Vive la diversité: Macron, lucro total

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A vitória da seleção francesa na Copa do Mundo da Rússia, cuidadosamente armada junto à imprensa e à arbitragem, é uma espécie de panaceia para o imperialismo e mais especificamente para o governo direitista de Emmanuel Macron na França. Além de constituir um evidente triunfo político e econômico, a conquista serve para ocultar o racismo que volta a grassar no velho mundo.

Com a crise global iniciada na década de 1970, os países centrais do imperialismo – como a França – se tornaram os destinos preferidos sobretudo daqueles nascidos em suas colônias que haviam se tornado independentes no pós-guerra. Talvez ainda com mais intensidade que no restante do mundo, essas metrópoles se tornaram palco de aguda polarização política, com um significativo ascenso do racismo e da segregação religiosa – sobretudo contra muçulmanos e judeus.

Por um lado, setores conservadores vêm cada vez mais alavancando partidos de extrema direita, como a nazista Frente Nacional de Marine Le Pen, que ficou em segundo lugar nas duas últimas eleições. Por outro lado, é crescente o descontentamento das camadas mais pobres da população, compostas sobretudo por imigrantes negros, árabes ou seus descendentes, materializado por exemplo nas constantes manifestações de rua contra o racismo e contra as reformas propostas pelo governo de Macron.

A popularidade do presidente direitista francês Emmanuel Macron vem despencando com sua permanência no poder, chegando a apenas 40%. Seu infortúnio se deve sobretudo às política anti-povo que vem aplicando. Contra os trabalhadores em geral, Macron decretou uma reforma trabalhista ainda no primeiro ano de mandato. Em fevereiro, apresentou um projeto de lei endurecendo a política migratória.

Frente a todos esses revezes, a vitória da seleção francesa de futebol no Mundial da Rússia é bastante conveniente para Macron.

Evidentemente, o principal propósito é econômico. Conforme estampado no site da Radio França Internacional (RFI), o Sucesso da França na Copa turbina a economia do futebol francês: a Federação Francesa de Futebol, por exemplo, tem um orçamento de 250 milhões de Euros, recebendo quase 33 milhões da Fifa com a vitória. Somados, os passes dos jogadores da seleção somam mais de um bilhão de Euros. Há ainda toda uma cadeia de produtos esportivos que tem a venda alavancada em toda a Europa com a vitória da França. Por fim, com a maior popularidade do esporte no país, a TV e demais meios de comunicação imperialistas – detentores dos direitos de transmissão dos jogos e da maioria das imagens – aumentarão consideravelmente seu faturamento.

Macron tratou de associar a sua imagem à vitória dos Bleus (os Azuis, como é conhecida a seleção). Presente na partida final em Moscou, o presidente desceu ao campo na chuva para abraçar os jogadores e invadiu o vestiário para beijar a taça. O excesso na Rússia foi tal que a RFI, por exemplo, encarregou-se de botar os devidos panos quentes, assegurando que Macron se controlou e não instrumentalizou politicamente a vitória da França. Como se vê, ocorre justamente o contrário.

Dos 23 jogadores da seleção francesa, 18 são descendentes de imigrantes: Umtiti, Varane, Hernandez, Kanté, Matuidi, Pogba, Griezmann, Mbappé, Tolisso, Nzonzi, Fekir, Dembélé, Kimpembe, Sidibé, Mendy, Lemar, Mananda, Rami, Areola. A grande estrela do time, Kylian Mbappé , filho de pai camaronês e mãe argelina, nasceu em Bondy, uma região na periferia de Paris brutalmente reprimida pela polícia e achacada pela pobreza e pelo desemprego, palco de violentos protestos populares em 2005. Também da periferia da capital são Pogba, Kanté, Mendy, Matuidi, Areola, Kimpembe, e Nzonzi.

Com essa escalação, o oportunista Macron tratou de lançar a campanha publicitária da seleção miscigenada, que supostamente refletiria a tolerância do país com os imigrantes, com os negros, com os muçulmanos. No Brasil, a direita e até mesmo setores da esquerda apressaram-se em aplaudir o exemplo dos Bleus: Viva a diversidade!

Nada mais longe da realidade.

Como no Brasil, os jogadores de futebol franceses mais talentosos são mestiços, pobres, e viram no esporte uma possibilidade de redenção de seu futuro miserável. Sua presença na seleção não significa em absoluto que a França de Marine Le Pen ou de Emmanuel Macron tenha uma política menos racista que outros países centrais do imperialismo.

A população francesa sabe disso, e as massivas comemorações do triunfo francês ensejaram conflitos em diversos lugares. O mais significativo foi o saque de um shopping na avenida dos Champs-Elysées tomada por uma multidão de quase 100 mil pessoas. Seguiu-se, como sempre nas periferias, uma brutal repressão policial que resultou em dois mortos e centenas de feridos.

Assim como o futebol é uma possibilidade de redenção social para muitos poucos jogadores, os movimentos de massas expressam a revolta dessa imensa camada da população francesa cujos países de origem enriqueceram a Europa em séculos de cruel colonização, cuja família foi e é perseguida como imigrantes ilegais, cujos membros, enfim, conformam a seleção que venceu a Copa do Mundo de futebol.