UP
Recém-fundada Unidade Popular aparece, em sua primeira eleição, como uma continuidade da política de colaboração de classes e como cabo eleitoral dos carreiristas pequeno-burgueses
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Boulos-e-Erundina
Chapa Boulos-Erundina, o ponto de encontro dos stalinistas e carreiristas | Foto: Reprodução/Redes sociais

Não é novidade nenhuma que o PT decidiu se coligar com partidos de direita e de extrema-direita em todo o País — em mais de cem cidades, a legenda aparece junto ao PSL. As contradições no interior do partido já apontavam para o fato de que a ala mais direitista e mais pragmática conseguiria se impor em vários casos em sua disputa desenfreada por cargos públicos. O mesmo vale para o PCdoB, que, inclusive, investiu pesadamente em seus intelectuais para apresentar uma elaboração teórica para justificar a política de colaboração com os golpistas. O que chama a atenção, no entanto, é o caso de partidos que reivindicam para si o socialismo e que se dizem críticos da colaboração de classes: PSOL, UP e PCB. Embora os três partidos estejam interligados, daremos ênfase, neste artigo, ao caso da UP.

A Unidade Popular é o mais novo partido brasileiro entre aqueles registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Contudo, até o momento, o partido não apresentou uma política de independência da burguesia, como sequer se mostrou capaz de mostrar sua independência em relação aos demais partidos da esquerda pequeno-burguesa.

Uma primeira coisa que chamou muita a atenção no caso da UP é que o partido praticamente apenas lançou candidatos majoritários nas capitais nos locais onde o PSOL não lançou essas candidaturas. Vejamos:

Região Sul

Porto Alegre – UP apoia candidatura de Fernanda Melchionna (PSOL

Florianópolis – UP apoia candidatura de Professor Elson (PSOL)

Curitiba – UP não tem candidato, nem apoia candidato algum

Região Sudeste

São Paulo – UP apoia a candidatura de Guilherme Boulos (PSOL

Rio de Janeiro – UP apoia a candidatura de Renata Souza (PSOL)

Belo Horizonte – UP apoia a candidatura de Áurea Carolina (PSOL)

Vitória – UP não tem candidato, nem apoia candidato algum

Região Centro-Oeste

Campo Grande – UP não tem candidato, nem apoia candidato algum

Cuiabá – UP não tem candidato, nem apoia candidato algum

Goiânia – UP, PCB e PSOL têm candidato próprios

Região Nordeste

Salvador – UP apoia a candidatura de Hilton Coelho (PSOL)

Aracaju – UP não tem candidato, nem apoia candidato algum

Maceió – UP decidiu lançar candidatura própria, apesar de o PSOL e o PCB lançarem a candidatura de Valeria Correia

Recife – UP decidiu lançar candidatura própria, uma vez que o PSOL decidiu apoiar a candidatura do PT

João Pessoa – UP decidiu lançar candidatura própria, apesar de o PSOL ter lançado a candidatura de Pablo Honorato Nascimento

Natal – UP não tem candidato, nem apoia candidato algum

Fortaleza – UP decidiu lançar candidatura própria, apesar de o PSOL ter lançado a candidatura de Renato Coseno

Teresina – UP decidiu lançar candidatura própria, apesar de o PSOL ter lançado a candidatura de Lucineide Barros

São Luís – UP não tem candidato, nem apoia candidato algum

Região Norte

Palmas – UP não tem candidato, nem apoia candidato algum

Belém – UP apoia a candidatura de Edmilson Rodrigues (PSOL)

Macapá – UP não tem candidato, nem apoia candidato algum

Boa Vista – UP não tem candidato, nem apoia candidato algum

Manaus – UP não tem candidato, nem apoia candidato algum

Rio Branco – UP não tem candidato, nem apoia candidato algum

Que partido de esquerda, que tem um programa próprio, abriria mão da maior parte das candidaturas em capitais para apoiar candidatos de outro partido? Podemos apenas concluir que, para a UP, eleger alguns candidatos de outro partido é uma prioridade em relação à defesa de seu próprio programa ou que o programa do PSOL seria o mesmo que o seu. Seja qual for a resposta, podemos, de já, chegar à mesma resposta: a UP não é um partido revolucionário, voltado para a mobilização das massas contra o regime capitalista, mas apenas mais um partido pequeno-burguês eleitoreiro.

