“Vai, milico”? No Youtube, Anitta é “empoderada”; na urna, Bolsonaro?

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A cantora Anitta vem sendo pressionada por grupos feministas e LGBT a postar a hashtag #EleNão em suas redes sociais – posicionando-se contra a candidatura à Presidência à chapa de Jair Bolsonaro (PSL) e seu vice, Hamilton Mourão (PRTB). A hashtag ganhou popularidade nas últimas semanas como parte da campanha empreendida pela burguesia contra o candidato de extrema direita, tendo sido impulsionada sobretudo pelo grupo do Facebook Mulheres Unidas contra Bolsonaro, que teria chegado a contar com 2 milhões de membros.

Desde então, a imprensa burguesa amplificou a campanha em todos os seus meios. A revista inglesa The Economist estampou uma foto de Bolsonaro em sua capa com a manchete: “Bolsonaro presidente: a mais recente ameaça da América Latina”. A manobra, anunciada em alto e bom som pela direita, é clara: como Bolsonaro lidera as pesquisas após a retirada de Lula, a campanha visa a puxar mais votos da direita para um candidato mais alinhado ao establishment, e tirar Fernando Haddad (PT) do segundo turno – já que Ciro Gomes (PDT) não apoiará o petista e manterá a diluição dos votos da esquerda. Com isso, o segundo turno das eleições seria completamente golpista.

Em todo caso, o silêncio de Anitta vem sendo interpretado pelos bolsonaristas como um apoio tácito ao militar. A revista Sociedade Militar, por exemplo, chegou a fazer um paralelo entre o caso de Anitta e a proscrição de Wilson Simonal do meio artístico na década de 1970, devido a sua colaboração com a ditadura.

Em seu perfil no Twitter, a cantora afirmou: “É um direito meu não querer opinar sobre política e eu só estou exercendo esse direito”. O perfil de fãs @Siteinfoanitta respondeu: “Aí more eu te amo tanto, te defendo de tudo, mas era só postar um #EleNão e tava tudo bem, mas agora você complicou tudo”.

De fato. Os homossexuais e as mulheres são alvos preferenciais da campanha homofóbica e machista da chapa do golpe militar, e a cantora vinha ganhando admiradores nos movimentos LGBT e do feminismo burguês por supostamente desafiar o status quo pelas letras erotizadas de suas canções e por gravar clipes como o de Vai malandra, lançado no final de 2017, em que aparece trajando um biquíni de fita isolante.

Houve uma polêmica na esquerda pequeno-burguesa sobre o direito de Anitta de mostrar seu corpo como bem desejasse sem ser desqualificada por isso. A seminudez de Anitta foi então defendida por grupos feministas como “empoderamento” da mulher de periferia. Seria uma expressão da palavra de ordem “meu corpo, minhas regras”. Muito se teorizou sobre o tema então. Houve quem afirmasse que:

Desconstruir o pensamento machista é uma atividade que devemos fazer diariamente. […] O que seria uma “normal social”? É simples: nada mais que uma regra socialmente reforçada, que pode afetar o comportamento humano de determinada sociedade. […] O quanto que ela não foi xingada por trabalhar fazendo funk? E para nós (isso eu também incluo a Anitta) desconstruirmos essa regra, precisamos prestar mais atenção e não repetir o machismo. A Anitta fez isso e agora está muito mais empoderada. E jamais subordinada!

Na realidade, o suposto “empoderamento” de Anitta não a tornou – nem a seus fãs – progressista ou responsável do ponto de vista político. Deu de ombros a seus fãs olimpicamente, fechando-se no individualismo. Isso ocorre porque justamente discurso do “empoderamento” individual é de pouca ou nenhuma repercussão política. É apenas um placebo destinado a aplacar as dores de consciência da esquerda pequeno-burguesa em sua capitulação diante do feminismo burguês, segundo o qual a questão da mulher estaria completamente dissociada da luta de classes.

A opressão da mulher, e de todas as ditas minorias, é parte constituinte da dominação de classes, e dela não pode ser dissociada. Os negros são discriminados por serem pobres e para se manterem assim; a mulher é discriminada para ser escravizada no lar, reduzindo o valor geral de sua remuneração; os homossexuais são discriminados por representarem para a classe dominante uma dissolução do núcleo familiar tradicional como ferramenta de dominação – por meio do trabalho doméstico forçado.

A emancipação dos mais oprimidos na classe oprimida só pode ser efetivamente revertida por meio de uma mudança material nas formas de produção que condicionam tal opressão. Até lá, as lutas mais concretas não estão no campo dos costumes, mas do atendimento a direitos fundamentais que condicionam concretamente a vida desses grupos, como o direito de todos à opção sexual, o direito das mulheres ao aborto e a creche para seus filhos, que só podem ser atingidos por meio da luta política.