A luta anti-imperialista
O Diário Causa Operária traz ao leitor a tradução de mais uma entrevista do revolucionário russo, concedida em setembro de 1938, à Mateo Fossa.
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Leon Trótski | Créditos: Reprodução

Dando continuidade aos textos publicados por Leon Trótski (muitos deles inéditos em português), o Diário Causa Operária traz ao leitor a tradução de mais uma entrevista do revolucionário russo, concedida em setembro de 1938, pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial, à Mateo Fossa, líder operário argentino. Entre tantas outras, esta é mais uma das homenagens que prestamos ao criador do Exército Vermelho e continuador do legado de Vladimir Lenin em sua luta pela revolução socialista e contra a burocracia stalinista.

A LUTA ANTI-IMPERIALISTA É A CHAVE DA LIBERTAÇÃO[1]

Uma entrevista com Mateo Fossa

23 de setembro de 1938

Fossa: Na sua opinião, como se desenvolverá a atual situação na Europa?

Trótski: É possível que desta vez também a diplomacia consiga chegar a um compromisso corrupto. Mas não durará muito. A guerra é inevitável, e estourará num futuro imediato. As crises internacionais acontecem. Essas convulsões são as dores de parto da próxima guerra. Cada novo paroxismo será mais agudo e perigoso. Atualmente, não vejo no mundo nenhuma força que possa impedir o desenvolvimento desse processo, ou seja, o nascimento da guerra. Infalivelmente, um massacre horrível será a presa da humanidade.

É claro, uma oportuna reação revolucionária do proletariado internacional poderia paralisar o trabalho voraz dos imperialistas. Mas temos que olhar a realidade cara a cara. A imensa maioria das massas trabalhadoras europeias segue a liderança da Segunda e da Terceira Internacionais. Os dirigentes da Internacional Sindical de Amsterdã apoiam plenamente as políticas da Segunda e da Terceira Internacionais e participam com elas nas chamadas “frentes populares”[2].

A política da “frente popular”, como demonstram os exemplos da Espanha, França e outros países, consiste em subordinar o proletariado à ala esquerda da burguesia. Mas toda a burguesia dos países capitalistas, tanto de direita como de “esquerda”, está impregnada de chauvinismo e imperialismo. A “frente popular” serve para transformar os operários em bucha de canhão de sua burguesia imperialista. E para nada mais.

Na atualidade, a Segunda Internacional, a Terceira e a de Amsterdã são organizações contrarrevolucionárias, cujo objetivo é frear e paralisar a luta revolucionária do proletariado contra o imperialismo “democrático”. Enquanto a liderança criminosa dessas internacionais não for eliminada, os operários ficarão impotentes para oporem-se à guerra. Esta é a verdade amarga e inevitável. Temos que saber enfrentá-la e não nos consolar com ilusões e balbucios pacifistas. A guerra é inevitável!

Fossa: Quais serão as consequências da luta que está sendo travada na Espanha no movimento operário internacional?

Trótski: Para compreender corretamente o caráter dos próximos acontecimentos, temos, antes de tudo, que deixar de lado a falsa teoria, totalmente errônea, de que a guerra iminente será travada entre o fascismo e a “democracia”. Nada mais falso e tolo do que essa ideia. Seus interesses contraditórios dividem as “democracias” imperialistas em todo o mundo. Não seria difícil encontrar a Itália fascista do mesmo lado que a Grã-Bretanha e a França se perdesse a fé no triunfo de Hitler. A Polônia semifascista se juntará a um ou outro, dependendo das vantagens que lhes ofereça. No decorrer da guerra, a burguesia francesa, de modo a manter seus operários subjugados e forçá-los a lutar “até o fim”, pode substituir sua “democracia” pelo fascismo. A França fascista, como a “democrática”, defenderia suas colônias de armas nas mãos. O caráter voraz da nova guerra imperialista será demonstrado muito mais abertamente do que na de 1914-1918. Os imperialistas não lutam por princípios políticos, e sim por mercados, colônias, matérias-primas, a hegemonia sobre o mundo e toda a sua riqueza.

O triunfo de qualquer uma das facções imperialistas significaria a escravidão definitiva de toda a humanidade, o duplo encadeamento das atuais colônias e de todos os países débeis e atrasados, entre eles os povos da América Latina. O triunfo de qualquer uma das facções imperialistas traria a escravidão, a miséria, a decadência da cultura humana.

