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Desde o impeachment de Dilma Rousseff e a tomada do poder pelo bloco golpista a serviço do imperialismo, chegou-se a um ponto em que não seria mais possível restabelecer os direitos da população, os serviços sociais, a soberania nacional, sem operar uma efetiva organização da classe trabalhadora capaz de realmente pressionar a burguesia a retroceder. Todas as negociações no plano institucional – as disputas jurídicas, as concessões administrativas etc. – passaram a ocorrer em terreno completamente dominado pelos golpistas. O processo eleitoral não é exceção, e pregar que será possível conquistar terreno nesse campo é uma utopia oportunista: uma troca de cargos por ilusões capazes de desmobilizar.

Natureza concreta da disputa política

Toda disputa política é real. Ela não é simplesmente uma ideia – ou um “sonho”. Por ser coletiva, a política só existe quando colocada em prática. As forças políticas das classe sociais fundamentais são, por um lado, o poder econômico e estatal da burguesia – o controle dos meios de produção e do aparato repressivo do estado –, e por outro lado, a organização e mobilização do proletariado.

Se entendemos a esquerda como a expressão política do proletariado, ela deve forçosamente basear-se na organização e na mobilização da população. O imperialismo encontrou solo fértil para avançar ferozmente sobre o povo brasileiro com o golpe de estado por termos um movimento operário em franco refluxo. No atual cenário, embora o governo Temer seja fraco e tenha perdido completamente sua autoridade política, a burguesia segue com o mando de campo e ampla vantagem na correlação de forças. Somente por meio da mobilização e da organização – materializada por exemplo nos Comitês de Luta contra o Golpe – a classe trabalhadora poderá voltar a ganhar terreno na disputa por poder.
Essas são as forças reais que se confrontam.

Idealismo pequeno-burguês

No entanto, a parte da esquerda brasileira parece viver no mundo das ideias, do sonho, trocando a ação presente pela expectativa de um futuro idílico, calcado em abstrações. Tal vício idealista, por um lado, vem conduzindo ao esquerdismo típico de setores que se dizem radicais – como o PSTU e o PSOL – como, por outro lado, vem levando à franca capitulação oportunista à direita – caso de setores do PCdoB e do PT. Uns na crença de que suas pequenas e sectárias centrais sindicais liderarão uma revolução, outros afirmando categoricamente que não há como organizar os trabalhadores em movimentos de massa consequentes, e priorizando as negociações de gabinete.

Apesar das pressões da direita nas cúpulas, a população quer se mobilizar. Prova disso foi o ato do registro da candidatura de Lula em Brasília. Alguns quadros dirigentes chegaram a boicotá-lo, cancelando diversos ônibus às vésperas da data. Mesmo assim, uma mobilização prevista para contar com 30 mil pessoas teve mais de 50 mil manifestantes nas ruas de Brasília, comandando em alto e bom som: Não tem Plano B. Eu quero o Lula, o Lula do PT. A despeito do que alegam alguns quadros dirigentes de esquerda, a população quer se organizar e quer se mobilizar contra o golpe. Sobretudo se unida em torno da liberdade de Lula e de sua candidatura.

As eleições, por sua vez, são completamente conduzidas pelos golpistas. Parte desse controle é justamente a prisão de Lula. Mas ele também se faz sentir na nova legislação eleitoral, na perseguição dos TREs a setores combativos como o PCO, no crescimento do fascismo bolsonarista, na ampla campanha política operada pela imprensa golpista em prol da direita, nas sucessivas ameaças dos militares.

A experiência recente tem ensinado muito. Se Haddad fosse um candidato combativo, não teria perdido a reeleição para a prefeitura de São Paulo no primeiro turno. Se os golpistas respeitassem eleições, não teriam arrancado ilegalmente Dilma Rousseff da Presidência. Se a justiça fosse imparcial, Lula não teria sido preso. Se o “plano B” fosse efetivo na luta contra o golpe, não seria apoiado pela imprensa golpista. Se não se tratasse de uma questão de disputa de forças reais, não haveria a ameaça de golpe militar pressionando o PT.

Mesmo assim, como que acometidos por uma febre, diversos setores do PT comemoraram fervorosamente na última terça (11) a retirada da candidatura de Lula e o lançamento de Fernando Haddad e Manuela D’Ávila como candidatos de sua coligação nas eleições golpistas, no pleito cujo elemento principal é justamente a prisão e impedimento do líder máximo do Partido.

O oportunismo direitista desse setores se afirma à base da prestidigitação. As palavras de ordem são completamente metafísicas: “Lula é Haddad e Haddad é Lula!”, “Eu sou Lula” [!], “Somos todos Lula”, “Para o Brasil sonhar de novo”… A esquerda pequeno-burguesa embevecida, como que apaixonada por si mesma, passou a viver nos sonhos para fugir da realidade que se impõe. Tanto misticismo levou à crença de que os golpistas entregarão o comando do país de volta à classe trabalhadora como que enfeitiçados pela beleza da esquerda. Mas nem a esquerda é tão bela nem os golpistas são tão tontos.

Vendedores de ilusões

Nos últimos tempos,  alguns grupos parecem ter se especializado em negar a realidade. Insistiram que “não vai ter golpe”, e teve golpe. Deixaram de lutar pela anulação do impeachment de Dilma para lançar-se ao movimento das Diretas Já e não lograram mais que um showmício coxinha em São Paulo. Deixaram de lutar pela anulação do impeachment também para esperar as eleições de 2018, onde Lula certamente seria triunfante. Então deixaram de lutar contra a prisão de Lula em 2017, confiantes em firulas jurídicas, até que os golpistas o condenaram. Deixaram Lula se entregar na promessa de que um milagroso habeas corpus o livraria do cárcere em dez dias, e o presidente está preso há cinco meses. Agora, deixaram de lutar pela liberdade de Lula para disputar as eleições fraudulentas dos golpistas…

Esses setores deixaram de viver o presente para sonhar com o futuro utópico. Mas já retrocedemos um século em direitos sociais.

As eleições sem Lula continuam sendo uma fraude. Uma fraude conduzida pelos golpistas. Cabe decidir se queremos participar dela ou não. Sem mudança na correlação de forças reais, sem mobilização popular, o golpe tende apenas a acelerar sua marcha de destruição do Estado brasileiro, de entrega de nosso patrimônio, de destruição dos direitos do povo, de perseguição, prisão, tortura e assassinato daqueles que se interpuserem em seu caminho. É a máquina de desertificação imperialista funcionando a todo vapor.

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