Direita genocida
Bolsonaro já admitiu que abrirá as portas para a iniciativa privada administrar a vacinação no Brasil
Sao Paulo's governors-elect Joao Doria (L) chats with Brazil's President-elect Jair Bolsonaro a meeting with governors-elect in Brasilia, Brazil November 14, 2018. REUTERS/Adriano Machado
João Doria e Jair Bolsonaro | Foto: Adriano Machado/Reuters
Sao Paulo's governors-elect Joao Doria (L) chats with Brazil's President-elect Jair Bolsonaro a meeting with governors-elect in Brasilia, Brazil November 14, 2018. REUTERS/Adriano Machado
João Doria e Jair Bolsonaro | Foto: Adriano Machado/Reuters

Passados alguns dias do show de pirotecnia operado por João Doria (PSDB) no dia em que o primeiro brasileiro recebeu uma dose da CoronaVac, a vacinação vai se revelando cada vez mais como uma gigantesca fraude. O País, que deixou dezenas de pessoas perecerem por falta de oxigênio no Amazonas e no Pará, não tem estrutura alguma para distribuir a vacina entre toda a população. E, no que depender da direita golpista e parasita, isso não irá mudar em momento algum.

Se o golpista João Doria, apresentado como salvador da pátria por ter produzido alguns milhares de doses da cara e pouco eficaz CoronaVac, seguir o atual ritmo de vacinação, o povo brasileiro só estará completamente imunizado em 2053. No entanto, o atual ritmo deve ser maior do que nos meses seguintes. Afinal, os golpistas correram, no início do ano, para organizar um grande espetáculo no dia do lançamento da vacina. Passado o efeito e depois de algumas capas de revista em que Doria aparece como herói, o interesse em produzir a vacina poderá diminuir drasticamente.

As sucessivas alterações no calendário de vacinação são prova de que não há uma preocupação real da direita nacional com o povo. Primeiro, o inicio da vacinação para pessoas do grupo de risco estava previsto para 25 de janeiro, depois, foi adiado para 8 de fevereiro e, agora, está previsto apenas para o final de março! Isso sem contar que poderá ser adiado novamente… A primeira fábrica de produção da vacina só terá sua construção iniciada em São Paulo em outubro. O que Doria fez foi importar meia dúzia de vacinas da China para fazer o showzinho dele e falar que está vacinando.

Grande parte do show de Doria tinha — e ainda tem como objetivo — apresentar o PSDB e a direita nacional como a oposição mais competente contra o governo Bolsonaro. Uma fraude completa; afinal, a política de Doria é tão ou mais genocida que a de Bolsonaro. Foi Doria, inclusive, que organizou a reabertura da economia promovida por todos os governadores do País. No fim das contas, a única diferença de um e de outro é que Doria, com sua demagogia “científica”, acabou conseguindo o apoio amplo da esquerda pequeno-burguesa.

Com a própria vacinação, caiu por terra, mais uma vez, a oposição entre Bolsonaro e Doria. Após o governador de São Paulo faturar com seu espetáculo de demagogia — embora o resultado tenha sido muito aquém do que pretendia —, o próprio Jair Bolsonaro mudou seu discurso e passou a defender a vacina chinesa. Doria roubou os lucros e dividendos da oposição política a Bolsonaro da esquerda, faturando em cima da revolta do povo contra um governo impopular e de extrema-direita. Mostrando também ser um bom ladrão, Bolsonaro passou por cima da articulação que já existia entre Doria e a China e se apresentou como responsável pela importação de 5,4 mil de litros de insumos para a produção de CoronaVac. Como diz o ditado, ladrão que rouba ladrão, tem cem anos de perdão…

Perdoado, Bolsonaro não deverá ser. É um inimigo do povo, um genocida, e sua conta irá chegar em algum momento. No entanto, o uso que Bolsonaro pretende fazer da CoronaVac desmoraliza, de vez, a política da esquerda pequeno-burguesa de ficar a reboque da direita nacional. Agora, que o próprio Bolsonaro se diz adepto da CoronaVac, o que a esquerda fará, agradecer Bolsonaro por ter deixado de ser “obscurantista” e ter comprado a vacina? E como a esquerda irá explicar ao povo que Doria, o “grande herói” da luta contra o fascismo, na verdade vai enrolar todo mundo e demorar 32 anos para concluir seu plano de vacinação?

Está aí a prova de que a política da frente ampla só leva a esquerda a uma profunda desmoralização perante os trabalhadores, sem qualquer resultado efetivo.

Agora que a vacinação vai se revelando uma farsa, que Doria já faturou sobre a situação e que a burguesia organizou até mesmo uma pequena movimentação em torno do impeachment para pressionar o governo Bolsonaro, fica mais claro o que acontecerá. Pouco depois de ter, pela primeira vez, defendido a vacina chinesa, Bolsonaro já admitiu que irá abrir as portas para a privatização da vacinação. Uma política, inclusive, que não contradiz em nada os interesses de Doria e do PSDB, que se orgulham de ser privatistas.

Na noite da última segunda-feira (25), disse Bolsonaro à CNN Brasil:

“Desde o ano passado, nós abrimos negociação para compra de vacinas. Diferente do que estão falando por aí, o governo continua estimulando essa negociação com os empresários. Nós demos o sinal verde para eles lá atrás”.

Ainda não está estabelecido como será a participação da iniciativa privada na vacinação. Segundo especula a imprensa burguesa, uma parte deverá ser destinada ao Sistema Único de Saúde (SUS) e uma parte deverá ser aplicada pela própria empresa.

Se fosse para os empresários financiarem o SUS, não haveria sentido algum na privatização da vacina. Os capitalistas não tem interesse algum na saúde do povo e, portanto, não estariam interessados em financiar a saúde pública. Provavelmente, a doação de parte das doses ao SUS seria apenas um pretexto para que, efetivamente, as empresas pudessem importar a vacina. E, mesmo sendo um pretexto, certamente seria altamente sabotada, como toda obrigação dos capitalistas para com o Estado.

Do ponto de vista das empresas, a importação da vacina cumpre uma necessidade. Afinal, enquanto o governo não dá qualquer mostra de que está disposto a vacinar a população, os capitalistas, que precisam retomar com tudo a produção de mercadorias para obterem lucro, comprariam a vacina para si próprios e para seus amigos, além de também tentarem vacinar seus funcionários a fim de que eles retornem logo ao trabalho.

A privatização da vacina, portanto, destruiria qualquer possibilidade de uma fila de pessoas com prioridade para a vacina, mas sim garantiria que os capitalistas organizassem a fila de acordo com os seus próprios interesses.

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