Jones Manoel
Na medida em que a polarização se intensifica, a pequena burguesia vai assumindo posições mais abertamente contrarrevolucionárias
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Caetano Veloso posa ao lado de Jones Manoel | Foto: Divulgação
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Caetano Veloso posa ao lado de Jones Manoel | Foto: Divulgação

Na última semana, Jones Manoel, youtuber filiado ao PCB, voltou a nos lembrar, desnecessariamente, que integra o setor da pequena burguesia brasileira que apoia o golpe de 2016. O blogueiro, deparado com o fim da fabricação de automóveis da Ford no Brasil, trocou os seguintes tweets com alguém que denunciava sua participação no golpe:

Já se passaram quase 5 anos desde que a direita golpista derrubou o governo Dilma Rousseff. O PT foi praticamente expulso de todas as instituições do regime político. Até mesmo nas prefeituras o partido teve uma perda gigantesca. A política levada pelos governos golpistas foram, todas elas, no sentido de destruir o pouco que os governos petistas anteriores fizeram. Sendo assim, como a situação atual do País poderia estar vinculada ao governo que foi derrubado?

Evidentemente, não há sentido algum nisso. A menos que Jones Manoel, ecoando o que o PSTU dizia à época, considere que não houve um golpe de Estado. Que, na melhor das hipóteses, a deposição de Dilma Rousseff foi um “golpe palaciano”: mudou-se, por motivos secundários, o governante, mas o regime político se manteve intacto.

O regime político mudou, sim, e de maneira muito significativa. O golpe de Estado não se resumiu a uma votação na Câmara dos Deputados. Ao mesmo tempo em que isso acontecia, a direita articulava a prisão do maior líder popular do Brasil e o principal dirigente do PT, partido derrubado no golpe. Junto a isso, a burguesia reorganizou o STF, de modo a garantir que as alas mais pró-imperialistas dominassem a Corte. A extrema-direita fascista foi impulsionada para sair às ruas e tornou-se um fator determinante e permanente na situação política. As eleições tornaram-se visivelmente ainda mais fraudadas. As mortes no campo e nas periferias aumentaram de uma maneira extraordinária. Os militares, que estavam desmoralizados após anos de uma ditadura sangrenta e odiada, levantaram a cabeça e passaram a atuar na linha de frente do regime. A imprensa burguesa se cartelizou ainda mais e passou a atacar e difamar abertamente seus adversários políticos, ao mesmo tempo em que foi se especializando na censura dos setores rebeldes à dominação dos golpistas.

Houve, sim, um golpe. Porque o regime político, de conjunto, mudou. E esse golpe, por sua vez, não foi dado pela vontade individual de alguém, mas sim por uma necessidade da burguesia imperialista. O fechamento do regime — isto é, o estabelecimento progressivo de uma ditadura — tem um motivo muito bem definido: o programa que a burguesia precisa levar adiante só pode ser defendido através de uma ditadura. Afinal, quanto mais direitos democráticos, maior a possibilidade de contestação das medidas criminosas do regime. Quanto menos controladas e menos burocráticas forem as instituições, mais refletirão a crise do regime.

Neste sentido, o golpe não é um processo que pode ser separado da política econômica que os governos brasileiros vinham aplicando. O fato de Dilma Rousseff indicar como ministro da Fazenda um homem dos bancos, que acabaria sendo contratado futuramente pelo governo Temer, é, em si, um golpe. Mas não um golpe do PT: na medida em que o governo petista se viu obrigado a levar uma política diferente da sua porque se sentiu ameaçado, há, aí, um processo golpista em marcha.

Afinal, no momento em que Dilma Rousseff nomeou Joaquim Levy e se propôs a fazer um tímido ajuste fiscal, seu governo já estava sofrendo toda a pressão do fechamento do regime. A imprensa já estava atacando duramente seu governo, a polícia estava perseguindo os dirigentes petistas, a extrema-direita estava saindo às ruas etc.

A crítica em abstrato da política do governo Dilma, portanto, é ignorar completamente o golpe. E, portanto, é isentar os golpistas pela responsabilidade de ter pressionado todos que estavam a seu alcance para seguir a sua política. No fim das contas, trata-se de uma defesa do golpe de Estado e dos golpistas: o problema não seria a ofensiva da burguesia contra os trabalhadores, mas sim a política individual de Dilma Rousseff.

O caso hoje, da Ford, é a mesma coisa: segundo Jones Manoel, a Ford não saiu do Brasil por causa do abismo econômico no qual os golpistas jogaram o País. A culpa, finalmente, seria dela, sempre ela: Dilma Rousseff, que adotou o programa dos golpistas de sua própria cabeça.

Embora Jones Manoel cobre de Dilma Rousseff a capacidade de enfrentar os golpistas de maneira intransigente, passa o pano para as capitulações mais grotescas da história. Jones Manoel é um defensor do legado de Stálin e, quando a esquerda se radicalizou contra o Carrefour, mandou todos ficarem em casa…

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