O futuro da esquerda
Valerio Arcary inventa uma história para explicar porque o PSOL e Boulos se tornou o queridinho da direita
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no telegram
Compartilhar no email
Compartilhar no reddit
boulos
Boulos e imprensa golpista | Arquivo

Na última segunda-feira, dia 30, publicamos um artigo criticando a posição do dirigente da corrente interna do PSOL, chamada Resistência, Valério Arcary, sobre a candidatura de Guilherme Boulos. A coluna de Arcary foi publicada primeiro no portal do Brasil 247, intitulada “Boulos, nosso monstro”, no dia 28.

Posteriormente, no dia 30, Arcary publicou a mesma coluna no sítio de sua organização, o Esquerda online, com um título diferente: “Boulos e o futuro da esquerda”. Não sabemos o porquê da mudança no título, mas talvez expresse o efeito do resultado eleitoral sobre a esquerda.

No primeiro artigo criticamos a euforia de Arcary em relação a Guilherme Boulos e as eleições e a cegueira oportunista que leva o autor a apresentar a mesma tese que está sendo abundantemente apresentada por toda a direita: o PSOL substituiu o PT e Boulos deve substituir Lula e pode ser o nome forte da esquerda daqui para frente.

Quando dizemos que tal opinião é apresentada por toda a direita não há nenhum exagero nisso. Os jornais da direita golpista bem pensante, a Folha de S. Paulo, o Estado de S. Paulo, O Globo etc. escolheram Boulos, desde o início das eleições, como o grande nome da esquerda. Terminadas as eleições, reforçaram tal política em seus balanços. Mas não apenas os representantes da direita nacional apresentaram tal balanço: o vice presidente, General Hamilton Mourão afirmou, em entrevista à Band News que “Lula é passado, PT precisa de uma nova liderança”, que vai no mesmo sentido das demais declarações sobre a “renovação da esquerda”.

O jornal de extrema-direita, Jornal da Cidade Online, também aderiu à mesma política: “O PT está morto, mas o seu cadáver permanece insepulto”, explicando que “É notório que o Partido dos Trabalhadores perdeu a hegemonia que tinha no campo da esquerda. O PSOL conquistou sua primeira prefeitura de capital em Belém do Pará e avançou muito nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo”.

Nada disso é explicado por Valerio Arcary que no mínimo deveria analisar de onde vem a euforia da imprensa golpista e da direita de modo geral em relação ao PSOL.

Na realidade, trata-se de uma falsificação da direita que a esquerda pequeno-burguesa repete, acreditando que pode conquistar seu lugar ao sol no regime político golpista.

 

O que é o PSOL?

 

Para explicar o eufórico e retumbante crescimento do PSOL, Valerio Arcary conta uma história mitológica de Boulos e do partido. 

“O PSOL surge como uma ruptura pela esquerda do PT quando, depois da posse do governo Lula, fica clara a opção estratégica pela preservação do tripé macroeconômico de busca de um superávit fiscal, câmbio flutuante e metas de inflação através de taxas de juros elevadas na gestão Palocci. É impulsionado pelo movimento real da resistência à reforma da previdência de 2003. Vive um processo lento, mas contínuo de fortalecimento como oposição de esquerda até 2014. Mas passa a ser uma referência observada por milhões desde 2016, como ficou claro no Rio de Janeiro.”

Vejamos ponto a ponto a análise arcariana sobre o PSOL. Segundo ele, teria ficado clara a opção do PT por uma “estratégia de preservação do tripé macroeconômico de busca do superávit fiscal”. Se acreditássemos em tal análise deveríamos ignorar que Lula, ao ser eleito em 2002 já havia acenado para tal política. Mais ainda, a política que o PT até então havia levado adiante nas prefeituras e governos estaduais que governou foi exatamente essa. Mas um detalhe “escapa” da análise de Arcary: todos os membros do PSOL que decidiram sair do PT no segundo ano de governo Lula estiveram dentro do PT e participaram ativamente, dando apoio a essa política, inclusive na eleição de Lula.

Não há de fato uma ruptura como diz Arcary, mas uma mera manobra oportunista de alguns políticos e parlamentares pequeno-burgueses que procuravam preservar suas bases no funcionalismo público, descontentes com a reforma da Previdência de Lula, e se apresentaram com um discurso demagógico esquerdista contra o governo Lula., com amplo apoio da direita que os apresentou como “radicais”e lhe deu amplos espaços para atacar o PT, em benefício da própria direita.

