Deboche com o povo
Fazer uma campanha de vacinação sem estoque de vacinas e sem fábrica para produzi-las é verdadeiramente uma coisa de “malucos”
SÃO PAULO, SP, 21.07.2020 - VACINA-CORONAVÍRUS-SP - O governador de São Paulo, João Doria, durante entrevista coletiva no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, na capital paulista, após acompanhar o início dos testes da vacina contra o novo coronavírus, nesta terça-feira (21). (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)
O governador genocida João Doria segurando uma das poucas vacinas disponíveis no Brasil | Foto: Zanone Fraissat/Folhapress/VEJA
SÃO PAULO, SP, 21.07.2020 - VACINA-CORONAVÍRUS-SP - O governador de São Paulo, João Doria, durante entrevista coletiva no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, na capital paulista, após acompanhar o início dos testes da vacina contra o novo coronavírus, nesta terça-feira (21). (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)
O governador genocida João Doria segurando uma das poucas vacinas disponíveis no Brasil | Foto: Zanone Fraissat/Folhapress/VEJA

A promoção de João Doria, governador tucano psicopata do estado de São Paulo, como o grande herói vacinador do país se revelou bem rapidamente uma verdadeira farsa. A fim de alavancar Doria como o candidato da frente ampla à presidência do país em 2022, a burguesia procurou fazer uma gigantesca propaganda em torno de sua atuação dentro da pandemia. Segundo essa propaganda, Doria seria o “científico”, o “responsável”, o “salvador”.

Trata-se de um deboche descarado com a população. João Doria é o responsável por um quarto de todas as mortes por covid-19 no país. Todos que acompanharam a questão do coronavírus sabem que ele não fez absolutamente nada para combater o contágio no Estado. Desde o princípio, sua única atuação foi um apelo demagógico à população para que “ficassem em casa”, com eventuais medidas de isolamento social que atingiram apenas um setor da classe média, que possui condições financeiras de trabalhar de casa ou de não trabalhar. A classe trabalhadora toda continuou trabalhando, com pandemia ou não. Agora que o número de mortes voltou a crescer em disparada, Doria decreta o fechamento de todo comércio durante a noite, no fim de semana e no feriado. Uma medida que não fará diferença nenhuma no combate ao coronavírus, mas que serve para uma propaganda contra o trabalhador que resolver sair de casa no feriado, após trabalhar a semana inteira pegando trem e ônibus lotados.

No que diz respeito à vacina, após um longo período de propaganda e de ver a esquerda ficar vergonhosamente a reboque da direita nessa questão, Doria e sua equipe publicitária armaram um vídeo com a vacinação de uma enfermeira, supostamente a primeira pessoa a ser vacinada no Brasil. Posteriormente, descobriu-se que a pessoa fazia parte da esquipe de testes da vacina, ou seja, uma verdadeira peça de propaganda farsesca. Além disso, esse primeiro lote de vacinas Coronavac (que não foi efetivamente produzido no Brasil, mas importado da China) possui apenas 6 milhões de doses. Segundo apresentado em matérias da própria imprensa burguesa, isso não é suficiente para vacinar nem metade dos trabalhadores da saúde do país e nem 0,5% dos idosos. Esse lote deve se esgotar até o dia 31 de janeiro.

A promessa é que o Brasil deve conseguir mais 6,8 milhões de doses em um período próximo, incluindo 2 milhões da vacina de Oxford. Depois, só haverá mais vacinas quando o país receber os insumos necessários vindos da China para a confecção de mais vacinas pelo Instituto Butantan. Desse modo, o que se tem no Brasil é uma verdadeira escassez de vacinas, com diversas capitais do país requerendo mais dezenas de milhares de doses para poderem continuar a sua vacinação e outras em que o lote recebido se encerrará antes do previsto, que seria o dia 31.

Com relação à fábrica que está sendo construída para a produção industrial das vacinas em São Paulo, pelo Instituto Butantan, o que se tem até agora é um galpão vazio. O prazo para conclusão das obras é de 10 meses, o que adiaria o começo para uma produção de vacinas no Brasil para outubro de 2021. Isso se considerarmos que esse prazo vá ser respeitado pela empresa que está responsável pela construção da fábrica, que é feita com investimento da iniciativa privada. Isso é um verdadeiro deboche, considerando que muitos estados e cidades já haviam divulgado planos para a vacinação, estipulando datas para a aplicação das doses nos grupos, com metas e esquemas de logística. Tudo feito sem ter sido produzida uma única dose de vacina no país.

Tudo isso mostra como a burguesia é incapaz de formular e de executar uma política verdadeira de combate à pandemia. Primeiramente, não conseguiu conter o contágio do vírus por não querer adotar nenhuma medida verdadeira para impedir que houvesse a sua transmissão. Deste modo, houve uma explosão no número de infectados e de mortos no Brasil, enquanto países muito mais pobres como Cuba, demonstraram uma capacidade muito grande de contornar a crise.

No caso da vacina, vemos a transformação disso em uma propaganda para as eleições de 2022. Tanto da parte de Bolsonaro, quanto de João Doria, que procuram apresentar falsos resultados e falsos planos para enganar o povo. Isso é particularmente escandaloso no caso da Coronavac. Já começa com o fato de ela ter a eficácia mais baixa dentre todas as vacinas, pouco acima de 50% segundo algumas pesquisas (outras apontam uma eficácia próxima a 49%). Além disso, ela é também a mais cara de todas as vacinas. Enquanto a vacina de Oxford custa por volta de 3 dólares a dose, a vacina produzida no Brasil, custa aproximadamente 10 dólares a dose. Agora, se vê essa mentira total no que diz respeito à produção de vacinas. Foi feito um plano de vacinação sem haver nenhum estoque de vacina, uma coisa totalmente maluca. É vergonhoso que a burguesia tenha passado todo esse tempo estimulado essa propaganda da vacina, tenha baixado leis que obrigam todos a se vacinarem, inclusive possibilitando que patrões possam demitir funcionários que não tenham se vacinado, para chegar no momento de executar a imunização, não ter vacina para ninguém.

E, diante de toda essa situação, a esquerda se mostra totalmente nula. A única coisa que se vê as lideranças fazer é uma crítica genérica a Bolsonaro, e isso acontece particularmente nesse momento porque elas acreditam que a burguesia está disposta a derrubar Bolsonaro, mas não ocorreu em momentos anteriores, quando a burguesia o estava apoiando. Além disso, há uma política vergonhosa de apoio a João Doria e à direita tradicional, mostrando que estão totalmente prontos para realizar a manobra do “Joe Biden brasileiro” nas próximas eleições presidenciais. Os setores mais combativos e revolucionários da esquerda precisam se desvincular dessa política falida pautada pela burguesia e apontar uma perspectiva própria de combate ao coronavírus. É preciso parar de elevar João Doria ao patamar de herói nacional e explicar para a população a realidade da situação da vacina no país.

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