Conciliação aprovada na resolução do Coneb (UNE) apenas trava a luta política dos estudantes

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Entre os dias 6 e 10 de fevereiro, ocorreu em Salvador (BA) a 11ª edição da Bienal da União Nacional dos Estudantes (UNE), ao mesmo tempo em que ocorria o Conselho Nacional de Entidades de Base (Coneb).

O Coneb é um fórum deliberativo organizado pela UNE para aprovar resoluções políticas da entidade estudantil, que ocorre de dois em dois anos.

No final da plenária, a resolução política final foi sintetizada na “Carta de Salvador”. O documento em si é cheio de confusões sobre o caráter do governo Bolsonaro e a situação política no Brasil, além de ter um conteúdo burocrático onde não se menciona o golpe, as fraudes nas eleições em nenhum momento.

Porém, o ponto central da política capituladora do documento não se encontra aí. O documento, por detrás de uma fraseologia combativa, esconde um projeto de frente ampla com setores da burguesia golpista supostamente democrática.

Em determinado momento, a carta diz o seguinte: “A eleição de Bolsonaro para Presidência da República inaugura um novo momento político no país e deve orientar o movimento estudantil brasileiro à responsabilidade de construir uma ampla unidade de todos os setores progressistas e democráticos”.

E em seguida: “A tarefa de nossa geração deve ser ampliar o diálogo, aparar nossas divergências e fortalecer a organização estudantil em torno da defesa de nossa soberania, dos direitos sociais e da democracia”.

A primeira parte do trecho serve para justificar a segunda. Portanto, comecemos por ela. Primeiro, o texto diz que vivemos um “novo momento político”, o que indica essencialmente que algo mudou na situação política. Visto, desta forma, separado do resto da frase, trata-se de uma avaliação correta. Todavia, o documento não especifica o que mudou no cenário político, e abre brechas então para as conclusões erradas e oportunistas que seguem no documento.

Segundo eles, o “novo momento político” deve guiar o movimento estudantil para “construir uma ampla unidade de todos os setores progressistas e democráticos”. Mais uma vez, reina a confusão, pois não especifica quem seriam estes “setores progressistas e democráticos”. Uma afirmação muito mais esclarecedora, por exemplo, seria dizer que diante das ameaças do governo Bolsonaro é preciso fortalecer a unidade entre todas as organizações de luta das massas e dos trabalhadores.

Entretanto, a confusão das afirmações é feita de forma proposital para justificar o resto do documento. No segundo trecho, diz que o movimento estudantil precisa “ampliar o diálogo” e “aparar” as divergências existentes. Mais uma declaração confusa, mas que pode ser explicada pela política levada adiante pelo PCdoB (que controla a UNE), tanto na própria Bienal como em nível nacional.

Como se sabe, o PCdoB está imerso em uma Frente Democrática parlamentar com Ciro Gomes e outros elementos da burguesia golpista, como o PDT e o PSB, e sem o PT. Vale lembrar que essa frente é, além de uma tentativa de isolar politicamente o PT, uma fachada democrática para enfeitar o regime bolsonarista, com uma oposição parlamentar consentida pelos bolsonaristas.

Não vale aqui entrar em todos os argumentos que já foram demonstrados por este jornal. Entretanto, é preciso lembrar que a Frente, em si, já demonstra a política do PCdoB de colaborar com setores da direita golpista. Inclusive, o papel farsesco dessa frente fica expresso nas últimas eleições para a presidência da câmara, em que os partidos que a compõem votaram em peso em Rodrigo Maia (DEM, herdeiro do partido da ditadura militar, a Arena), que não só compunha o governo Temer, como também era o candidato oficial do governo Bolsonaro.

Na Bienal, o PCdoB convidou Ciro Gomes para discursar para os estudantes, onde chamou a direção petista de corja de corruptos e disse “o Lula está preso, babaca!”. Ciro Gomes, nos últimos meses, tem limpado toda sua maquiagem esquerdista, defendendo a Lava-Jato, declarando que Lula não é um preso político e assim por diante. E por isso foi vaiado pelos estudantes durante sua fala, o que não impediu que mandasse seus seguranças agredir um estudante que estava denunciando os ciristas.

Portanto, fica muito claro que a política do PCdoB é de total capitulação com uma ala da burguesia golpista, inclusive um importante setor da extrema-direita, como no caso do Rodrigo Maia. Ao mesmo tempo, percebe-se que essa política oportunista se repete com setores do PSOL, como Marcelo Freixo, e a ala direita do PT.

O documento do PCdoB, aprovado pelo PCdoB em nome da UNE, que eles controlam há anos, é confuso justamente por uma razão clara: não querem revelar o jogo. Na verdade, o pretexto de que vivemos um “novo momento político” é justamente para justificar a política de virar a página do golpe, ou seja, esquecer a luta política entre os que deram o golpe, de forma totalmente ilegal para atacar os trabalhadores, e aqueles que sofreram o golpe, os trabalhadores.

Por isso, o documento fala em “ampliar o diálogo” e “aparar” as divergências existentes. O que eles pretendem com isso é frear o movimento estudantil com a adesão a uma política de aliança com setores golpistas, que se auto-intitulam “democráticos” e “progressistas”.

Ou seja, o movimento estudantil, para o PCdoB, não poderá lutar contra a prisão ilegal de lula (que não é mencionada sequer uma vez no documento) porque os “democratas” (Ciro Gomes & Cia.) não deixarão. Nem mesmo se poderá fazer uma luta efetiva contra Bolsonaro, pois “democratas” dirão que o governo fraudulento é legítimo. Nem mesmo os trabalhadores poderão se mobilizar contra a reforma da previdência, porque os “democratas” estão com os bolsonaristas na elaboração do projeto.

Por isso, é uma mentira descarada afirmar que uma aliança com estes setores poderá realizar uma “defesa de nossa soberania, dos direitos sociais e da democracia”. A soberania, os direitos sociais e democráticos foram totalmente liquidados pelos golpistas com os quais o PCdoB quer se aliar.

A única forma de o movimento estudantil combater Bolsonaro e a política de destruição dos golpistas é com uma Frente Única entre todas as organizações de luta das massas e dos trabalhadores. Com uma aliança política totalmente independente dos interesses da burguesia e da direita.

A burguesia de conjunto está na base do governo Bolsonaro. O setor “democrático” é apenas um disfarce para jogar areia nos olhos dos trabalhadores.