“Nem Lula, nem Bolsonaro”
A propaganda de que os trabalhadores devem ignorar a liderança histórica de Lula e estabelecer prontamente um “governo sem patrões” é uma ilusão a serviço do regime
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Faixa do PSTU contra Dilma e Lula | Foto: Reprodução

Em resposta ao discurso marcante do ex-presidente Lula no dia 7 de setembro, quando se colocou, segundo suas próprias palavras, “à disposição” do “povo brasileiro” para a luta contra o governo Bolsonaro, o Partido Socialista dos Trabalhadores (PSTU) decidiu publicar um artigo de título “A hipocrisia em público”. Assinado por Alex Leme, ex-diretor do Sindicato dos Metroviários de SP, o texto faz um breve resgate dos governos do PT para tentar comprovar a famigerada tese morenista de que o PT e a direita são a mesma coisa.

Logo de início, o artigo destaca que o discurso de Lula seria uma farsa:

“Como sempre um grande orador, com a particularidade de falar aquilo que o espectador quer ouvir. A questão principal do discurso dele é o que ele não falou. Boa parte do descalabro que denuncia hoje já existia na gestão de 14 anos do PT, a diferença é só de grau”.

Daí em diante, o texto passa a ser uma citação de inúmeros exemplos de como os governos do PT seriam, de acordo com o PSTU, direitistas: a intervenção no Haiti, as concessões parciais do Pré-sal, a Lei Antiterrorismo, as tentativas de reformar a Previdência etc. Todos esses exemplos são verdadeiros, mas a conclusão que é absolutamente errada. As medidas direitistas do governo Lula e do governo Dilma Rousseff são resultado da política de conciliação de classes — isto é, das tentativas inócuas do PT de firmar um acordo com a burguesia —, e não propriamente do interesse dessas figuras em atacar a população. O caso de Dilma é, talvez, ainda mais esclarecedor: justamente quando estava na iminência de ser derrubada, a petista se propôs a fazer um ajuste fiscal para tentar agradar seus adversários.

O que o PSTU precisaria explicar, no entanto, é: que importância tem hoje que os governos do PT se basearam na política de conciliação de classes, e não em uma política revolucionária? Absolutamente nenhuma. A conciliação de classes é uma política que se desenvolve em situações concretas, e não simplesmente na cabeça das pessoas, como o PSTU faz crer.

Em 2002, quando Lula chega à presidência da República, a burguesia, por meio de uma série de operações, permitiu que o PT ingressasse, ainda que parcialmente, no regime. E essa permissão só se deu porque a burguesia tinha uma espécie de “garantia” — embora nunca haja garantias reais na política — de que o governo não romperia com a ordem social: a frente popular.

Costurada desde 1989, a frente popular infiltrou, no mesmo movimento que apoiava uma liderança popular como ex-presidente Lula, uma série de elementos reacionários, como o próprio MDB. A burguesia tinha o cálculo de que entre permitir a frente popular, sob seu relativo controle, vencer as eleições ou o PSDB continuar liquidando o País e deixá-lo à beira de uma insurreição, seria melhor conceder o ingresso do PT no regime.

Hoje, a situação é bastante diferente. A burguesia está em uma brutal ofensiva contra os trabalhadores, motivada pela crise de 2008. Uma ofensiva tão agressiva que é incapaz de conviver com um governo conciliador como foram o governo de Lula, o governo de Evo Morales ou o governo de Rafael Correa, pois as mínimas concessões que a classe dominante foi obrigada a fazer nesses governos representariam a falência de inúmeros setores. A burguesia não quer uma aliança com Lula, que tem por trás de si um movimento poderosíssimo e que demanda por inúmeras reivindicações. A burguesia quer excluir Lula e o PT do regime político.

E é justamente por estar sob ataque, por compreender, pela própria experiência, que a Rede Globo, o PSDB e a direita em geral querem, se possível for, trancafiá-lo até o resto de sua vida, que Lula está adotando uma posição cada vez mais radical na situação política. Se há alguma contradição entre o discurso de Lula e seu governo, isso não demonstra uma demagogia, mas sim que a situação política evoluiu, e que Lula, como um elemento muito ligado à classe operária, está acompanhando essa evolução.

A análise equivocada do PSTU sobre a figura de Lula, portanto, é uma análise equivocada sobre todo o movimento operário brasileiro. Um partido que é incapaz de enxergar as diferenças entre uma liderança popular e um político do DEM, entre o nacionalismo burguês e a extrema-direita, é incapaz, portanto, de compreender, na essência, como as classes sociais se manifestam. E é, portanto, incapaz de intervir na realidade de maneira a guiar a classe operária rumo a seus objetivos.

E a prova disso está na própria conclusão que o PSTU tira de sua análise:

“O grande serviço que ele presta aos poderosos do mundo é vender a ilusão da possibilidade de consertar as coisas nessa sociedade podre, para que as massas não façam revolução. Não precisamos de um novo governo Lula com a burguesia. Precisamos de um governo de trabalhadores sem patrões, um governo socialista onde o povo tome o seu destino em suas próprias mãos”.

Como partido pequeno-burguês e revisionista que é, o PSTU se apega mais aos discursos de Lula do que em uma análise concreta da realidade. Concentrado em encontrar algum motivo para atacar Lula após suas falas, deixa escapar pelos seus dedos todas as ferramentas para a revolução de que tanto faz alarde.

Todos os eventos mais importantes da luta contra o golpe tiveram, no centro da mobilização, o ex-presidente Lula. Os atos contra o impeachment que foram mais massivos foram aqueles em que o ex-presidente esteve presente. Foi em nome de Lula que milhares de pessoas se dispuseram a enfrentar a Polícia Federal no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. E foi pela liberdade de Lula, que ativistas e militantes de todo o País percorreram milhares de quilômetros para protestar em frente às masmorras de Curitiba. Em todos esses momentos, o PSTU esteve o mais distante possível dos trabalhadores: ora defendendo o Fora Dilma, ora pedindo a prisão de Lula. Nessas condições, somos obrigados a concluir que a revolução do PSTU se dará na cabeça de seus dirigentes, mas muito distante das massas.

Por fim, é preciso levar em consideração que a política do PSTU de convocar as massas a ignorarem a maior ferramenta que têm em suas mãos é uma política criminosa, que visa a deixar os trabalhadores completamente desprotegidos dos ataques da direita e da extrema-direita. Quanto mais a direita ataca o povo, mais o nome de Lula se ergue. E a possibilidade de Lula se colocar como uma alternativa a Bolsonaro dá calafrios em toda a burguesia.

Se o PSTU quer que Lula esteja mofando em uma cadeia e esquecido pelo povo, o partido morenista quer deixar os trabalhadores indefesos diante da ofensiva golpista. Em outras palavras, estará trilhando o caminho para que a direita controle novamente as eleições em 2022 e, de maneira ainda mais fraudulenta, eleja seu representante.

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