A questão da frente única
Colunista Jeferson Miola usa até o revolucionário Leon Trótski para justificar o apoio a Maia
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Bloco do Maia | Reprodução

Em meio ao debate sobre a decisão da esquerda de apoiar o bloco da direita golpista, chefiado por Rodrigo Maia (DEM), o colunista Jeferson Miola escreveu para o portal Brasil 247 um artigo chamado “A tática antifascista da esquerda na eleição da Câmara”, que já pelo título mostra bem a confusão da esquerda em relação à situação política no País.

Para Miola, a tática adotada pelo PT é a correta porque representa uma frente contra o fascismo que vem se aprofundando no País: “a tática adotada pelo campo político de esquerda/centro-esquerda [ainda pendente de posicionamento oficial do PSOL] representa a escolha adequada para este momento histórico nacional.”

Para ele, portanto, a aliança com partidos da direita golpista, entre eles o próprio PSL bolsonarista, seria a maior esperteza que se poderia levar adiante na luta contra Bolsonaro e consequentemente o fascismo.

Pareceria óbvio se disséssemos que a posição de Miola ignora o fato de que o bloco liderado por Maia, do qual faz parte a nata dos partidos golpistas como DEM, PSDB e MDB, é o principal responsável pelos ataques brutais contra o povo brasileiro. Mas o colunista não ignora esses fatos:

“Em que pese durante sua gestão Maia ter autocraticamente engavetado quase 60 pedidos de impeachment do Bolsonaro e ter sido o artífice da aprovação da agenda bolsonarista ultraliberal de destruição da soberania nacional e dos direitos dos trabalhadores para viabilizar o mais devastador processo de pilhagem e saqueio das riquezas do país, Maia e sua facção não serviram ativamente como motor para a escalada fascista.”

O que mais Jeferson Miola gostaria que Maia fizesse para se tornar o “motor para a escalada fascista” no País? É até difícil imaginar. A conclusão óbvia dos fatos – ter engavetado os quase 60 pedidos de impeachment, o que torna Maia uma base fundamental de sustentação de Bolsonaro, ser o artífice da destruição da soberania e dos direitos dos trabalhadores – é a de que Maia e seus aliados são na realidade os principais articuladores da “escalada fascista”. É tanta responsabilidade que resta pouco para Bolsonaro fazer, já que Rodrigo Maia tratou de passar tudo.

A única explicação para uma conclusão tão desvinculada da realidade é a de que Miola enxerga o fascismo como uma abstração acadêmica. O fascismo não é a política de fome, a devastação dos direitos dos trabalhadores, o retrocesso nas condições de vida do povo. O fascismo, para Miola e para boa parte da esquerda pequeno-burguesa, são as declarações de Bolsonaro. A esquerda inverte a realidade: para ela, é mais perigoso os arroubos e excessos discursivos de Bolsonaro do que a política efetiva e organizada da direita golpista.

E foi exatamente essa política da direita tradicional que levou ao golpe, à devastação dos direitos, a ao bolsonarismo e ao próprio Bolsonaro. E, como bem explicou Jeferson Miola, à sustentação de Bolsonaro pela Câmara dos Deputados, apesar dos quase 60 processos de impeachment.

Para justificar sua defesa da aliança da esquerda ao bloco dos golpistas, Jeferson Miola mais uma vez comete o erro crasso muito comum entre os que vêem a política como abstração acadêmica. Procura adequar a realidade à teoria, ou seja. muda a realidade para forçar a análise.

Miola usa Leon Trótski para justificar a aliança com Maia. Justamente o marxista que melhor compreendeu o fascismo e a política adequada para enfrenta-lo, é usado para justificar a capitulação diante do fascismo. Afirma o colunista em seu artigo:

 “Em texto de dezembro de 1931, escrito no contexto do ascenso inexorável de Hitler ao poder, Leon Trotsky defendeu o entendimento de que, para deter o avanço nazista, ‘Pode-se fazer acordos com o próprio diabo, com sua avó e até mesmo Noske e Grzesinsky [dirigentes do partido social-democrata], com a única condição de não atar-se as mãos’, ou seja, com a condição de não subordinar-se politicamente à classe dominante.”

Vejamos ponto a ponto a citação feita do revolucionário marxista. O primeiro erro de Miola é comparar a social-democracia alemã com a direita golpista brasileira. Trótski elabora, nesse período, uma política que visava unificar as organizações do movimento operário para derrotar o fascismo. Propunha, assim, uma frente única entre o Partido Comunista e a social-democracia. Ambos eram partidos operários e de esquerda, embora reformistas. Por isso Trótski afirmava que os revolucionários deveriam se unificar contra o nazismo mas sem subordinar-se à política dos reformistas.

Ao objetivo de Trótski ao propor essa política era unificar principalmente as bases desses partidos. A social-democracia tinham o controle e influência na maioria dos sindicatos alemãs.

O equivalente da social democracia brasileira, seria o PT e não o PSDB, como parece fazer crer o articulista, valendo-se da confusão dos nomes, o que só se justificaria para pessoas sem o menor conhecimento da realidade de ambos os países e dos seus processo históricos.

De acordo com o raciocínio de Miola, o PSDB, o MDB e até o DEM, seriam a social-democracia. A próprio formulação da frase já demonstra o absurda da comparação. São não apenas partidos burgueses, como são partidos da direita burguesa e estão muito longe de serem partidos com alguma ligação com as organizações da classe operária.

Outro erro crasso diz respeito à forma como Trótski propõe a frente contra o fascismo. Em primeiro lugar, trata-se de uma frente única de ação, em que a classe operária é chamada a derrotar os fascismo nas ruas, em armas, constituindo conselhos populares independentes.

Trótski escreveu inúmeros textos orientando sobre a política dos revolucionários diante do nazismo. Miola se apega a um trecho de um texto e acredita ser suficiente para explicar a situação brasileira e justificar um bloco no parlamento para conquistar cargos e vantagens para seus integrantes.

Ao defender uma frente única, Trótski não apenas se referia à luta revolucionária nas ruas contra o fascismo como criticava a política oportunista e parlamentar da esquerda. Mostrava que tal política favorecia o crescimento do fasciosmo e foi exatamente o que aconteceu. No mesmo texto citado por Miola, Trótski afirma:

“Uma coligação eleitoral, um acordo parlamentar, fechados entre um partido revolucionário e um social-democrata, como regra geral, serão em favor do social-democrata. Um acordo prático para a ação de massas, para os objetivos da luta, será sempre conveniente ao partido revolucionário.”

Essa passagem mostra que para Trótski, era preciso organizar não um acordo parlamentar mas um acordo prático, e tal acordo prático deve via de regra favorecer os revolucionários.

A decisão da esquerda em integrar o bloco de Maia é a repetição do erro cometido pela esquerda na Alemanha que substituiu a luta prática pelos acordos parlamentares com os representantes da burguesia. Tal erro foi fatal para o crescimento do nazismo e o estabelecimento de Hitler ao poder.

O bloco com Maia é, portanto, não um bloco antifascista como quer Jeferson Miola, mas um bloco com os fascistas (mesmo que estes agora venham disfarçados de democratas) cuja único resultado será o fortalecimento do fascismo.

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