Truques e trapaças dos coxinhas de esquerda nas eleições do Andes parte III : “ autonomia em relação aos governos” serviu para não defender o governo eleito derrubado pelos golpistas

Nas eleições para o Andes, a chapa 1, a chapa da diretoria que negou o golpe, escolheu como mote principal e único a defesa da “autonomia “ sindical. Como já indicamos, a “autonomia em relação a partidos” além de ser algo reacionário, uma espécie de “ sindicato sem partido” no bom estilo  MBL e  dos bolsomínions , representa uma farsa , uma vez que a chapa “ apartidária” é na verdade uma chapa dos partidos da esquerda pequeno-burguesa, agrupamento setores do PSOL com o PCB, apoiados pelo PSTU.

A “autonomia em relação a partidos” da chapa do PSOL não somente é tentativa de esconder que a chapa 1 é uma chapa do PSOL, mas visa explorar o atraso político do “ apartidarismo” existente em uma categoria com preconceitos típicos da classe média.

Na campanha eleitoral nas redes sociais, chega a ser cômico, para não dizer ridículo, que a chapa 1 apresenta cards de ilustres dirigentes do PSOL (por sinal, os que se recusaram a lutar contra, como o ‘radical’ de esquerda Plinio Sampaio Jr) falando que é preciso apoiar a chapa do partido deles por ser “autônoma em relação a partidos”.

Evidentemente que os membros ou apoiadores da chapa 1, que são filiados  ao PSOL, ao PCB ou ao PSTU (que declarou apoio à chapa que negou o golpe) pode demostrar indignação diante da critica, mas isso faz parte da confusão política montada pelos “apartidários” da esquerda pequeno burguesa.

Em todo caso, a palavrinha “autonomia” parece irradiar na imaginação fértil da classe média uma esperança de “independência” em abstrato em relação a tudo que parece “feio”, “sujo” e “malvado” na luta de classes, como partidos e governos.

Associado a isso, a  autoproclamação de “combatividade” e permanente política ultimatista da “esquerda radical” funciona como uma especie de salvo conduto para as maiores bizarrices políticas, como a aliança com o imperialismo norte-americano na Venezuela, com o “Fora Maduro” da CSP/PSTU.

No caso das eleições do Andes, a chapa 1 usa a noção de “autonomia” como uma varinha de condão em praticamente todas as questões, acreditando que com isso pode se furtar a fazer uma verdadeira discussão política.

A noção de “autonomia frente aos governos” parece indicar que a chapa 1 defende os interesses dos trabalhadores e a independência do Andes, enquanto entidade representativa dos trabalhadores como principio norteador. Entretanto, gostaria de chamar a atenção do leitor para o fato de que mesmo neste caso a suposta defesa da “autonomia” nada mais é do que o inverso do que é propalado.

Assim, a chapa 1, a chapa da diretoria que negou o golpe, utiliza-se do mantra “autonomia em relação aos governos” para fugir da imperiosa questão: Por que a diretoria do Andes não lutou contra o golpe da direita que derrubou o governo Dilma Rousseff?

Quando a chapa 1 fala de “autonomia em relação a governos” quer dizer que o Andes não poderia defender o governo Dilma, com mandato conquistado nas urnas, diante do golpe da direita.

Nessa tacanha visão doutrinária ultraesquerdista, defender a democracia e a vontade popular expressa no voto de 54 milhões de eleitores seria um ato “ governista”, e que portanto o sindicato teria que se abster em nome da pretensa “autonomia”.

No fundo, mais uma vez, a visão de “autonomia sindical” em relação aos governos da esquerda pequeno burguesa é falsa, pois diante da luta entre as forças políticas na crise política em 2016 , ficar em cima do muro, em suposta neutralidade diante dos conflitos que envolve o poder político é uma atitude de capitulação política diante da direita. O correto seria sim lutar pela permanência do governo Dilma, o que não significaria apoiar as medidas do governo, mas se posicionar politicamente, enfrentando os objetivos golpistas das classes mais reacionárias.

A política da diretoria do Andes, totalmente a reboque  da central do PSTU, representou um erro colossal, pois não enfrentou a direita e estabeleceu o PT e o governo que estava sendo deposto como inimigo principal em nome da “autonomia diante do governo”. Isso representou,  a a adoção de uma versão atenuada da concepção sectária do “Fora Todos” da esquerda golpista que controla a CSP.

A política  da diretoria do Andes de negação do golpe de Estado da direita não é um problema meramente sindical. Não defender um governo eleito diante de um golpe da direita não significou de forma alguma uma questão de “autonomia diante do governo” como procura apresentar a chapa 1, mas representou o inverso, ou seja  o Andes perdeu a sua autonomia em relação a campanha ostensiva da direita contra o PT, ficando completamente à deriva como entidade de luta.

Essa verdadeira capitulação política, fruto de um esquerdismo inconsequente  precisa ser compreendida a partir da análise da cegueira política da esquerda pequeno-burguesa, que controlava as decisões da diretoria do Andes durante a crise política.

Para a esquerda pequeno-burguesa, a “autonomia diante do governo” era um disfarce perfeito para esconder a ausência de luta contra a direita, expressa na recusa em enfrentar a intensa campanha da direita pela derrubada do governo Dilma.

Por sinal, o cálculo mesquinho que acalentava as ilusões oportunistas do PSOL e do PSTU era que com a queda do PT finalmente a esquerda “revolucionária” poderia ocupar o lugar da esquerda reformista tradicional. Assim, o PSTU almejava conquistar os sindicatos da maior central operária da América Latina para a sua “central” de faz-de-conta, enquanto a esquerda eleitoreira no estilo PSOL (alguns setores dentro do próprio PT também) esperava herdar os votos dos eleitores desiludidos com o lulismo.

