Um ano de um assassinato político: direita faz de tudo para esconder a verdade sobre o caso Marielle Franco

People take part in a rally against the murder of Brazilian councilwoman Marielle Franco, in Sao Paulo

Às vésperas de completar-se um ano dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, a prisão dos dois ex-policiais militares apresentados como supostos executores do crime, o sargento aposentado Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz, além de confirmarem a participação direta de elementos ligados ao aparato repressivo estatal e paraestatal e muito próximos (segundo apontam as “coincidências”) do presidente ilegítimo Jair Bolsonaro, intensificarem a enorme crise política que atravessa o governo ilegítimo, vão jogando por terra um conjunto de “análises” absurdas a respeito do ocorrido.

Uma questão que fica evidente é que a intervenção militar no Rio de Janeiro – que nunca teve a intenção de “combater a violência” como anunciavam os golpistas e sua venal imprensa burguesa – não apenas criou condições mais facilitadas para as execuções (da mesma forma que para uma matança ainda mais intensa nas comunidades operárias do Rio), como serviu para encobrir durante todo esse tempo os assassinos e seus mandantes ou consorciados. É bom lembrar que durante praticamente todo o ano de 2018 o Estado do Rio esteve sob intervenção das Forças Armadas. Oficialmente, inclusive, a intervenção se deu justamente a Secretaria de Segurança do Estado que, nesse período, não apontou nenhuma conclusão sobre o crime. Isso tudo em um momento em que a extrema-direita se preparava para tomar o poder no País.

Ao longo desse período muitos setores, inclusive da esquerda pequeno-burguesa, procuraram apresentar a tese absurda do “crime de ódio”, como se o caso – assim como vários outros que atingiram dirigentes e militantes da esquerda em todo o País – não se tratava claramente de uma ofensiva de setores da direita – conectados e acobertados por elementos e estruturas do regime golpista – que levam adiante não uma política de ódio, em geral, mas de ódio, perseguição e repressão contra os trabalhadores e a esquerda e suas organizações.

A apresentação dos supostos executores do crime está longe de esclarecer o ocorrido e evidencia a crise e a divisão no interior do aparato de segurança do Rio e do conjunto do regime golpista. Os acusados foram presos por ordem de um juiz-substituto do 4º Tribunal do Júri, Guilherme Schilling Pollo Duarte, após denúncia do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) do MPRJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) e o delegado apresentado como responsável pelas investigações e que chegou a citar as proximidade do suposto assassino como presidente da República (mesmo alegando que “isso não estava sendo investigado”), acaba de ser afastado do caso, “premiado” com um curso no exterior.

É evidente que há uma crise na qual, por detrás da apresentação de fatos e provas circunstanciais, realiza-se um enorme esforço para ocultar as relações mais profundas dos acusados com personalidades do golpe, como o próprio presidente e sua família, e com a superestrutura criminosa que atua no Rio de Janeiro e, por certo, em todo o País.

Todo o País viu fotos dos supostos assassinos ao lado do presidente; viu que o suposto atirador reside no mesmo condomínio luxuoso da família presidencial, na região nobre da Barra da Tijuca; e foi informado pelo delegado afastado que até relações de namoro dos filhos aproximam por demais os acontecimentos do presidente da República.

Também veio à tona o verdadeiro arsenal com – pelo menos – 117 fuzis de alto valor (cerca de R$ 40 mil cada)  e periculosidade, pretensamente sob a posse do sargento incriminado, deixando claro que – nem de longe – estamos diante de uma ação individual, indivíduos isolados, mas de uma ação criminosa de elementos com vínculos com o aparato repressivo e com as instituições e elementos de proa do regime golpista.

O que se mostrou até agora no Rio de Janeiro não é mais do que a ponta de um gigantesco iceberg, da máquina de perseguição e massacre de trabalhadores, de suas lideranças políticas, da esquerda, desenvolvida por setores vinculados ao imperialismo norte-americano que se organizaram por fora da Lei e por dentro do aparato repressivo para tomar de assalto o governo do País e levar adiante uma política de destruição da economia nacional e de ataque a tudo que diga respeito às necessidades e interesses do povo brasileiro.

Com o governo na corda bamba, as diversas frações da burguesia parecem, ao menos por enquanto,  que nem de longe estão dispostas a levar adiante e a fundo qualquer elucidação dos acontecimentos o que poderia fazer desmoronar não só o governo ilegítimo e cambaleante de Bolsonaro, como provocar fissuras profundas em todo o regime golpista.

As organizações dos trabalhadores devem denunciar as manobras nesse sentido, de forma alguma se comprometer com qualquer uma das alas em disputa e tampouco dar cobertura à fraude propondo uma “apuração” comum com os golpistas, como é o caso da proposta de iniciativa de CPI no Congresso dominado pela direita reacionária, levantada pelo Psol.

É preciso exigir que a investigação seja tornada pública, acessível a todos os interessados.

Contra a politica reacionária da esquerda pequeno-burguesa, de tirar um possível e duvidosos proveito eleitoral dos acontecimentos, em conluio com setores golpistas, a tarefa fundamental é impulsionar a mobilização – sem se deixar confundir pelas manobras que a direita vai buscar realizar  – no sentido de levantar um gigantesco movimento de luta pelo Fora Bolsonaro e todos os golpistas e assassinos de Marielle, Anderson e milhares de pobres e negros na periferia do Rio e de todo o País, pela liberdade de Lula e pela derrota da ofensiva da direita em todos os terrenos.