Frente ampla
Após derrota humilhante de candidato apoiado pela esquerda, ex-senadora do PCdoB volta a propor união com a direita golpista
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Baleia Rossi | Foto: Reprodução
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Baleia Rossi | Foto: Reprodução

No dia 4 de fevereiro, três dias depois da eleição para a presidência da Câmara dos Deputados, o portal Vermelho, editado pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), publicou o artigo “Uma frente contra Bolsonaro”, assinado por Vanessa Grazziotin. O texto, conforme o próprio nome dá a entender, faz uma análise superficial e errada das eleições na Câmara e ainda propõe a união entre a esquerda e a direita golpista — a chamada “frente ampla” ou, para os mais audaciosos, “frente amplíssima”.

Vanessa Grazziotin inicia o artigo alegando que a vitória dos candidatos apoiados pelo presidente ilegítimo Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados e no Senado “não foram vitórias espontâneas, tampouco vitórias baseadas no convencimento político”. Seriam, segundo a ex-senadora, “vitórias que tiveram um alto custo, tanto financeiro como do ponto de vista da distribuição do poder”. Para reforçar sua tese, ela ainda argumenta que, “segundo os meios de comunicação, Bolsonaro prometeu a liberação de mais de R$ 3 bilhões em emendas para os parlamentares. Da mesma forma em que prometeu aos partidos políticos uma participação mais incisiva na participação do governo federal, não apenas em cargos federais nos estados, mas, inclusive, com indicações de ministros da República”.

A vitória de Arthur Lira (PP) e de Rodrigo Pacheco (DEM) são resultado de uma operação de compra escancarada? Sim. Mas não há coisa alguma de especial nisso. Não existe vitória “espontânea” no Congresso porque os deputados da burguesia são, por definição, fisiológicos. Não representam os interesses da população, até mesmo porque não são eleitos sobre a base de um movimento popular real. Para chegar a Brasília, precisam, antes de tudo, vender sua alma para a burguesia.

Acreditar que o Congresso é movido pelo “convencimento político” é de uma ingenuidade sem tamanhos. Impossível, na verdade, para quem já esteve lá dentro, como é o caso de Grazziotin. E, mesmo que houvesse alguma ingenuidade em relação a seus nobres colegas, essa ingenuidade já deveria ter caído por terra no golpe de 2016: os deputados e senadores da República mostraram, em rede nacional, que são todos umas prostitutas da burguesia, capazes de rasgar o voto de milhões de brasileiros e entregar o País de bandeja para o imperialismo.

O problema, como fica óbvio, não foi uma mera operação de compra de voto na Câmara. Mas sim o golpe de Estado que permanece em aprofundamento. E foi justamente por isso que a mais recente tentativa da esquerda de se unir à direita golpista fracassou completamente: ao fantasiar que haveria um setor da direita nacional que seria “democrático”, a esquerda assistiu aos ratos da burguesia abandonarem o próprio barco que jogaram ao mar.

Vanessa Grazziotin alega que seria preciso uma frente “que garanta, não apenas a democracia, mas a vida e coloque o Brasil em outro caminho. O caminho do diálogo, o caminho da busca de um projeto de reconstrução nacional”. Não há qualquer possibilidade viável com a direita golpista. Ao contrário do que defende a ex-senadora, de que “a oposição à esquerda, sozinha, não reúne condições para derrotar Bolsonaro”, é preciso mobilizar os trabalhadores, únicos interessados em derrotar o golpe, para lutar pelo Fora Bolsonaro e todos os golpistas, eleições gerais e Lula presidente.

Não estamos mais na década de 1920, quando o fascismo era, até certo ponto, uma novidade. Mesmo naquela época, dirigentes mais acurados, como Leon Trótski, e agrupamentos combativos, como os Arditi del Popolo, foram capazes de defender uma política acertada contra a extrema-direita. Não estamos, sequer, no primeiro dia do governo Bolsonaro. Muito pelo contrário: pela enésima vez, a esquerda quebrou a cara com a sua política de “frente democrática” contra o fascismo. A insistência nesse tipo de política mostra, portanto, que os setores mais carreiristas e pequeno-burgueses da esquerda, na medida em que dependem do regime político, são incapazes de tirar as conclusões certas mesmo quando a verdade aparece nua em sua frente.

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