Não é por acaso que Luciana Genro e outras correntes do PSOL defenderam ardorosamente a Operação Lava Jato, uma farsa policial/judicial para incriminar o PT e criar as condições do golpe de Estado. Por sua vez, o PSTU e sua “central” de araque, defenderam abertamente a derrubada do governo Dilma e de “todos”, sendo que o único governo que estava ameaçado era concretamente o governo do PT.

A “autonomia diante dos governos” também serviu como uma forma de pressão política ou de assedio moral por parte da esquerda pequeno burguesa ” combativa”    contra os setores centristas do movimento docente, em especial em relação aos simpatizantes do PT. Assim, qualquer um que tivesse a ousadia de se levantar contra os golpistas, que mesmo timidamente falasse em defender a democracia, ou cogitasse participar de manifestação do movimento “Não vai ter golpe” era torpedeado como sendo “governista” e responsabilizado por tudo de ruim ( real ou imaginário)  que o governo Dilma fazia.

A esquerda pequeno burguesa reproduzia, ou melhor, traduzia em linguagem esquerdista a política reacionária dos coxinhas da direita (na verdade, da burguesia e da sua imprensa venal) no interior do Andes. Não se devia lutar contra o golpe, pois “não havia golpe” ou pior “os golpistas eram Lula e o PT”.

A noção de “ autonomia diante dos governos” reivindicada inocentemente pela chapa 1 serviu para incriminar quem lutava contra o golpe como sendo o pior dos seres, um “ governista”. Esse linguajar semi-anarquista e porque não dizer semi-fascista da diretoria do Andes substituía a luta de classes, pela oposição entre os maus “governistas” e bons “não governistas”.

No frigir dos ovos, a “autonomia em relação aos governos “ da diretoria do Andes teve como resultado prático a união dos “não governistas” da esquerda  coxinha com a direita coxinha para combater  os “ governistas”.

A questão do controle do Estado pelas forças golpistas tem alcance maior do que a mero afastamento do PT do governo federal. A realização da Reforma Trabalhista e os ataques aos direitos sociais e democráticos da população, bem como os desdobramentos que indicam um aprofundamento do golpe, como o assassinato da vereadora Marielle Franco, nos tiros na caravana de Lula e a intervenção militar no Rio de janeiro demostram que a política da esquerda pequeno burguesa de não lutar contra o golpe, em nome de que o PT é igual a direita não se sustenta na realidade.

É interessante notar que essa política de igualar a esquerda reformista com a direita reacionária é uma política que somente conduziu a desastres políticos. Essa política da esquerda pequeno-burguesa brasileira representa uma cópia( guardando as devidas proporções)  da política capituladora do stalinismo ao nazismo na Alemanha nos anos 30. A chamada política do terceiro período, do PCA (Partido Comunista Alemão) que dizia que a social-democracia era igual ao nazismo, serviu para desarmar os trabalhadores e permitiu a vitória dos nazistas em 1933, quase sem resistência.

A posição de “autonomia diante dos governos” da chapa 1 é demagógica e do ponto de vista instrumental serviu para justificar a inércia do Andes diante do golpe de 2016.

A falência política da diretoria pode ser comprovada em outra analogia histórica, caso adotássemos a noção de neutralidade de “autonomia diante dos governos” em 1964, qual resultado teríamos?  O Andes não defenderia o Governo Joao Goulart diante do golpe dos militares? E em 1954, o Andes estaria do lado da UDN e do imperialismo norte-americano contra o governo Vargas? Como vemos a política da diretoria do Andes não passa pelo crivo histórico, pois é na verdade, uma falácia utilizada por inermes que se recusaram a lutar contra os golpistas.

Entretanto, não posso deixar de mencionar, que por uma completa confusão política diante do golpe, setores que participaram da luta contra o golpe, abriram mão da defesa do mandato de Dilma, conquistado nas urnas, e embarcaram na canoa furada das “diretas já”. Uma questão elementar era  derrotar o golpe  e não apenas as medidas dos golpistas, o que significava objetivamente lutar pelo Abaixo o golpe, com o retorno do governo derrubado, mas isso até mesmo  setores do PT capitularam, advogando a desmoralizante campanha pela ” virada pagina do golpe”, ou seja conciliar com os golpistas.

No momento de maior fluidez do golpe, o processo de golpe de Estado não será resolvido de maneira indolor, a via de desenvolvimento da crise política, tende uma maior polarização política. A crise é mais profunda do que geralmente os analistas superficiais imaginam. A escalada repressiva, não é processo isolado, mas uma ameaça de conjunto. A extensão do regime repressivo a partir do golpe de estado, precisa ser enfrentado de maneira efetiva. A paralisia e letargia da esquerda (incluindo setores do PT e da esquerda pequeno burguesa) é obstáculo que precisa ser superado, através da proliferação de comitês de luta contra o golpe.

Neste sentido, as duras críticas feitas à esquerda pequeno burguesa da chapa 1 servem para indicar a necessidade de superar a confusão e construir amplo movimento contra o golpe no Andes.

As críticas não são um fim em si mesmo,  não são  uma “picuinha” sobre o passado, mas diz respeito ao desenvolvimento da crise política e do papel do sindicato nesta luta.

Uma questão interessante que já abordei nesta coluna, o fato de setores da chapa 1 hoje negarem que negaram o golpe, ou mesmo colocam ainda que formalmente o problema do golpe, não deve ser encarado apenas como algo eleitoreiro por parte da chapa 1, mas  indica um deslocamento político, que expressa o aumento da polarização política.

O ponto central é a necessidade  da constituição de uma frente única contra a direita, sendo importante a unidade do movimento docente para defesa da universidade e contra a escalada repressiva dos golpistas.