Hoje, passados 15 anos da fundação do PSOL, fica claro que tudo não passava mesmo de um discurso demagógico. Os candidatos do PSOL se apresentaram nessas eleições como dispostos a respeitar todos os ditames econômicos da burguesia. Boulos se apresentou como o candidato moderado que não vai demonizar os bancos e que vai respeitar todos os acordos e a famigerada lei de responsabilidade fiscal. Marcelo Freixo já havia feito isso em 2016 quando foi ao segundo turno no Rio de Janeiro, contando com o apoio da Globo.

Outra história da carochinha contada por Arcary é o papel do PSOL em 2014 e 2016. Com o desenvolvimento da ofensiva golpista da direita, o que Arcary apresenta como o fortalecimento do partido como “oposição de esquerda” não foi nada mais do que o aprofundamento das tendências direitistas e de classe média do partido. O crescimento do PSOL é produto da política golpista que foi acompanhada pelo partido. Elementos do PSOL, como Luciana Genro, chegaram a defender o golpe e a Lava Jato. Outros tiveram posição ambígua. Na realidade, a única aparição do PSOL contra o golpe foi na votação do impeachment, que não passava de mera demagogia parlamentar. Desde essa época, a política do PSOL foi a de procurar surfar na onda golpista e tomar o lugar do PT, se apresentando como o partido “ético da esquerda”.

Nessa política ambígua e golpista está inserido Guilherme Boulos, o “monstro” de Arcary. E aí, podemos levantar aqui a outra mitologia levantada pelo autor.

“Boulos ganhou autoridade depois das jornadas de junho de 2013 porque, justamente, manteve independência do governo liderado pelo PT. Boulos foi o porta-voz do MTST e nessa condição liderou mobilizações de massas contra o governo Dilma Rousseff, quando a imensa maioria da esquerda estava integrada à gestão do PT. Mas depois, nas mobilizações contra o impeachment, esteve lealmente ao lado do que se opuseram ao golpe e na primeira linha do Fora Temer.”

Aqui, ao defender a “independência de classe” de Guilherme Boulos, Arcary deixa passar o que realmente houve. Boulos não lutou contra o golpe. Foi o líder do movimento “Não vai ter Copa”, impulsionado pela direita contra Dilma. Nas manifestações contra o impeachment, Boulos se colocava como uma ala direita no movimento introduzindo não a palavra de ordem de luta contra o golpe mas de “luta contra os ajustes de Dilma”, servindo como elemento de confusão e portanto aos interesses políticos dos golpista quando era óbvio que naquele momento a única política da esquerda seria uma frente única contra o golpe de Estado.

A mesma posição Boulos apresentou em relação a Lula. A defesa de Lula não passava da presença demagógica e eleitoreira no palanque. Não houve nenhum esforça de Boulos e do PSOL em uma luta efetiva pela libertação do ex-presidente. Pelo contrário, a todo o momento a política do “Lula livre” era apresentada como algo que “não unificava”. Palavras dita por Marcelo Freixo.

É essa política direitista que faz do PSOL não o grande partido de esquerda como quer Arcary, mas o partido preferido da direita para substituir a pedra no sapato da direita que é Lula. O ex-presidente, ao contrário de Boulos e do PSOL, não conta com a bajulação da direita, justamente porque os golpistas querem se livrar da base popular de Lula. Os psolistas mostram que continuam fazendo o papel da direita e sua política é exatamente a que sempre foi. Criar uma alternativa pequeno-burguesa de esquerda ao PT, “ética” e moderada, como afirmou o próprio Guilherme Boulos nas eleições.

Compartilhar no facebook
Compartilhe no seu Facebook!
Compartilhar no twitter
Tuite este artigo!
Compartilhar no whatsapp
WhatsApp
Compartilhar no telegram
Telegram
Compartilhar no email
Email
Compartilhar no reddit
Reddit
Compartilhar no facebook
Compartilhe
Compartilhar no twitter
Tuite este artigo!
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no telegram
Compartilhar no email
Compartilhar no reddit
Relacionadas