“Mulher, negra e enfermeira”
O governo Dória que vacina uma mulher negra é o mesmo que todos os dias mata mulheres e negros não só de coronavírus, mas com sua polícia, com o desemprego, com a fome, etc
doria vacina
Dória monta um espetáculo para transmitir primeira imunização do coronavirus no país | Foto: Reprodução
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Dória monta um espetáculo para transmitir primeira imunização do coronavirus no país | Foto: Reprodução

No ultimo domingo (17), tão logo a Anvisa liberou o uso emergencial de vacinas Oxford e Sinovac contra o coronavírus, teve início uma  batalha dentro da burguesia golpista basicamente dividida entre direita tradicional e extrema direita, para imunizar a primeira pessoa do país, o que rendeu o verdadeiro show de horrores da direita apelando para todo o tipo de demagogia para enganar o povo.

Mesmo com a tentativa dos bolsonaristas de importar às pressas vacinas vindas da Índia, iniciativa que foi barrada; o setor mais tradicional não menos desesperadamente em questão de minutos montou um grande espetáculo com transmissão televisiva para, medindo força com o bolsonarismo, exibir a primeira vacina sendo aplicada pelo governo de São Paulo com a presença do direitista João Dória.

Assim como todo o resto, a escolha da pessoa que receberia a primeira dose da vacina também foi algo muito bem pensado como um dos pontos centrais na cena para dar o tom da demagogia. o governo de João Dória, inimigo das mulheres e dos negros não por acaso escolheu como cobaia para receber a vacina a enfermeira de 54 anos Mônica Calazans, nas palavras da imprensa golpista para descrever a escolhida: “mulher, negra e enfermeira”. A farsa está montada: o governo Dória que vacina uma mulher negra é o mesmo que todos os dias mata mulheres e negros não só de coronavírus, mas com sua polícia, com o desemprego, com a fome, etc.

Algo muito parecido com o que vimos por exemplo na campanha eleitoral de Joe Biden na disputa presidencial de 2020, onde mesmo sendo Biden notadamente um agente do imperialismo e estando ligado a inúmeros ataques contra mulheres e negros,  abusou da demagogia com estes setores durante sua campanha, até mesmo com a escolha de uma mulher negra, mas não menos direitista que o próprio Biden, Kamala Harris, para a vice presidência; isto para se colocar como uma espécie de antagonista do também direitista Donald Trump que concorria à reeleição, o que com a ajuda da imprensa burguesa conseguiu enganar e levar a reboque todo um setor da esquerda pequeno- burguesa que se colocou em defesa da campanha do direitista confundindo a população.

Tendo como exemplo o caso de Joe Biden, logo se revelam as verdadeiras intenções de João Dória e da direita em, digamos, combater o governo Bolsonaro, o que não passa de uma farsa com objetivos eleitorais, não há combate algum a Bolsonaro dentro da burguesia, muito menos qualquer interesse em beneficiar o povo, o que existe é apenas uma disputa interna na burguesia para que a direita tradicional prevaleça sobre a extrema direita, assim como a disputa imperialista entre Trump e Biden.

Embora a burguesia tradicional tenha poder dentro do estado e das instituições burguesas e seja sobretudo representada pela direita tradicional, são setores extremamente impopulares o que fez por exemplo com que esta direita apoiasse em Bolsonaro nas ultimas eleições, uma vez que mesmo tendo uma política clara de ataque aos trabalhadores contava com uma certa base de apoio sobretudo dentro das forças repressivas. Para a burguesia naquele momento Bolsonaro seria algo como um mal menor em relação por exemplo a Lula e ao Partido dos Trabalhadores que embora repleto de contradições é um dos maiores partidos de esquerda do mundo e que possui uma base forte dentro da classe trabalhadora representando um grande perigo para a burguesia.

Passada a eleição e com a vitória da direita notadamente começaram a parecer as divergências dentro do governo Bolsonaro que no início contava com figuras tanto da extrema-direita como Damaris Alves por exemplo e figuras mais ligadas à direita tradicional e ao imperialismo como Sergio Moro. A direita tradicional esvaziou o governo Bolsonaro e o tem isolado, tão somente por uma questão de poder sobre os aparatos da burguesia, não existe dentre estas divergências qualquer desacordo quanto aos ataques aos trabalhadores que vêm tanto de Bolsonaro quanto de Dória.

Embora a direita tente jogar toda a culpa dos desastres da pandemia em Bolsonaro fazendo passar despercebido que a política direitista que levou o país a situação em que se encontra hoje com mais de 200 mil mortos pelo covid, além de números alarmantes para desemprego e fome por exemplo são obra conjunta da burguesia, seja através da extrema direita ou da direita tradicional.

Dada a sua impopularidade a direita tradicional frequentemente lança mão de táticas como a demagogia, procurado com isto sobretudo usar setores da esquerda mais ligados à burguesia  e portanto menos combativos que são facilmente manipuláveis pela burguesia com questões como mulheres e negros. Basta um direitista por exemplo iniciar campanhas de conscientização com banes e folders sem qualquer eficácia contra o feminicídio ou o racismo que se torna para a pequena-burguesia um grande aliado.

Com isto a burguesia têm se infiltrado cada vez mais na esquerda tornando movimentos e partidos de esquerda cada vez mais direitistas e distantes dos trabalhadores, das mulheres e dos negros, para com isto afastar os setores mais combativos como o ex presidente Lula e deixar o caminho livre para a direita dar outros golpes na esquerda como vêm fazendo com a frente ampla da esquerda com a direita, e que fica nítido por exemplo com o “vai ter frente ampla sem petista na cabeça, sim” da direitista Vera Magalhães em defesa da candidatura de Guilherme Boulos (PSOL) que embora supostamente de esquerda, nas eleições municipais serviu à burguesia e não aos trabalhadores.

É evidente que a frente ampla com a direita, a demagogia com os setores oprimidos que não se propõe a acabar com a opressão não trás nenhum benefício para a classe trabalhadora e a população mais pobre de conjunto, muito pelo contrário proporciona à direita se infiltrar e paralisar as iniciativas populares, a revolta, as greves, as manifestações contra a burguesia. A burguesia que toma conta da vacina e do Fora Bolsonaro o faz para que a revolta popular que é quase inevitável se volte tão somente contra Bolsonaro e contra a extrema-direita e não contra ela própria que é a principal responsável por toda a desgraça da classe trabalhadora

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