Qual é a saída, você me pergunta? Pessoalmente, não tenho dúvidas de que uma nova guerra provocará uma revolução internacional contra o domínio da humanidade pelas vorazes camarilhas capitalistas. Durante a guerra, desapareceram todas as diferenças entre a “democracia” imperialista e o fascismo. Uma ditadura militar implacável será imposta em todos os países. Os operários e camponeses alemães morrerão como os franceses e os ingleses. Os modernos meios de destruição são tão monstruosos que a humanidade provavelmente só será capaz de suportar a guerra por alguns meses. O desespero, a indignação, o ódio, levarão as massas de todos os países beligerantes a se levantar com armas nas mãos. O triunfo do proletariado mundial acabará com a guerra e também resolverá o problema espanhol, assim como todos os problemas atuais da Europa e de outras partes do mundo.

Esses “dirigentes operários” que querem amarrar o proletariado ao carro de guerra do imperialismo que se cobre com a máscara da “democracia” são agora os piores inimigos e traidores diretos dos trabalhadores. Temos que ensinar os operários a odiar e desprezar os agentes do imperialismo porque eles envenenam sua consciência. Devemos explicar a eles que o fascismo é apenas uma das formas do imperialismo, que não devemos combater os sintomas externos do mal, e sim suas causas orgânicas, isto é, o capitalismo.

Fossa: Qual é a perspectiva da revolução mexicana? Como vês a desvalorização da moeda em relação à expropriação das riquezas em terras e petróleo?

Trótski: Não posso tratar detalhadamente destes problemas. A expropriação de terras e recursos naturais constitui para o México uma medida de autodefesa nacional absolutamente indispensável. Nenhum dos países latino-americanos poderá preservar sua independência se não satisfazer às necessidades cotidianas do campesinato. A diminuição do poder de compra da moeda é apenas uma das consequências do bloqueio imperialista ao México que já começou. Quando se luta, as privações materiais são inevitáveis. A salvação é impossível sem sacrifícios. Capitular ante os imperialistas significaria entregar-lhes todas as riquezas do país e condenar o povo à decadência e à extinção. É claro, as organizações operárias têm que controlar para que o peso do aumento do custo de vida não recaia fundamentalmente sobre os trabalhadores.

Fossa: O que você pode me dizer sobre a luta de libertação dos povos latino-americanos e seus futuros problemas? Qual a sua opinião sobre o aprismo?[3]

Trótski: Não conheço suficientemente a situação de cada um dos países latino-americanos para me permitir uma resposta concreta às perguntas que você levanta. Em todo caso, parece-me claro que as tarefas internas desses países não podem ser resolvidas sem uma luta revolucionária simultânea contra o imperialismo. Os agentes dos Estados Unidos, Inglaterra, França (Lewis, Jouhaux, Toledano, os stalinistas) tentam substituir a luta contra o imperialismo pela luta contra o fascismo. No último congresso contra a guerra e o fascismo, testemunhamos seus esforços criminosos nesse sentido[4]. Nos países latino-americanos, os agentes do imperialismo “democrático” são especialmente perigosos, pois têm mais possibilidades de enganar as massas do que os agentes descobertos dos bandidos fascistas.

Tomemos o exemplo mais simples e óbvio. Atualmente no Brasil impera um regime semifascista que qualquer revolucionário só pode encarar com ódio. Suponhamos, entretanto, que amanhã a Inglaterra entre em um conflito militar com o Brasil. De que lado estará a classe operária neste conflito? Nesse caso, eu estaria pessoalmente ao lado do Brasil “fascista” contra a Grã-Bretanha “democrática”. Por quê? Porque não seria um conflito entre a democracia e o fascismo. Se a Inglaterra ganhasse, colocaria outro fascista no Rio de Janeiro e amarraria o Brasil com correntes duplas. Se, ao contrário, o Brasil saísse vitorioso, a consciência nacional e democrática deste país ganharia um poderoso impulso que levaria à derrubada da ditadura Vargas. Ao mesmo tempo, a derrota da Inglaterra seria um bom golpe para o imperialismo britânico e daria um impulso ao movimento revolucionário do proletariado inglês. Na verdade, há que ser muito cabeça oca para reduzir os antagonismos e conflitos militares globais à luta entre o fascismo e a democracia. Há que saber descobrir todos os exploradores, escravistas e ladrões sob as máscaras com que se escondem!

Em todos os países latino-americanos, os problemas da revolução agrária estão indissoluvelmente ligados à luta anti-imperialista. Os stalinistas, traiçoeiramente, paralisam ambas.

Em suas negociações com os imperialistas, os países latino-americanos só servem ao Kremlin com pequenas moedas para pequenas trocas. A Washington, Londres e Paris, Stalin diz: “Reconheçam-me como seus iguais e eu os ajudarei a esmagar o movimento revolucionário das colônias e semicolônias; para isso tenho ao meu serviço centenas de agentes como Lombardo Toledano”. O stalinismo se transformou na lepra do movimento de libertação.

