Visitada por Bolsonaro, chefe da CIA já dirigiu centro de tortura
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Visitada por Bolsonaro, chefe da CIA já dirigiu centro de tortura
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Segunda-feira, 18 de março de 2019. O presidente da República Jair Bolsonaro e seus filhos são recebidos por uma servidora pública com quase 35 anos de carreira. Pouco se sabe da visita, a não ser pelos elogios rasgados do líder fascista brasileiro ao órgão em que ela trabalha.

O militante palestino Abu Zubaydah foi prisioneiro num cárcere clandestino na Tailândia da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) conhecido por Olho-de-Gato em 2002. O Centro de Contraterrorismo da Agência (CTC) sustentava que ele escondia informações importantes sobre a organização Al Qaeda – responsável pelo então recente atentado às Torres Gêmeas em Nova York. Por mais de 80 vezes, Zubaydah foi amarrado a uma tábua, inclinado com a cabeça para baixo e afogado com água até ter covulsões, vômitos e desmaios. Essa técnica de tortura, conhecida por Afogamento Simulado é apenas uma das muitas usadas pela CIA em sessões de tortura em suas prisões militares como a de Guantánamo, as quais incluem privação de sono e injeções retais, entre outras. A tortura de Zubaydah e de diversos outros prisioneiros na Tailândia, porém, foi coordenada pela agente Gina Haspel, conhecida tanto por sua dedicação ao trabalho por sua frieza e austeridade entre os colegas.

Natural do estado interiorano do Kentucky, filha de um militar da Aeronáutica, Gina Haspel, hoje com 62 anos, ingressou na CIA em 1985, tendo trabalhado na chefia de missões pelo menos na Etiópia, Turquia e Azerbaijão. Em 2002, foi nomeada para coordenar o Olho-de-Gato na Tailândia. À época, a Administração de George W. Bush empregava amplamente a tortura, alegando que “se é feito pelo governo americano, não é tortura, já que o governo americano não tortura”. A partir de 2014, após inúmeras denúncias, inúmeros processos criminais foram abertos contra a CIA pelo Centro Europeu dos Direitos Constitucionais e Humanos. Nas investigações, concluiu-se que Haspel destruíra quase uma centena de fitas de vídeo contendo as sessões de tortura realizadas sob sua direção.

Em 2017, logo após a sua posse, Donald Trump indicou Haspel como vice-diretora da CIA. Um ano depois o presidente a nomearia diretora da Agência, mesmo sob uma chuva de críticas de ativistas de direitos humanos. Como sempre, Haspel garantiu na sabatina do Senado que não apoiava o uso de “técnicas estendidas de interrogatório” – ou tortura. Ela se tornaria a primeira mulher à frente da CIA, e sua sétima diretora desde sua criação, em 1947. Como outras máquinas do aparato burocrático estatal norte-americano, a CIA age a serviço do imperialismo independentemente dos governantes na Casa Branca. Espionam ilegalmente, manipulam, perseguem, prendem, torturam, chantageiam e matam indiscriminadamente em todo o mundo. Promoveram dezenas, centenas de golpes de Estado em diversos países, inclusive os golpes de 1964 e de 2016 no Brasil, treinando as forças de repressão locais para agir com igual crueldade.

Pela primeira vez em nossa história, porém, um dos prepostos do Imperialismo no Brasil quebra o protocolo e assume sua relação direta com a CIA. Na segunda (18), Jair Bolsonaro anunciou publicamente, em meio a elogios, uma visita oficial ao escritório de Gina Haspel. Trata-se não apenas a confirmação de envolvimento da Agência no golpe de Estado em curso no Brasil, como também a demonstração de uma natural afinidade na tortura entre o histriônico fascista brasileiro e os frios carrascos anglo-saxões. A história não se repete, mas todos os indícios revelam uma forte pressão do Imperialismo para fazer novamente no Brasil aquilo que faz há mais de um século: arrasar países, subjugar e dizimar populações, expropriar seu patrimônio, destruir seu Estado, perseguir, prender, torturar e matar suas lideranças políticas.

À medida em que o fascismo no Brasil se torna fascismo de Estado, com a ascensão de Bolsonaro, aprofundam-se o arbítrio das autoridades e a repressão indiscriminada. A classe trabalhadora não pode, por isso, depositar qualquer esperança de superação do golpe no Brasil por meios institucionais. Isso será possível somente com a organização da autodefesa da população, a mobilização dos trabalhadores contra a repressão – hoje centralizada em torno da campanha pela libertação de Luiz Inácio Lula da Silva – e a deposição imediata de Bolsonaro e de todos os golpistas dos cargos que usurparam.