesta quarta-feira (11), que traz as informações enviadas pelos gestores locais os três estados ainda estão com a cobertura bem abaixo da meta, que é 95%. A cobertura da campanha em curso no Rio de Janeiro está com 40,9%, a Bahia está com 55% e São Paulo com 52,4% da população-alvo vacinada. A vacina está disponível nos postos de saúde. O período de alta da doença segue até maio. Ao todo, a campanha nesses estados busca imunizar 23,8 milhões de pessoas.

Os dados referem-se às 77 cidades que fizeram parte da campanha com estratégia de fracionamento e a ampliação para mais 52 municípios de São Paulo. Esses municípios devem continuar vacinando a população com a dose fracionada, que garante a mesma proteção da dose padrão, e ampliar a cobertura vacinal para prevenir novos casos da febre amarela no país.

Como a vacinação continua sendo ferramenta mais importante para prevenir surgimento de casos no próximo verão, todo o território brasileiro será área de recomendação para vacinação contra a febre amarela. A ampliação foi anunciada pelo Ministério da Saúde em março deste ano. Será feita de forma gradual e concluída até abril de 2019. A medida é preventiva e tem como objetivo antecipar a proteção contra a doença para toda população, em caso de um aumento na área de circulação do vírus. Atualmente, alguns estados do Nordeste e parte do Sul e Sudeste não fazem parte das áreas de recomendação de vacina.

O QUE É A FEBRE AMARELA

A febre amarela é uma doença viral aguda e hemorrágica transmitida por mosquitos infectados. O vírus é endêmico nas zonas tropicais da África e da América Latina.

Uma vez que contraíram o vírus e passado o período de incubação de 3 a 6 dias, a infecção pode se desdobrar em uma ou duas fases. A primeira, aguda, geralmente provoca febre, dor mialgias grave costas, dores de cabeça, calafrios, perda de apetite e náuseas ou vômitos. Depois, a maioria dos pacientes melhora e os sintomas desaparecem em 3 ou 4 dias. No entanto, 15% dos pacientes entram 24 horas após a remissão inicial em uma segunda fase, mais tóxica. Retornos de febre alta e diferentes sistemas orgânicos são afetados. Metade dos doentes que entram na fase tóxica morrem dentro de 10 a 14 dias, e outros recuperar sem danos significativos nos órgãos.

TRATAMENTO

Não há tratamento curativo para a febre amarela. A vacinação é a medida preventiva mais importante contra a febre amarela. A vacina é segura, acessível, muito eficaz e uma dose única é suficiente para conferir imunidade e proteção à vida, sem a necessidade de uma dose de reforço.

QUANTO CUSTA A VACINA CONTRA A FEBRE AMARELA?

O valor de todas as vacinas e medicamentos vendidos no Brasil é tabelado pela CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos). Este é um órgão ligado à Anvisa que define os valores que as indústrias farmacêuticas podem cobrar pelos seus produtos na venda para farmácias, hospitais e distribuidores.

De acordo com a tabela, a indústria pode vender a vacina por R$ 51,67 mais o ICMS, que varia de um Estado para outro.

O valor chega bem mais alto ao consumidor. Nas clínicas de São Paulo o preço varia entre R$ 200 e R$ 250. Quem pode pagar em dinheiro consegue negociar algum desconto. Isso acontece porque cada clínica pode colocar em cima os gastos que tem com serviço e manutenção das doses. Essa cobrança extra é permitida, desde que os custos estejam discriminados na nota fiscal.

O abastecimento de vacinas contra a febre amarela é escasso e os estoques já estão no limite. As indústrias que fabricam a vacina não veem uma boa via para obtenção de lucro, uma vez que a produção exige equipamentos modernos e um complexo processo de de produção e o lucro obtido é baixo.

Essa é a cruel faceta do capitalismo e da medicina capitalista, que transforma um direito básico em mercadoria: os capitalistas da saúde escolhem o que produzir baseado nos lucros que podem retirar e vendem vacinas de acordo com a procura. Enquanto a população está vulnerável à febre amarela, os tubarões da saúde avançam e lucram com a miséria, falta de assistência e saúde de qualidade que aflige principalmente a classe trabalhadora e populações pobres.

NEGÓCIO DA SAÚDE – ‘COMPLEXO MÉDICO INDUSTRIAL FINANCEIRO DA SAÚDE’

É errado pensar que o capitalismo neoliberal tem como característica central a ausência de participação do Estado na economia. Oscar Feo, da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Carabobo na Venezuela, explica como isso se dá particularmente na área da saúde.

Ele nos informa, que nos últimos 30 anos a saúde entrou nos circuitos de acumulação e produção do capital, se convertendo em espaço fundamental da economia. Segundo ele, um dos atores fundamentais das políticas de saúde hoje é o chamado ‘Complexo Médico Industrial Financeiro da Saúde’, compostos por grandes corporações privadas com ações nas bolsas de valores, que produzem vacinas, insumos, medicamentos e equipamentos, mas também vendem seguros, planos de saúde e serviços. “Isso marca a contradição fundamental que há hoje no mundo. Para nós, a saúde é um direito social humano fundamental que deve ser garantido pelo Estado, mas para o capital é fundamentalmente mercadoria que se compra e vende, cabendo ao Estado intervir só para facilitá-la aos mais pobres”, afirmou.

Oscar abordou o impacto desse Complexo nos sistemas de saúde. Segundo ele, o grande negócio da saúde é, paradoxalmente, a doença. “Adoecer pessoas sadias, inventar doenças, cronificá-las, vender medicamentos, planos e seguros de saúde. Henry Gadsden, ex-diretor da Merck, disse há 30 anos que seu sonho era vender medicamentos às pessoas sadias. Com esse conceito, a indústria expandiu inventando enfermidades, convertendo médicos em prescritores e pessoas sadias em consumidores”, disse.

Em defesa da visão da Medicina Social e da Saúde Coletiva, Oscar crê na defesa dos sistemas públicos, universais, únicos e integrados. Contudo, alerta que muitos desses conceitos foram cooptados e, hoje, são usados ao sabor dos interesses do capital, se transformando em cavalos de Tróia. “Temos que ter muito cuidado. No marco de uma grande disputa pelo discurso, termos como direito, determinação, participação, universal, foram apropriados pela direita. As políticas neoliberais se camuflam e acabam privatizando em nome da universalidade. No mundo globalizado, quem decide a saúde? Em países como México, Peru e Colômbia, o Complexo entra pela porta da frente. Já na Bolívia, Venezuela e Brasil, essas ideias entram pelas janelas, se colam e terminam impondo-se, apesar da Constituição”.

REFERÊNCIA PARA ATUALIZAÇÃO SOBRE A FEBRE AMARELA

Um guia para profissionais da saúde e quem mais se interessar pode ser encontrado em https://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2018/janeiro/18/Guia-febre-amarela-2018.pdf com todas as informações necessárias sobre o assunto.