Não conheço o aprismo para arriscar um julgamento definitivo. No Peru, a atividade deste partido é ilegal e, portanto, difícil de observar. No congresso de setembro contra a guerra e o fascismo, a APRA, junto com os delegados de Porto Rico, adotou uma posição que, até onde posso julgar, foi valiosa e correta. Resta esperar que o APRA não caia na armadilha dos stalinistas, já que ela paralisaria a luta pela libertação do Peru. Creio que os acordos com a Apristas, para determinadas tarefas práticas, são possíveis e desejáveis desde que se mantenha total independência organizativa.

Fossa: Que consequências a guerra terá para os países latino-americanos?

Trótski: Sem dúvida, ambos os campos imperialistas se empenharão em atrair os países latino-americanos para o turbilhão da guerra e, em seguida, escravizá-los completamente. A conversa-fiada “antifascista” serve apenas para preparar o terreno para apenas um dos dois imperialismos. Para enfrentar a já preparada guerra mundial, os partidos revolucionários da América Latina devem assumir imediatamente uma atitude irreconciliável para com todos os grupos imperialistas. Os povos latino-americanos terão que estreitar mais intimamente seus laços a partir da luta por sua autopreservação.

No primeiro período da guerra, a posição dos países débeis pode se tornar muito difícil. Mas, com o passar dos meses, os imperialistas ficarão cada vez mais débeis. A luta mortal entre eles permitirá que os países coloniais e semicoloniais levantem suas cabeças. Claro, isso também se aplica aos países latino-americanos. Serão capazes de alcançar sua própria libertação se à frente das massas se coloquem partidos anti-imperialistas e sindicatos verdadeiramente revolucionários. Não se pode escapar de situações históricas trágicas por meio de truques, frases vazias ou mentiras mesquinhas. Devemos dizer às massas a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade.

Fossa: Na sua opinião, quais são as tarefas que os sindicatos devem enfrentar, e que métodos eles devem usar?

Trótski: Para que os sindicatos possam nuclear, educar e mobilizar o proletariado para a luta pela libertação, eles têm que superar os métodos totalitários do stalinismo. Os sindicatos devem abrir suas portas aos operários de todas as tendências políticas, desde que na ação se respeite a disciplina. Quem utiliza os sindicatos como arma para atingir objetivos que lhe são estranhos – especialmente como arma da burocracia stalinista e do imperialismo “democrático” – inevitavelmente divide a classe operária, enfraquece-a e favorece a reação. Que reine nos sindicatos uma democracia total e honesta é a condição mais importante para que haja democracia no país.

Para concluir, peço-lhe que transmita minhas saudações fraternais aos operários da Argentina. Não tenho dúvidas de que eles nem por um momento acreditaram nas calúnias nojentas que as agências stalinistas espalharam pelo mundo inteiro contra mim e meus amigos. A luta travada pela IV Internacional contra a burocracia stalinista é a continuação da grande luta histórica dos oprimidos contra os opressores, dos explorados contra os exploradores. A revolução internacional libertará todos os oprimidos, incluindo os operários da URSS.

[1] Retirado da versão publicada em Escritos, Volume X, pág. 39, Editorial Pluma.

[2] International de Amsterdã: com este nome, era popularmente conhecida a Federação Sindical, dominada pelos social-democratas, cujo centro era em Amsterdam. A Frente Popular é a coalizão governamental dos partidos comunistas e socialistas com os partidos burgueses em torno de um programa capitalista liberal. O Comintern adotou a política de frente popular em seu Sétimo Congresso (1935).

[3] APRA (Aliança Popular Revolucionaria Americana): fundada em 1924 pela peruana Haya de la Torre. No auge, ocorreram movimentos aprista em Cuba, México, Peru, Costa Rica, Haiti e Argentina. Foi o primeiro movimento que levantou a necessidade de unificação econômica e política da América Latina contra a dominação imperialista. De caráter populista, seu programa consistia em cinco pontos: ação contra o imperialismo ianque; unidade da América Latina; industrialização e reforma agrária; internacionalização do Canal do Panamá e solidariedade global de todos os povos e classes oprimidas. O APRA posteriormente degenerou em um partido reformista liberal, anticomunista e pró-capitalista.

[4] O “Congresso Mundial contra a Guerra e o Fascismo” teve lugar no México em 12 de setembro de 1938. Seus organizadores stalinistas tentaram alinhar o movimento operário internacional na guerra iminente, em defesa dos imperialistas “democráticos” contra os países fascistas; Os delegados foram nomeados “a dedo” com este objetivo em mente. No entanto, os delegados mexicanos, porto-riquenhos e peruanos argumentaram que os governos aliados também eram responsáveis pela guerra que estava para estourar.

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