O centro da atividade de um partido da esquerda pequeno-burguesa é a busca de cargos e a promoção social. E o PSOL é o modelo de partido com essas características: a legenda é comandada por seus parlamentares, não tem um programa único e não tem uma base junto aos trabalhadores. O caráter carreirista e pequeno-burguês do partido é tanto que o seu principal candidato nas eleições municipais, Guilherme Boulos, não é um quadro do PSOL. Boulos construiu sua imagem pública por meio do MTST e da imprensa burguesa, tendo apenas escolhido o PSOL como uma exigência formal para lançar sua candidatura presidencial em 2018. Boulos lançou sua candidatura naquele ano antes mesmo de se filiar ao PSOL e foi escolhido candidato sem qualquer consulta às bases do partido.

Se a participação da UP nas eleições de 2020 se dá, em grande medida, para ajudar a eleger os candidatos do PSOL, somos obrigados a concluir que a UP contemporiza com o tipo de partido que o PSOL é. Ou seja, um partido que tem como fim eleger pessoas, e não travar uma luta em defesa de uma classe.

Na medida em que a polarização política aumenta — isto é, o regime político se torna cada vez mais fascista e o povo cada vez mais revoltado —, a política pequeno-burguesa só pode ser a de uma guinada cada vez mais profunda à direita. Isso porque para continuar atrelado ao regime político e prosseguir com suas carreiras de parlamentares e funcionários do Estado, os pequenos burgueses precisam acompanhar a evolução do regime rumo a uma ditadura. Os partidos e militantes de esquerda que não se propuserem a romper com o regime político e partir para uma política de derrubada de toda a podridão armada pela burguesia, acabará assumindo posições cada vez mais reacionárias. A esse apego à direita para manter seus privilégios, dá-se o nome de “frente ampla”.

Guilherme Boulos, na medida em que vai se consolidando como uma das principais figuras do PSOL, é, hoje, o maior representante da política reacionária da “frente ampla”. E vários eventos demonstraram o caráter direitista desse tipo de política: Boulos assinou manifestos com direitistas como Fernando Henrique Cardoso e Armínio Fraga, fez acordos com João Doria e o Judiciário para tentar acabar com os atos Fora Bolsonaro em São Paulo, tem como candidata a vice uma política burguesa do PSB que reprimiu a greve dos trabalhadores da CMTC e encontrou na Folha de S.Paulo o principal meio para expressar suas “ideias”. O apoio da UP a Guilherme Boulos já seria suficiente para colocar esse partido na “frente ampla”. Mas não para por aí.

Seguindo o exemplo do PSOL, a própria UP formou alianças com partidos golpistas, como é o caso da cidade de Patos (PB) e de Florianópolis (SC). Em Patos, a UP se coligou com os seguintes partidos: MDB, PDT, PT, AVANTE e, como sempre, o PSOL. Isto é, com três partidos golpistas, da direita. Tem sido veiculado na imprensa burguesa que a UP, depois da repercussão desse verdadeiro escândalo, iria retirar o apoio. No entanto, chama a atenção que o partido ainda não se pronunciou oficialmente e que, segundo as especulações da imprensa burguesa, a decisão de retirar o apoio se daria pela “surpresa” da UP em descobrir que o MDB estaria presente. Ora, mas o problema não seria apenas o MDB, mas também o PDT e o Avante, que são partidos golpistas! O PDT, inclusive, seria o vice da chapa, o que, certamente, era sabido pela UP.

O caso de Florianópolis também ajuda a comprovar nossas suspeitas. Até agora, não há qualquer pronunciamento da UP sobre esse município, nem mesmo por meio de especulações da imprensa burguesa. E nessa cidade, a UP apoiará o PDT e o PSB. Dois partidos que são envolvidos com o golpe de Estado e os ataques da direita contra os trabalhadores nos últimos anos.

Na medida em que a política de “frente ampla” vai se tornando mais clara, como uma política reacionária que é, seus defensores vão tendo de recorrer a métodos cada vez mais direitistas para se impor. Uma discussão racional, com argumentos, já não é mais cabível. E é justamente por isso que os defensores da “frente ampla”, ao passo que a polarização aumenta, vão se aproximando dos métodos truculentos e inaceitáveis de Josef Stalin, que foi o maior defensor da colaboração de classes em seu tempo.

Em artigo do portal Esquerda Diário que criticava a política de alianças da UP, os apoiadores desse partido reagiram ao velho modo stalinista:

A fuga da discussão, as falsificações e as calúnias nada têm a ver com a luta da classe operária. Como visto nos comentários, os defensores acusam os adversários simplesmente de serem partidários da extrema-direita, de espalhar “fake news”, mas se recusam a discutir os fatos: que a política da “frente ampla” é um desastre para a esquerda.

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